A coluna de opinião mais urgente do nosso tempo

Um dos problemas de viver numa cultura periférica é chegar sempre tarde aos brinquedos mais apelativos. Para quem teve uma infância portuguesa nos anos 80, o que isto significava era que os rumores de recreio sobre um "primo da Alemanha" cujos brinquedos se transformavam todos em robots precediam em vários meses o aparecimento de Transformers nas lojas. Para quem escrevia colunas de jornal nos anos 90, a consequência era chegar com meses (ou às vezes com anos) de atraso às mais empolgantes opiniões disponíveis - sobre a "terceira via", sobre os "desafios da globalização", sobre o "politicamente correcto".

Importantíssimas ambições opinativas de origem nacional continuam à mercê de diversos imperialismos culturais e a sujeitar-se a estas inércias de calendário, inércias que a acessibilidade acrescida facilitada pela internet veio paradoxalmente acentuar - podemos tomar conhecimento dos assuntos de vanguarda em tempo real, mas depois é preciso ficar de nariz colado à montra, a tamborilar impacientemente com os dedos na mesa enquanto aguardarmos que vários canais de distribuição sejam activados, e que os fragmentos cheguem aos olhos de gente suficiente para constituir massa crítica. Devidamente equipados com um fenómeno reluzente, acabadinho de baptizar nas páginas do Linha de Montagem Review of Books, percebemos que precisamos de mais gente capaz de reconhecer o fenómeno antes de podermos repetir uns aos outros tudo aquilo que já sabemos.

A "cultura de cancelamento" anda há aproximadamente dois anos (ou quatro, ou trinta, ou dois mil, dependendo de como queremos fazer as contas) neste atribulado périplo de transubstanciação transnacional, gatinhando a caminho da realidade portuguesa depois de várias migrações e mutações no grande estrangeiro que fica lá fora. Um editorial intitulado "A Cultura de Cancelamento e os Novos Guetos Sectários" foi esta semana publicado numa revista nacional. O título gasta metade do orçamento, mas o resto não desilude.

Há muito tempo, por exemplo, que "o país não vivia tamanho sectarismo"? Sem dúvida. Estamos todos enfiados nas nossas respectivas "trincheiras"? Estamos. Há "Manadas?" (Sim). Há "hordas"? (Sim). Ser alvo de críticas ou insultos "nas redes sociais" é comparado a ser lançado "à fogueira"? Claro. "Ser moderado" é hoje em dia "um exercício de imensa coragem"? Com certeza. Tudo isto diz muito sobre o quê? "Sobre o tipo de sociedade em que nos transformámos".

As colunas de opinião mais fáceis de escrever são aquelas cuja matéria-prima é tão nativa da sua própria forma que o produto final surge por geração espontânea, como um fenómeno meteorológico - basta que um certo número de condições prévias se verifique para que a coluna de opinião se manifeste, sempre mais ou menos da mesma maneira. O editorial citado surgiu na Visão, mas identificar a origem é quase irrelevante: o editorial é tão editorialmente editorialíssimo no seu editorialismo que quase é possível imaginar que se escreveu a si próprio.

Essas condições iniciais, neste caso em concreto, são a substância da produção de opiniões, portanto não é de admirar que quem viva de as produzir sinta o assunto como especialmente urgente. Uma das manobras mais fiáveis, de resto, é a de promover uma irritação pessoal (o utilizador kingpascoalinho69 chamou-me "boi facho" nos comentários) a uma crise contemporânea, que requer debates púbicos, estados gerais, soluções políticas, etc.

O erro - e é um erro determinante para alimentar o processo de que faz parte - é tomar isto, quer de um lado quer de outro, como um "debate" no sentido clássico do termo. Quem chega à conversa com esse estado de espírito merece especial misericórdia e indulgência - e oferece aos espectadores os interlúdios mais divertidos, pois o efeito é o de assistir a duas conversas em simultâneo, a velocidades distintas. De um lado, cidadãos do Iluminismo, que cresceram com a imprensa tradicional, e que não percebem porque é que que os mesmos parágrafos de Stuart Mi que memorizaram há 20 anos e serviam para encerrar amistosamente um monólogo, agora nem sequer são ouvidos no meio do barulho; do outro lado, bem, do outro lado, o utilizador kingpascoalinho69, que tem muitos defeitos, mas já sabe o que a casa gasta.

O acto de opinar sobre este assunto específico (que, após a primeira vez, é profunda e inescapavelmente desinteressante para qualquer pessoa normal) consiste apenas em jogar um jogo em que os termos já foram definidos, ad nauseam: está-se apenas a mover a próxima peça no tabuleiro, antecipando o movimento seguinte, que por sua vez serve como justificação para o movimento que acabámos de executar. O espectro de respostas possíveis é igualmente limitado e igualmente cansativo: a coisa depressa se transforma num duelo entre Aquiles e a tartaruga, para ver quem chega primeiro à hipocrisia mais flagrante. (Porquê falar no incidente x como "cancelamento" se nunca se falou no incidente y?, etc.) É possível ler cinquenta artigos sobre isto sem nunca ficar surpreendido nem encontrar algo que se desvie um milímetro da mesma grelha de opções: o fenómeno é 1) "uma ameaça existencial" sem precedentes; ou então é algo ao mesmo tempo 1) ineficaz, 2) que não existe, 3) que é praticado exclusivamente pelo "outro lado".

Muitas destas aparentes contradições são atenuadas se pensarmos no fenómeno como uma manifestação (ou distorção) de certos aspectos de uma mais vasta "cultura online", em que todas estas conversas já foram tidas centenas de vezes, e em que todos já chegamos a estes argumentos com 90% do trabalho de feito, catalogado e armazenado. Em espaços como o Twitter, quando se quer perceber para onde é que as atenções agregadas se reorientaram a cada momento, é tão importante decifrar o que não foi escrito como aquilo que se lê. E o que não é dito não é dito porque já foi dito antes, e porque a incessante curadoria identitária inerente às plataformas permite, entre outras proezas de eficiência, que toda a gente trate posições "políticas" como filiação numa subcultura, em que "ser marxista" ou "ser conservador" obedecem às mesmas pulsões a maneirismos que "ser punk" ou "ser gótico".

Debaixo desta constelação de macros, sinédoques e atalhos, qualquer "conversa" pode ser reduzida à sua pré-história implícita, e depois a um estilo específico de reiteração. O seu propósito não é fornecer um modelo para explicar a realidade, mas apenas sinalizar que se partilha com o público-alvo um modelo que já existe. É possível que alguns dos lamentos genuínos sobre a "cultura de cancelamento" sejam sobre este receio concreto: o de que um adereço nosso tenha sido entretanto preventivamente classificado como um livro de estio alheio.

Mais frequentes que os lamentos genuínos, no entanto, são os esforços, conscientes ou não, para tornar o assunto importante - não definindo rigorosamente o problema, ou propondo soluções, mas mantendo vivo um aparato de preocupação.

Se de facto o fenómeno existe e com a dimensão anunciada, as perguntas que ficam sempre por fazer são saber como é possível um processo tão descentralizado e desorganizado afectar a vida de tantas pessoas (seja ao nível de segurança profissional, seja ao de saúde mental), e se há condições sistémicas que determinam essa vulnerabilidade.

O que fica depois de todas estas repetições e subtracções são duas premissas, cada uma terrível à sua maneira, cada uma tão difícil de assimilar e encarar para produtores profissionais de opiniões que a resistência é instintiva, e tende a reconfigurar-se em todas estas formas bizantinas. Uma premissa é económica, a outra não: a) nenhum produtor de opiniões é insubstituível; b) nenhuma das suas opiniões tem a mínima importância.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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