A arena e a indefinição

Os debates presidenciais, concluídos com um confronto entre todos nesta semana, expuseram fraquezas e produziram protagonistas.

A eleição para a chefia do Estado tornou-se, várias vezes, um debate parlamentar e partidário, julgando o incumbente como se este tivesse o poder executivo que não tem (mas várias vezes pareceu ter...) e apresentando propostas e bandeiras como se a presidência fosse um governo, que não é.

A circunstância é, em tudo, particular, na medida em que o PS, que ganhou as últimas três eleições nacionais (autárquicas, europeias e legislativas), não apoia ninguém oficialmente e em que BE e PCP, que apoiaram a sua governação, criticam anos de políticas que suportaram na Assembleia. São também umas eleições particularmente jovens, em que todos os candidatos exceto Marcelo Rebelo de Sousa e Ana Gomes têm menos de 50 anos, e talvez essa energia se tenha feito valer.

Os duelos individuais, num formato curto e agressivo de 30 minutos em televisão, favoreceram essa aparência de arena de combate, não sendo por acaso que as presenças de André Ventura ganharam o campeonato de audiências. Foi muito curioso notar como os apoiantes do líder do Chega e os apoiantes de qualquer um que debatesse contra ele celebravam sempre a vitória do embate, como se ninguém perdesse num espetáculo de trocas de acusações, mas pouco conteúdo. Na ida às urnas, no próximo dia 24, entenderemos melhor se o sucesso televisivo de Ventura se resumiu a curiosidade popular ou se é concretizável em adesão eleitoral.

Houve, no início da corrida, um claro problema de identificação política e confusão ideológica que beneficiou uns e prejudicou outros.

Ana Gomes defender a ação política do MRPP, a que pertenceu, como tendo um propósito democrático, foi eufemístico. A sua denúncia de "perversões neoliberais" no Partido Socialista, um partido virado à esquerda na última meia década, roçou a fantasia. Marcelo hesitar em dizer se votaria ou não em Marisa, sendo ele fundador da direita democrática, correspondeu a outro exemplo dessa indefinição. Marisa Matias, de um partido que marcha anualmente contra o capitalismo, afirmar-se "social-democrata" revelou uma idêntica procura de ambiguidade. E foi nessa ambiguidade que candidaturas ideologicamente mais francas, como João Ferreira, à esquerda, ou Mayan Gonçalves, à direita, acabaram por sobressair.

Marcelo cresceu quanto mais foi atacado, desarmando Ventura, Ana Gomes e Mayan com a habilidade das décadas de estúdio e política que os outros não têm, e quanto mais distante ficou do governo, a braços com as fragilidades da ministra da Justiça e do ministro da Administração Interna.

Não se percebeu, nem com o debate desta semana, as razões para Ana Gomes ser candidata à Presidência da República. Sem o apoio do seu partido, contra a vontade de um primeiro-ministro ainda popular e o favoritismo de um Presidente popularíssimo, o seu desprendimento é louvável. Mas haverá algo que defendeu nestas presidenciais que não poderia ter continuado a defender no seu comentário semanal na SIC? Não teria sido Marisa, depois do resultado de 2016, uma representante mais mobilizadora da sua área política?

Quanto a Vitorino Silva, cuja autenticidade é quase comovente, deu-se algo simbólico mas por assinalar: ouvir um orgulhoso calceteiro defender que o acesso à saúde não interessa se público ou privado, desde que se o consiga, mostra como o debate de ideias em Portugal está a mudar, por mais que tudo o resto vá ficando na mesma.

Colunista

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