A burguesia está no Estado

O leitor vai perdoar-me a repetição do impulso, mas a memória é um amor irrefreável. Tornou-se demasiado difícil ler a conjuntura nacional e toda a sua excentricidade sem retroceder até aos tempos luminosos da geringonça, da esquerda unida em regozijo e das vacas que, na altura, voavam. Peço-lhe paciência, caro leitor, e retribuirei pertinência.

Voltemos ao outono de 2017. Não foi, afinal, há tanto tempo assim. Consegue lembrar-se? Em uma semana, o país passou por três montanhas-russas cujos carris permanecem oleados e de enjoos ainda familiares: uma sanitária, uma tecnológica e uma ideológica. Não se lembra, pois não? Parece ter sido há mil anos, eu sei. Na semana que dividiu o final de outubro e o início desse novembro, Portugal acolheu a Web Summit, comemorou o centenário da revolução soviética e sofreu um surto de legionela.

Em mais uma esplendorosa demonstração de agilidade e ecumenismo, António Costa conseguiu lidar com uma crise sanitária, com o maior evento de tecnologia do planeta e com um parceiro parlamentar que tecia louvores a Lenine, num espaço de sete dias. Até o sino de bolsa de Wall Street foi trazido para Lisboa, onde se celebrava o capitalismo na Meo Arena e o comunismo no Campo Pequeno, à escassa distância de sete mil metros e uns quantos mais mortos.

Adiante. Talvez apenas separados pelo passar dos anos e pelo sossegar das paixões consigamos detetar estas ironias na nossa história recente. Uma forma de tentar fazê-lo mais antecipadamente, caro leitor, é através de um exercício simples: imaginemo-nos estrangeiros, aterrados ontem no Porto. Na Avenida dos Aliados, tal qual Europa de Leste antes da queda do Muro, bandeirinhas da foice e do martelo foram penduradas nos candeeiros de rua, em tributo a mais um centenário. No debate económico, as propostas, boas ou não, chegam-nos igualmente imersas no linguajar da luta de classes: a burguesia do teletrabalho tem de pagar! Na realidade política, todavia, o sentimento é menos simples.

Numa investigação publicada pelo jornal Observador, ficámos a saber que o governo português, ao abrigo da sua presidência europeia, fez ajustes diretos que ultrapassam os oito milhões de euros. Em gravatas e lenços "personalizados", o Estado gastou 69 mil euros. Em vinhos e espumantes, 35 mil. Em fatos e camisas, 39 mil, para motoristas que conduziriam as muitas delegações que, com a pandemia, não visitarão Portugal. No aluguer das respetivas viaturas, a quantia ascende a mais de meio milhão. No Politico, escreveu-se também que a presidência portuguesa investiu 260 mil euros num centro de imprensa para jornalistas estrangeiros que, com a pandemia, ficaram em teletrabalho. Para um país a viver "a maior crise da sua vida", os bolsos aparentam uma arrepiante largura.

Mas mais relevante do que o espalhafato em comunicação e orçamento, o que não passa despercebido é a falta de transparência dos vários contratos. Além dos fatos que ficarão por vestir e do álcool que ficará por beber (pelo menos, pelas gargantas originalmente destinadas), veem-se empresas com um mês de existência (!) e 2 euros de capital social (!) a lucrarem escandalosamente com o erário público, em mais uma prova de que o capitalismo que vai sobrevivendo em Portugal é aquele que depende do Estado. E perguntemo-nos, caro leitor, como se fôssemos os tais recém-chegados a esta pasmaceira, se a "burguesia", no fim de contas, não é mesmo o Estado. A única entidade que ainda consegue comprar um fato, beber um copo e fazer negócio, enquanto o país, fechado em casa, arde.


Colunista

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