A acupunctura em Odemira

Há pouco, Odemira entrou e saiu num ápice dos nossos noticiários, sem que tivéssemos o tempo e a clareza suficientes para sabermos se por lá se praticam, ou não, as artes da acupunctura. O ponto é mais relevante do que parece e Zeca Afonso debateu-se com ele já antes do 25 de Abril, ainda que A Acupunctura em Odemira só tenha visto a luz do dia em 1978, no álbum Enquanto Há Força, a par de pérolas como Barracas Ocupação, feita para a peça homónima de Richard Demarcy, dramaturgo francês e homem do Maio 68, que o ajudara na gravação de Grândola.

José Afonso, que assinava a letra e, em parceria com Fausto Bordalo Dias, a música de A Acupunctura em Odemira, descreveu-a como "uma canção vagamente negativista" sobre o que era falado na imprensa, na rádio e na TV ainda antes de 1974, quando o surgimento de um centro de acupunctura na vila alentejana constituiu, imagine-se, facto digno de notícia. Num livro acabado de sair, Uma Vontade de Música - As Cantigas do Zeca, Octávio Fonseca diz que A Acupunctura em Odemira é uma diatribe contra a sociedade de consumo e que essa é a música de todo o álbum que mais se aproxima das tendências surrealizantes de Zeca, num registo que Fonseca caracteriza como de "neo-realismo satírico".

Ouçam a música no YouTube.

Quanto à letra, ei-la:

Ainda bem que é verdade
Ainda bem que é mentira
A acupunctura em Odemira
Ainda bem que há quem viva
Em Odeceixe
E se peide à vontade
Na Rua Espinha de Peixe
Eu bem sei a Cergal a Super Bock
A volta ao mundo pelo cabo de São Roque
Em Abril águas mil
Ponto final
Ainda bem que é para breve
O festival
Ainda bem que amanhã
É a ciclorama
E o campeonato do mundo no primeiro programa
Ainda bem que apostei no totobola
Todos os dias são santos, Dona Aurora

Assim descarnada da melodia e, sobretudo, da inigualável voz de José Afonso, talvez não nos apercebamos bem da ironia da coisa, do gozo desgastado e ácido com que é retratada a palermice provinciana de noticiar a chegada à vila de Odemira de um "progresso" materializado sob a forma de agulhas chinesas e medicinas alternativas. O festival, a ciclorama, o campeonato do mundo e o totobola, as marcas de cerveja, tudo narcóticos que abalaram a pacatez de uma terra à beira-mar onde agora vivem milhares de imigrantes ilegais, quase sempre em condições deploráveis, para alimentarem o frenesi do gasto e do consumo, hoje até mais intensos e loucos do que no tempo em que aquela música foi escrita e cantada.

Num tempo em que as polémicas intelectuais estão convertidas em objectos de consumo rápido, vem isto a propósito de uma controvérsia recente, ainda fumegante, desencadeada pela intervenção do Prof. Nuno Palma na 3.ª Convenção do MEL (e convém tratá-lo pelo título PhD. que tem e exibe, já que, num momento escusado, infelicíssimo, ele extravasou para o plano pessoal e referiu-se a um dos seus contendores como "licenciado Pacheco Pereira", qualificando-o como "académico falhado"). A existência do Prof. Palma foi sinalizada num artigo do licenciado João Miguel Tavares no Público em que este denunciou, e bem, alguns grunhos que, à conta daquela palestra, quiseram cancelar o rapaz, fizeram queixinhas dele ao estabelecimento onde lecciona (Manchester, parece) e até vieram gritar que o moço defendera o regime do Oliveira Salazar, o que não era de todo verdade, como logo notou a voz lúcida e independente do Prof. Vasco M. Barreto.

A partir daí, montou-se a tenda e armou-se a polémica, rija e viril, com um odor a suor e sémen que pronto nos traz à lembrança uma observação penetrante de Michel Houellebecq em Intervenções, onde aquele diz que as sociedades contemporâneas exacerbam ao máximo o desejo sexual, mas fornecem condições mínimas para que o mesmo se satisfaça, daí resultando uma enorme frustração, colectiva e individual, que acaba por nos trazer a todos nós, cidadãos e sociedades, bastante infelizes e tensos. Exemplo dessa insatisfação crispada são as polémicas dos intelectuais portugueses, as quais nunca têm por propósito esclarecer quem quer que seja sobre o que quer que seja ou fazer com que alguém forme ou mude de opinião, visando tão-só compensar o ego dos protagonistas por frustrações sentidas noutros planos de suas vidas. Tudo acaba por se resumir, assim, a um puro exercício cénico e performativo, com os artistas em palco a actuarem apenas para a própria claque, sendo totalmente irrelevantes quer o tema que se disputa (e que tanto pode ser o Estado Novo, o atraso secular lusitano ou a acupunctura em Odemira) quer a qualidade dos argumentos manejados na esfrega da refrega e seus refegos.

Tal qual as notícias dos migrantes do Zmar (rectius, do Zmar Eco Experience), as nossas polémicas ocupam as páginas dos jornais durante breves semanas e depois, de súbito, desaparecem, esfumam-se, deixando-nos todos a augar por mais. Então, quais pugilistas do espírito, os lutadores, sem nunca terem saído do ponto de partida, pois ceder um milímetro é sempre derrota, regressam a suas casas extenuados, amarrotados, lambendo as feridas do combate erótico, mas muito satisfeitos consigo próprios e plenamente convictos de que arrumaram o adversário por KO técnico (o verbo de estilo é "arrasar"). De permeio, há sempre um truque retórico que dá azo a um momento de falsas tréguas ou Weihnachtsfrieden, que é quando um dos galos de briga diz que o seu adversário, afinal, até "elevou o debate" e concordou com ele neste ponto e naquele, sem nunca dizer, claro está, em que ponto ou pontos ele até concorda também com o adversário. Esse momento zen surgiu há dias, no Público, num derradeiro artigo do Prof. Palma, que, espera-se, ponha termo a este duelo em papel impresso (para os mais jovens e imberbes nestas coisas, publicar o último artigo, sem réplica, é sinal de retumbante vitória, a prova mais concludente de que o adversário ficou mesmo "entupido" ou, melhor dito, "arrasado")

Colocada a coisa neste plano, e é apenas neste plano que a coisa tem de ser colocada, pois outro não há, de nada interessa saber se o Prof. Palma tinha ou não razão no que disse, cabendo tão-só apreciá-lo do ponto de vista da sua performance na Feira das Indústrias, em Maio passado. E, quanto a isso, por muito boa vontade que tenhamos, somos forçados a concluir que, nesta sua estreia em campo, o académico de Manchester, apesar da gravata & lenço, esteve poucochinho e desiludiu muito. Desde logo, porque não se apercebeu, ou se se apercebeu não percebeu, de que talvez não fosse grande ideia vir a Lisboa falar de coisas boas do Estado Novo (analfabetismo, economia) num encontro que era um encontro político, não um Olimpo universitário. É que, como dizia o outro, "em política, o que parece, é" e, talvez imerecida e abusivamente, Palma, o profeta, acabou estirado. Agora, em esforço e em perda, tenta esbracejar que "a política se pode separar da economia", o que não é manifestamente verdade, como o desastre das suas intervenções vem mostrando. É aliás a política, sempre ela, que nos obriga a perguntar-lhe, e à sua consciência, se, feitas as contas, sopesando tudo, preferia o Prof. Palma viver na ditadura transacta, com "modernização" e "progresso", ou no actual regime democrático, posto que "atrasado" e "esquerdista", mas onde ele e outros palmas como ele sempre podem ir alegremente opinando, ainda que a espaços. Outra dúvida: estando o regime de Salazar em tão nítido progresso e desenvolvimento social nos anos 1960, com acupunctura no Alentejo e tudo, porque terá então migrado um milhão de portugueses para as odemiras da Europa? E porque é que, não muito depois, estalou uma revolução em Lisboa, com êxito e sem sangue, avalizada depois pelo voto de 91,66% dos eleitores, no sufrágio mais participado da história da nossa democracia?

Na parte final da sua intervenção

num trecho a que poucos deram importância - e, esse sim, bem elucidativo -, critica o Prof. Palma a Constituição de 1976 por consagrar direitos a mais, ficando por esclarecer que direitos se propõe ele suprimir da nossa Lei Fundamental e, já agora, que acolhimento teria uma proposta como essa junto dos seus compatriotas. Uma vez mais, é a política: segundo Palma, Portugal é um "mix corporativista e esquerdista", mas, ao fim de 74 actos eleitorais e cinco décadas de democracia, não será estranho que assim se mantenha? De resto, é sintomático que, na sua intervenção, nunca seja através do voto popular e da democracia que o Prof. Palma se propõe mudar o statu quo, confiando a sua razão de esperança, apenas e tão-só, na União Europeia e na força regeneradora de Bruxelas.

Outro culpado do nosso atraso, Palma dixit, é o "excesso de regulação", uma ladainha que já ouvimos noutras paragens e que levou o disparatado Clinton a revogar a lei Glass-Steagall, abrindo as portas à catástrofe de 2007-2008. Ora, importa saber se foi mesmo tal "excesso de regulação" ou antes a sua ausência e o seu incumprimento que levaram à crise financeira mundial e, entre nós, a desastres como os do BES, Berardo e quejandos. Eis um ponto que os neoliberais nunca explicam, mas que se lhes exige que expliquem: como eclodiu a mais grave crise financeira, económica e social desde o crash de 1929? Por ambição colectivista, excesso de intervenção do Estado e de regulação? Ou, ao invés, pela falta de uma regulação rigorosa e de uma supervisão actuante, para que, essas sim, permitissem um funcionamento mais transparente e verdadeiramente livre do mercado, sem ladrões nem abusos?

Entendamo-nos: a Europa do pós-guerra conheceu um período de paz, prosperidade e bem-estar social sem precedentes na história humana porque existiu na altura um consenso político que agora, tragicamente, vemos desvanecer-se à esquerda e à direita, com uma e outra a resvalarem para extremos que a nada levam e tudo destroem. E foi esse consenso, hoje ameaçado pela tribalização reinante, que permitiu uma convivência harmoniosa entre intervenção do Estado e mercado livre, com ganhos para todos. Caro Prof. Palma: se Portugal conheceu nos anos 1960 um notável crescimento económico, que ninguém de bom senso nega, foi porque pertenceu a uma organização chamada EFTA, cujos outros países fundadores (Suécia, Reino Unido, Dinamarca, Suíça, Noruega, Áustria) não eram, longe disso, economias capitalistas de mercado, de onde o Estado estivesse ausente. Vi agora, no seu último artigo no Público, que define a economia do Estado Novo como uma "economia de mercado, progressivamente integrada no mercado europeu". É espantoso: no tempo de Salazar, não havia, portanto, condicionamento industrial e uma fortíssima intervenção do Estado na economia, no mercado, nos preços ao consumo?

Agora, coisas mais sérias: lamento muito dizê-lo, mas, na 3.ª Convenção do MEL, no passado dia 25 de Maio, o Prof. Nuno Palma ludibriou os presentes, que até o aplaudiram copiosamente nesse trecho, e proferiu uma falsidade grosseira. Afirmou ele - e podem ouvi-lo no YouTube

- que, no programa de História do 12.º ano de escolaridade, o comunismo "só é mencionado uma vez, sem ser criticado" e que "a bibliografia são obras do marxista Hobsbawm e de Fernando Rosas" (sic). Não sei que documento viu ou leu o Prof. Palma, mas o que disse é falso, é mentira, uma descabelada inverdade. No programa de História A, do 10.º ao 12.º anos de escolaridade, elaborado por Clarisse Mendes et al., e consultável no site do Ministério da Educação (https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Secundario/Documentos/Programas/historia_a_10_11_12.pdf), fala-se do estalinismo como "opção totalitária" e da "repressão" que exerceu (p. 49) e, mais adiante, do "expansionismo soviético" (p. 54) e do "colapso do bloco soviético" (p. 58). E, na vasta bibliografia (pp. 63 e segs.), encontramos diversas obras de portugueses insuspeitos de esquerdismo, a saber: João Carlos Espada, Jorge Borges de Macedo, Maria de Fátima Bonifácio, José Hermano Saraiva, Fátima Patriarca, Manuel Braga da Cruz, António Costa Pinto e Jaime Reis.

Dizer o que o Prof. Palma disse do programa de História A (nas Aprendizagens Essenciais o estalinismo é comparado, inclusive, ao nazismo e ao fascismo) constitui um insulto à deontologia dos professores que o elaboraram e que o aplicam diariamente e também um insulto a sucessivos governos deste país e aos seus ministros da Educação: ao contrário do que podem ter julgado os incautos participantes na Convenção do MEL, esse programa não foi aprovado há pouco pela "geringonça", foi homologado pelo governo Guterres em 2001-2002 e mantido sem sobressaltos pelos executivos de Durão Barroso, Santana Lopes, mestre Sócrates, Passos Coelho, António Costa. É mau o programa? Talvez. Mas não é, decididamente não é, aquilo que o Prof. Palma nos fez crer que é, omitindo inclusive que um dos autores constantes na bibliografia é Jaime Reis, com quem Nuno Palma escreveu o artigo "Can autocracy promote literacy?", no qual, com uma metodologia inovadora, se chega à conclusão - de resto, há muito dita por muitos, à direita e à esquerda (ex. Sampaio da Nóvoa, António Candeias) - de que o Estado Novo teve, desde os seus alvores, melhor desempenho no combate ao analfabetismo do que a Primeira República. Feito com o rigor e a qualidade de Jaime Reis, o que esse importante texto tem de inovador e original, além da metodologia utilizada, é a tese de que aquele indiscutível êxito do Estado Novo deveu-se ao facto de a educação salazarista, ao contrário da republicana, não ter hostilizado a Igreja e as famílias, de estar muito mais sintonizada com o "país real" e o seu povo. A isso chamam os autores a "explicação cultural" para o sucesso do combate ao analfabetismo após 1926. Simplesmente, se o êxito de uma política pública (de alfabetização ou qualquer outra) depende da sua inserção num dado meio cultural e mental, e se o Prof. Palma diz que o nosso meio cultural e mental nunca foi liberal e que até é há décadas corporativista e estatista, como poderá ter sucesso uma política liberalizadora e defensora do mercado, avessa a uma cultura e a uma mentalidade tão enraizadas? Nos dias de hoje, uma "revolução liberal" na economia não seria o equivalente da ineficaz "revolução republicana" na educação em 1910? Como se vê, além de mentir grosseiramente sobre o conteúdo dos programas escolares, o Prof. Palma-ideólogo contradiz o Prof. Palma-académico, e vice-versa, com claro prejuízo para ambos - e para todos nós.

Com a sua intervenção, ganhou o Prof. Palma efémera fama e até possíveis contratações televisivas (atenção, todavia, à dicção e à colocação de voz, pavorosas), mas estragou a festa para a qual foi convidado. Por causa dele (e doutras bizarrias, como a palestra-comício do Prof. Ventura), o MEL passou a ser considerado um meeting saudosista e nostálgico, com o seu quê de lúgubre, sebastiânico. Sempre tremendista e feroz, o forcado licenciado Pacheco apressou-se a retratá-lo exageradamente como uma convenção neonazi, que nem isso o foi. Já o Prof. Rosas, mais macaco, mobilizou a seu favor os números e as percentagens e, portanto, tosquiou o miúdo na estatística, mas também não resistiu à tentação de falar um bocadito e de fazer o bonito para a sua seita, pós-doc e barbuda, ao insinuar, e mal, que o jovem colega de Manchester namoriscara ao Ventura as ideias e o porte, o que é falso. Pouco versado no jogo de cabeça, o Prof. Loff entrou no relvado a pés juntos, como sempre, mas sem fazer mossa na equipa adversária, e a Prof.ª Irene, querendo também molhar a sopa e fazer prova de vida, acusou na sua intervenção o desgaste argumentativo de quem aposta agora noutros mercados caceteiros, mais hard core e potentes, os das redes sociais e das caixas de comentários. Aguarda-se o sempre pertinente contributo da Prof.ª Varela, talento que despontou para o desporto-rei da polémica na época crise financeira 2008-2009, mas que anda agora mais recatado, quiçá aburguesado por colares de pérolas e férias de neve. Quanto ao licenciado Marques Lopes, não sei se já opinou na contenda, tantas são as plataformas por onde se desdobra, mas, se o não fez, deveria fazê-lo asap, pois é sempre reconfortante ouvir a opinião de alguém que, num mundo ideal, estaria óptimo ao volante de um Uber. Sem credenciais de espécie alguma e uma incultura enciclopédica, bonacheirão e simpático, apto a dois dedos de conversa sobre o dérbi da véspera e pouco mais do que isso, nada tem ele que se assemelhe a outro Marques e Pedro, o eurodeputado-vendedor Remax que veio acusar o Palma de artista fascista e abaixo disso. Foi, aliás, por essa imbecilidade oriunda de Estrasburgo que começou uma zaragata que terminará em breve e a contento de todos, como sempre sucede nestes jogos florais amigáveis. Até lá, acupunctura em Odemira, muita.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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