Opinião

Carlos Rosa

O algoritmo do olhar

O conflito entre o ser humano e as máquinas no cinema remonta há quase cem anos. Metropolis (1927), de Fritz Lang, aborda essa temática e é capaz de ser o filme de sci-fi mais influente de sempre. Arrisco a dizer que Metropolis será talvez o ponto de partida para as distopias adivinhatórias, que se materializam primeiro na literatura e no cinema. Será talvez também o ponto de partida para a convenção de um algoritmo social e moral, que ganha relevância em filmes como Blade Runner (1982 e 2017), A.I. (2001), Os Substitutos (2009) e Her (2013).

Carlos Rosa
Isabel Capeloa Gil

O país exausto

A viver o segundo verão de pandemia, Portugal dá sinais de um cansaço vital, que se estende da política à comunicação, da economia à saúde. Os portugueses estão cansados do vírus, do ziguezague das normas sanitárias, das verdades científicas, das fake news, do elogio e da crítica da tecnologia, do isolamento forçado, do trabalho remoto. O governo demonstra a exaustão decorrente da gestão da maior crise sanitária da época moderna e os cidadãos demonstram uma apatia interrompida apenas por explosões celebratórias - como os festejos do Sporting - ou conflituais - como o vandalismo de Mil Fontes.

Isabel Capeloa Gil
Maria da Graça Carvalho

Ranking de Inovação. Mais do que uma queda, o retrato de uma realidade

A descida de sete lugares no Ranking Europeu de Inovação, que voltou a colocar-nos entre os países moderadamente inovadores apenas um ano depois de termos chegado pela primeira vez ao grupo da frente, não é obviamente uma boa notícia. No entanto, os indicadores relativos ao nosso país têm a virtude de deixarem bem claros os problemas de fundo que nos impedem de crescer ao ritmo a que desejaríamos e que nos levam até a desperdiçar muitos dos ganhos, nomeadamente em termos de qualificação da população e de capacidade científica, que fomos registando ao longo dos anos.

Maria da Graça Carvalho
Rosália Amorim

De insensível a indiferente

Vai a "uniformidade de medidas", de que falou ontem a ministra da Saúde, Marta Temido, acabar com as restrições por concelhos? A mensagem à saída da reunião do Infarmed, que decorreu nesta terça-feira, não foi clara, mas várias autarquias celebram já um possível ponto final nas limitações. Aliviar as medidas restritivas foi o tom de todo o encontro de especialistas, mas nenhum deles recomendou (ainda) qualquer aligeirar de políticas sem olhar aos sinais individuais de cada área geográfica.

Rosália Amorim
João Pacheco

O saldo parlamentar

A pandemia da covid-19 serviu e serve - porque ainda dura - para percebermos e compreendermos muitas coisas. Enfim, tem permitido aprender e no que respeita à política, até os mais distraídos foram obrigados a aperceber-se do papel do parlamento e das atribuições e dos impactos da matéria que decide. Desde logo, pelas sucessivas renovações do Estado de Emergência. Aliás, a pedrada no charco sobre a utilidade da Assembleia da República corresponde à "geringonça", que para a opinião pública se revelou o inédito da contemporaneidade política.

João Pacheco
Guilherme de Oliveira Martins

A Escola Froebel...

Há dias, junto do coreto do Jardim da Estrela, António Homem Cardoso recordou-me que aquele era um cenário que nos lembrava o tempo do Passeio Público. De facto, recordando-nos de Eça de Queiroz, foi no velho Passeio, no enredo de O Primo Basílio, que Jorge conheceu Luísa e foi lá que D. Felicidade esperou pelo conselheiro Acácio, afrontada por flatulências. Aquele belo coreto da Estrela, o maior da capital, nasceu a pensar no fim do Passeio Público e foi da autoria do prolífero arquiteto José Luís Monteiro, que também assinou a Estação do Rossio e a Sala de Portugal da Sociedade de Geografia. O coreto foi inaugurado em 1894 na Avenida da Liberdade (depois de estar dez anos desmontado num armazém), tendo sido, apenas em 1936, transferido para onde está. A história conta-se em duas palavras: na reconstrução de Lisboa depois do terramoto, Sebastião José encarregou em 1764 o arquiteto Reinaldo Manuel de projetar um parque à inglesa, no leito alagadiço da ribeira de Valverde, nos terrenos das Hortas da Cera, da Mancebia e de São José, que ficou concluído entre 1773 e 1777. Depois da vitória liberal em 1834, houve uma renovação do Passeio Público, a construção de uma imponente cascata, a implantação das estátuas decorativas dos rios Tejo e Douro e o rebaixamento dos muros. Mas com o impulso de José Gregório Rosa Araújo, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e segundo o plano da autoria de Frederico Ressano Garcia, sob um coro de protestos, o Passeio Público foi demolido, dando lugar em 1879 à Avenida da Liberdade, segundo o modelo parisiense.

Guilherme d'Oliveira Martins
Sebastião Bugalho

Uma tarde com Brad Mehldau

No que toca a reuniões entre amigos ao fim da tarde, o jazz não é estranho e a música tão-pouco dispensável. Em 1985, uma das mais célebres e fraternas duplas do género gravou An Elegant Evening ("Uma tarde elegante"), álbum em estúdio gravado com a voz de Mel Tormé e o piano de George Shearing. A parelha é aqui evocada pelo seu ecumenismo e longevidade na colaboração. Também o trio de Brad Mehldau, que tocou no Centro Cultural de Belém nesta quinta-feira, proporcionou uma tarde elegante aos ouvintes lisboetas; variada, familiar e quase comovente.

Sebastião Bugalho
João Melo

A América e a democracia global – o que faltou dizer

No artigo publicado aqui no passado dia 13 de julho deste ano, comentei a pretensão anunciada pelo presidente americano Joe Biden de liderar o combate global para defender a democracia, ameaçada por aquilo a que se tem chamado "derivas autoritárias". Apontei então algumas limitações dessa pretensão. As duas teses principais do artigo eram que, para desempenhar esse papel, a principal potência mundial precisa, primeiro, de resolver o problema das ameaças internas à sua democracia, protagonizadas pelo trumpismo, e, segundo, de articulá-lo com as principais instituições multilaterais existentes, a começar pela ONU. Só faltou concluir que, caso contrário, estaremos de volta à "América de Bush", quando os EUA pensavam que podiam implantar a democracia em outros países (os que lhes interessavam) à custa de invasões e "revoluções" híbridas.

João Melo
André de Aragão Azevedo

Um novo ciclo

Vivemos um período único na nossa história, não só pelas alterações conjunturais e estruturais resultantes da crise pandémica, mas porque concluímos com êxito a presidência do Conselho da União Europeia (PPUE), coincidindo com um novo quadro comunitário, que possibilitará oportunidades, sem paralelo, em termos de investimento, reformas estruturais e transição para um modelo económico mais competitivo, no qual a inovação, a digitalização e as startups serão fundamentais.

André de Aragão Azevedo
José Sócrates

Os justiçáveis 

Tudo igual, tudo igual, tudo desesperadamente igual. A detenção usada para investigar e a violação do segredo de justiça usada para difamar. No centro da ação mediática já não está uma pessoa com os seus direitos, mas um alvo a que ninguém dará ouvidos quando chegar a sua vez de dizer qualquer coisa em sua defesa. A maledicência estatal resultou em pleno e o plano foi repetido sem falhas, pouco importando se toda a atuação se baseou na ação criminosa de violação de segredo de justiça. Afinal, quem ainda liga a isso? Quem se interessa ainda por saber se havia ou não fundamento legal para a detenção? Salvo honrosas exceções, os jornalistas, encantados por tanto escândalo e por tanta audiência, apenas divulgam e festejam e aplaudem. Por eles está tudo bem e não há razão nenhuma para questionar as autoridades, que só poderiam ver nisso ingratidão. Afinal de contas, são elas que fornecem a informação que lhes alimenta a ação.

José Sócrates
Margarita Correia

A Conferência de Luanda e as metas que faltou traçar

Decorreu a 17 e 18 de julho, em Luanda, a XIII Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CPLP, sob o lema "Construir e Fortalecer um Futuro Comum e Sustentável". A Conferência coincidiu com os 25 anos de constituição da Comunidade, a 17 de julho de 1997. Muito se disse e escreveu a propósito do aniversário e da Conferência, dos documentos, dos 25 anos que passaram, dos avanços (não) conseguidos. Há aspetos que importa comemorar, como a adoção do Acordo de Mobilidade entre os Estados-membros da CPLP, a reafirmação do caráter pluricêntrico da língua portuguesa, a reiteração da sua importância, como veículo multicultural e multiétnico, na promoção da paz e do diálogo.

Margarita Correia
Mário Pinto

Envelhecimento e fragilidade

Desde 2010 que a população portuguesa tem vindo a diminuir. Atualmente, estima-se em cerca de 10,3 milhões de habitantes, concentrados em zonas urbanas e litorais e é constituída maioritariamente por idosos e uma minoria crítica de jovens colocando em causa a sustentabilidade da sociedade portuguesa. Verifica-se que mais de 21% dos portugueses têm mais de 65 anos e apenas 14% têm menos de 15. As pessoas com mais de 75 anos são cerca de um milhão, na sua maioria constituída por mulheres.

Mário Pinto
Paulo Baldaia

O Chega vive do nosso medo e está a vencer

Ignorar é a maneira que se pensa politicamente correcta de olhar para os problemas criados pelos partidos xenófobos, racistas, homofóbicos e tudo o mais que lhes apetece ser em nome de uma suposta liberdade de expressão. Mas tudo tem limites e, como tanto gostam de dizer os politicamente incorrectos, a vida não está para meias tintas. Por isso, sugiro às autoridades deste país que façam cumprir a lei. Não vale tudo e os ataques racistas e homofóbicos dos últimos dias exigem que se perceba de vez que André Ventura é perigoso e põe em causa a liberdade em Portugal.

Paulo Baldaia
Joana Amaral Dias

Moles e amanteigados 

Sabia que, doravante, o Ministério Público pode vasculhar os seus emails sem a autorização de um juiz? PS, BE e PAN aprovaram uma alteração legislativa que permite apreender comunicações electrónicas, no âmbito de investigações ao cibercrime, sem ordem de um juiz de instrução criminal. De novo, como aconteceu com a abusiva e perversamente intitulada Carta dos Direitos Humanos na Era Digital (lei que oficializa a censura em Portugal), desta vez a coisa também resulta da transposição de uma directiva europeia.

Joana Amaral Dias
Rogério Casanova

Os cowboys do espaço e a álgebra esquecida

Que os sonhadores de hoje sejam os astronautas de amanhã... Bem vindos à alvorada de uma nova Era Espacial!" cantarolou alegremente Richard Branson, uma sílaba em cada nota, depois de regressar de um voo sub-orbital de 4 minutos - e de imediato os seus óculos escuros pareceram mais patuscos, os seus chumaços nos ombros mais retro, o seu fatinho espacial mais vintage. A linguagem com que a CNN enquadrou a posterior excursão de Jeff Bezos não foi menos exorbitante. Richard Quest, o cidadão inglês cujo cargo oficial na estação é imitar um cidadão inglês, cinzelou em directo o seguinte epigrama: "Os últimos dias podem mudar não apenas a história do mundo, mas do sistema solar". Bezos, que se limitou a debitar uma procissão de "wows" e "amazings" debaixo do chapéu de cowboy, soou quase modesto na sua escolha de lugar-comum (qualquer coisa inócua sobre "construir o futuro").

Rogério Casanova
José Mendes

Citius, Altius, Fortius - Communiter

A minha história de amor com os Jogos Olímpicos começou em 1976. No dia 26 de julho, a partir de Peniche onde estava de férias, acompanhei a final da corrida dos 10 mil metros do Jogos de Montreal, no Canadá. Carlos Lopes era a força da natureza que nos representava e foi igual a si próprio. O ritmo lento inicial não lhe convinha e fez o que tinha de ser feito, tomando a dianteira aos três quilómetros e deixando, volta após volta, todos os seus concorrentes para trás. Todos menos um! Lasse Virén, o finlandês voador, arrancou nos últimos 450 metros para uma vitória inquestionável.

José Mendes
Daniel Deusdado

Marcelo foi a Vinhais - é essa a diferença

Ir num sábado de verão a Vinhais, para o funeral de dois jovens bombeiros vítimas de um acidente ao acorrerem a um incêndio, é um gesto de generosidade e humanismo. É sempre possível o Presidente da República fazer-se representar, mas não o fez - Eduardo Cabrita, por exemplo, enviou a secretária de Estado. A questão dos incêndios só é comprovadamente sentida como uma constante tragédia nacional em dias assim: nestes pequenos/grandes casos do quotidiano. Porque estes bombeiros não foram os primeiros nem serão os últimos vítimas dos fogos ateados ou de uma natureza explorada ao limite e cujo descontrolo nos deixa à mercê de todos os riscos. Marcelo mostra que está ao lado deles e mantém a pressão junto do Governo para que a floresta seja um tema de "alerta máximo".

Daniel Deusdado
Sebastião Bugalho

Distanciamento institucional

Numa palavra, e pelos piores motivos, poderíamos resumir o último debate do Estado da Nação numa palavra: arrepiante. Poupando o leitor à enumeração de inexistências - a oposição - e preferindo escapar aos desaires que emanam ultimamente do executivo, escapa-me como é que o Partido Socialista é governo há seis anos, consolida poder há outros tantos e triunfa eleitoralmente sempre que o país vai a votos, mas se encontra, aos ouvidos de quem se dá ao trabalho de escutar, sem nada para dizer.

Sebastião Bugalho
Viriato Soromenho Marques

A Arca de Noé 2.0

A reação na imprensa europeia à maior "catástrofe natural" na Alemanha do pós-guerra, provocada pelas alterações climáticas antropogénicas, é reveladora do ceticismo dos cidadãos perante o futuro, e a crescente perda de confiança nos governantes e na capacidade de o sistema político produzir verdadeiros bens públicos. O alerta de Benjamin Constant, em 1819, para os lóbis da riqueza que, em silêncio, chegam mais longe do que a voz dos eleitores, torna-se mais visível quando, como agora, tragédias evitáveis ocorrem.

Viriato Soromenho-Marques