A Arca de Noé 2.0

A reação na imprensa europeia à maior "catástrofe natural" na Alemanha do pós-guerra, provocada pelas alterações climáticas antropogénicas, é reveladora do ceticismo dos cidadãos perante o futuro, e a crescente perda de confiança nos governantes e na capacidade de o sistema político produzir verdadeiros bens públicos. O alerta de Benjamin Constant, em 1819, para os lóbis da riqueza que, em silêncio, chegam mais longe do que a voz dos eleitores, torna-se mais visível quando, como agora, tragédias evitáveis ocorrem.

Nikolas Busse, no Frankfurter Allgemeine Zeitung, apela para políticas de adaptação, face aos riscos atuais e futuros já inevitáveis. A Alemanha contribui com 2% das emissões globais de gases de efeito estufa. Sem reduções radicais de EUA, China e Rússia, a situação não vai mudar. E será sempre num horizonte de muito longo prazo. Com mais ou menos energia de fontes renováveis, a retórica da mitigação universal não pode deixar as regiões desamparadas. Tonia Mastrobuoni, em La Repubblica, estabelece o contraste entre a angústia dos milhares que viram a sua vida varrida pelas águas e os jogos de xadrez de políticos egoístas e sem coragem para ir além da eleição seguinte. Na UE, o Pacto Ecológico está ser atacado por todos os lados, ainda antes de ter levantado voo. Exemplos: Macron, com medo dos Coletes Amarelos, quer evitar a penalização dos carros a gasóleo. O governo polaco, por seu turno, continua a defender o mais perigoso de todos os combustíveis: o carvão. Stéphane Bussard, no periódico suíço Le Temps, olha para a política alemã. A entrada em força do tema das alterações climáticas - como já tinha sido o caso nas eleições de 2002, também assoladas por cheias, embora menos agressivas - pode alterar a tendência de voto. A pequena vantagem do cinzento Armin Laschet, líder de uma CDU a caminho de ficar órfã de Angela Merkel, pode esvair-se a favor dos Die Grünen. Laschet deve estar neste momento à procura de um buraco onde se esconder. Ele tem governado a Renânia do Norte-Vestefália, um dos estados federados mais atingidos pelas cheias. Aí notabilizou-se pela defesa do carvão, que quer manter como fonte energética até 2038, e pelo combate à energia eólica. O artigo mais acutilante vem da Eslováquia, do periódico em língua húngara Új Szó. Nyerges Csaba confessa a sua descrença. Não acredita que a humanidade atual, depois de ter os dois pés do lado errado do abismo, tenha força ou vontade para recuar. O caminho será o de queimar as últimas velas da grande bouffe da sociedade consumista, num comportamento totalmente semelhante ao de um vírus (a imagem é do autor eslovaco...). Há, contudo, uma nota de sombria esperança: talvez os sobreviventes da próxima Arca de Noé possam levar para o seu recomeço algumas lições desta colossal tragédia planetária de que somos, tudo o parece indicar, os exclusivos responsáveis.

As coisas são contudo mais complicadas. Diabolizar os políticos pela sua venalidade e incompetência é esquecer que são os cidadãos comuns, nós, que os elegem, e reelegem. Entre a cegueira voluntária, a que aderem até muitos académicos, e o fatalismo, disfarçado de sábia resignação, perante o deslassamento da civilização, há um estreito caminho de reconstrução da ação coletiva a fazer com rigor político e ético. Para evitar a necessidade da Arca de Noé, ou, no limite, até para permitir que ela volte a flutuar.

Professor universitário

(O autor retomará o contacto com os leitores na edição de 21 de agosto)

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