Opinião

Rogério Casanova

O presidente da câmara e a Fonte do Amor

Sentadas à mesa numa sala de reuniões, várias pessoas manuseiam dossiês e folhas de papel. "Precisamos de compreender qual é o branding da cidade." Um projector inunda uma parede com quadros, gráficos, algarismos. Um homem de óculos e bigode une as pontas dos dedos em contemplação estratégica e pergunta se o branding é um letreiro.. "Não, não... o branding é algo que vem de uma visão geral." "Eu explico-te o que é o branding, interrompe outro participante. "Estive em Minneapolis e chamam-lhe a Cidade dos Lagos... e o Estado do Minnesota é o Estado dos Dez Mil Lagos! Mas isso não se vê só dentro do município... está escrito em todas as matrículas de carros!" O homem de óculos e bigode insiste que continua sem perceber o que é branding. "É uma lista de slogans?" Pausa. Suspiros. Ombros resignadamente encolhidos. "Porque é que não admitimos que não sabemos o que é branding?"

Rogério Casanova
Daniel Deusdado

Internamentos - a chave para detetar "Sporting"

No tempo em que os testes covid eram um monopólio dos laboratórios, qualquer positivo contava para as estatísticas. Só que as circunstâncias mudaram. Até o Presidente Marcelo estima "duas a três semanas" para medirmos as consequências. Já não é exatamente assim. Um adepto do Sporting vai fazer um teste sem sintomas? E se os tiver, liga para o SNS 24 ou compra o teste na farmácia e fá-lo em casa? É que, se estiver positivo, ninguém sabe e talvez não fique 14 dias confinado. Além de que não tem de dar aos rastreadores os nomes de familiares ou amigos com quem contactou, sequestrando-os. Resultado: não é pelos casos diários que vamos medir o "Sporting".

Daniel Deusdado
João Lopes

O outro lado do espelho

O reaparecimento nas salas de cinema de O Mensageiro, de Joseph Losey, em cópia restaurada, relança o nosso olhar num tempo em que o cinema vivia irredutíveis convulsões. O filme venceu o Festival de Cannes de 1971 e bastará lembrar alguns títulos da respetiva secção competitiva para reconhecermos a riqueza do momento: Morte em Veneza (adaptação de Thomas Mann por Luchino Visconti), Taking Off/Os Amores de Uma Adolescente (estreia de Milos Forman na produção americana), Pânico em Needle Park (com Al Pacino, sob a direção de Jerry Schatzberg, retratando cenários da toxicodependência), etc.

João Lopes
José Mendes

O xadrez israelo-palestiniano

Reacendeu-se a chama da violência entre Israel e a Palestina, com troca de mísseis e pessoas a morrer de ambos os lados da barricada. A razão aparente terá sido a intenção de colonos israelitas expulsarem famílias palestinianas do bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém, para ocuparem as suas casas, alegando que as mesmas haviam pertencido no passado a grupos judeus. Independentemente do lado em que está a razão, se é que é possível descortinar no tempo longínquo a origem desses direitos, o argumento parece frágil, sobretudo quando se conhece que há muitos anos acontecem situações similares sem que o efeito vá para além de escaramuças pontuais.

José Mendes
Sebastião Bugalho

Cinco desafios para o PSD

Mudar. Rui Rio prepara-se para perder a sua terceira eleição consecutiva. A troika, o passismo, a oposição interna, as sondagens, a maçonaria ou a imprensa não servirão como desculpa. Já se esperou, já se deu tempo, já se procurou entender, já chega. Rio começou por defender uma estratégia ao centro, de aproximação ao PS, com quem assinou pactos de nula consequência mas útil aparato, e acabou a aceitar acordos e putativas conversações com o Chega. Independentemente da bondade ou coerência ideológica destes movimentos, uma coisa é certa: nenhum deles resultou. Em três anos de liderança, Rio não tem um resultado acima dos 27% ou uma sondagem acima dos 30%. Neste país político, Costa é rei da governação e Ventura senhor da contestação. O PSD, único partido capaz de concretizar uma alternativa de poder, não existe. É agradecer-lhe, apertar-lhe a mão, passar o álcool-gel e seguir em frente. Pior será difícil.

Sebastião Bugalho
Hélder Vaz

O renascimento do espírito de Bissau. Da instabilidade à aliança para a mudança

O Presidente da República Portuguesa iniciará na próxima segunda-feira uma visita à Guiné-Bissau, um país cujo povo mantém uma singular amizade com Portugal. Para compreender a Guiné-Bissau é necessário olhar para a guerra civil de 1998, que opôs o general Ansumane Mané ao lendário Presidente Nino Vieira com consequências catastróficas, tendo provocado milhares de mortos, a fuga para o estrangeiro dos quadros e profissionais mais capacitados, o colapso da Administração Pública, a erosão da autoridade do Estado e a multiplicação da conflitualidade e de fatores fraturantes em todos os quadrantes da sociedade.

Hélder Vaz
Joana Amaral Dias

Leia e apague

Portugal acaba de institucionalizar e legalizar a censura, atribuindo poderes a uma entidade agora autorizada a perseguir quem "produza, reproduza ou difunda" narrativas consideradas pelo Estado como "desinformação". O Estado também irá "apoiar a criação de estruturas de verificação de factos por órgãos de comunicação social" e "incentivar a atribuição de selos de qualidade" à imprensa considerada "fidedigna". Enfim, os governos decidirão quem é detentor da verdade e quem a certifica.

Joana Amaral Dias
Joana Petiz

O que só existe entre os pobres, não existe

Talvez pela primeira vez desde que começou esta pandemia, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) acertou no que disse - e em tempo útil. Numa altura em que a covid se espalha na Índia como fogo na palha, com 400 mil casos diários, Tedros Ghebreyesus veio apelar às nações mais desenvolvidas para que deem prioridade à vacinação entre os países mais pobres e vulneráveis, para que doem as suas vacinas em vez de as usarem para avançar com a imunização de crianças e jovens - entre os quais a incidência do vírus é maioritariamente leve e inconsequente.

Joana Petiz
Adriano Moreira

Conferência europeia

Foi anunciado oportunamente que haveria uma conferência sobre o futuro da Europa, talvez uma "nova esperança democrática", a realizar em 2021/2022, segundo anunciou e analisou o Rameses de 2021. Iniciou-se no Porto, com a intervenção, na Cimeira Social do Conselho Europeu, do presidente nosso primeiro-ministro. Os temas anunciados foram ligados ao de "governar com o povo", ser "um conselho e não uma refundação", imposta pela crise em que todos se encontram, causada pela covid-19.

Adriano Moreira
Manish Chauhan

Obrigado, Portugal!

A recentemente concluída histórica Cimeira de Líderes Índia-UE, com a bela cidade do Porto como pano de fundo, ainda que em formato virtual, mostrou mais uma vez a liderança prospetiva de Portugal e a sua capacidade de promover e intensificar os laços entre a Índia e a UE. A reunião entre o PM Narendra Modi e os líderes dos 27 Estados membros da UE espelhou a ambição partilhada de aprofundar a parceria estratégica. Esta reunião de alto nível foi extremamente simbólica, uma vez que ocorreu durante a vibrante e crucial presidência portuguesa do Conselho da UE. Convém recordar que a primeira Cimeira Índia-UE foi realizada em Lisboa, em 2000, quando Portugal presidia ao Conselho da UE, tendo relançado o relacionamento entre a Índia e Portugal, arraigado na história, e conferindo-lhe uma base contemporânea. Vinte e um anos depois, e tendo por base a recente 15.ª Cimeira Índia-UE, em 2020, e o Diálogo de Alto Nível sobre Investimento e Comércio, esta cimeira mostrou os dois governos a trabalharem em conjunto, com uma visão clara e de longo prazo.

Manish Chauhan
Viriato Soromenho Marques

Uma união em negação

A política europeia parece cada vez mais embarcada na construção de efeitos especiais, apresentados como se fossem realidades objetivas, sendo isso servido por uma enfática apologia de "valores europeus" que, depois de retirada a espuma retórica, se verifica não passar de um exercício narcisista de autocomprazimento. A conduta política europeia constitui uma penosa recusa de enfrentar os riscos do futuro. Não se percebe como poderá surgir a lucidez e a coragem para os diagnosticar e combater, ou para os assumir como uma consequência inevitável da deliberada manutenção da UE nesta instável encruzilhada. Estagnámos entre o completar das reformas indispensáveis para democratizar e salvar a UE ou o assumir resignado do falhanço da integração europeia, com o turbulento e devastador regresso à balança do poder dos Estados nacionais.

Viriato Soromenho-Marques 
Leonídio Paulo Ferreira

Livreiro de Bissau à espera de Marcelo

Se tivesse de recomendar um lugar de Bissau para Marcelo Rebelo de Sousa visitar nos próximos dias seria a livraria que Miguel Nunes tem junto ao Hotel Coimbra, também propriedade da família, que há mais de 90 anos escolheu a Guiné para viver, apesar de as raízes estarem em Cadafaz, uma aldeia do concelho de Góis. São milhares e milhares de livros, na sua esmagadora maioria em português, que na verdade se espalham pelas próprias salas do hotel, desrespeitando eventuais fronteiras que Miguel alguma vez tivesse pensado por ali criar.

Leonídio Paulo Ferreira
Ana Verónica Varela

É melhor prevenir do que remediar! O AVC e a hipertensão arterial

Em Portugal, segundo o Institudo Nacional de Estatística (INE), o Acidente Vascular Cerebral (AVC) está na origem do maior número de óbitos representando 9,8% da mortalidade em 2019. É igualmente reconhecido que a hipertensão arterial é o principal fator de risco modificável para as doenças cerebrovasculares, incluindo o AVC. Relacionando estes dois últimos factos podemos caracterizar a hipertensão arterial como um grave problema de Saúde Pública, com o qual nos debatemos atualmente.

Ana Verónica Varela
João Freitas

Quando o desmaio é sinal de problemas cardíacos

Em Maio, Mês do Coração, é uma boa altura para lembrar que devemos estar sempre alerta. Embora o desmaio - que em termos médicos designamos de síncope - possa ser um acontecimento esporádico e aparentemente inofensivo, deve ser sempre devidamente avaliado, uma vez que tem várias causas, sendo algumas potencialmente malignas. Pode ocorrer com relativa frequência, com impacto negativo na qualidade de vida da pessoa - e poderá ser um sinal de problema cardíaco. A rapidez de atuação é fundamental para que se possa determinar desde logo a causa do desmaio e recomendar o tratamento mais eficaz.

João Freitas
Leonídio Paulo Ferreira

O tudo ou nada do Hamas

Numa das minhas reportagens em Israel e nos territórios palestinianos, em 2003, cheguei a Telavive dias depois de um duplo atentado junto à estação de autocarros. No local das explosões, um memorial com velas e algumas fotografias lembrava os 23 mortos. Fui depois até Belém, na Cisjordânia, cidade cujo acesso estava bloqueado exceto a jornalistas e poucos outros e por isso vazia dos turistas que alimentam a economia local, e a Praça da Manjedoura, com a Igreja da Natividade, era um deserto, com restaurantes e lojas de artesanato de portas fechadas. Ao contrário de outros momentos, não se viviam combates na cidade onde Jesus nasceu, mas o presidente da câmara, um cristão, contou-me do desemprego, da falta de perspetivas dos jovens, da frustração dos palestinianos que acreditaram que os Acordos de Oslo assinados pela OLP e Israel uma década antes trariam a paz. No regresso, junto a um check-point a caminho de Jerusalém, vieram vender-me um keffiah. Não me senti confortável com a atenção dos soldados israelitas de metralhadora, os mesmos que minutos depois olharam para o passaporte e me deixaram passar.

Leonídio Paulo Ferreira
Victor Ângelo

A Europa e a turbulência que aí vem

O lançamento da Conferência sobre o Futuro da Europa decorreu nesta semana em Estrasburgo, na sede oficial do Parlamento Europeu. O simbolismo de Estrasburgo é enorme. Representa a reconciliação, a paz, a democracia e a solidariedade entre os europeus. Esses quatro desideratos continuam a ser tão pertinentes hoje como o têm sido ao longo das sete décadas que já conta a construção do edifício político europeu. É desde logo importante que nos lembremos disso, para reconhecer donde viemos e definir para onde queremos ir no próximo decénio.

Victor Ângelo
Miguel Romão

Uma justiça feita por pessoas – e as suas circunstâncias

Um aspeto fundamental da decência devida do Estado tem que ver com o funcionamento da justiça. Neste momento, o que temos é uma realidade de autoavaliação e de autopromoção em cargos judiciários, quando a justiça é um assunto que a todos envolve. E uma progressão na carreira, e para os lugares profissionais nos tribunais superiores, que valoriza quase automaticamente os profissionais na função. Tentou-se em tempos fixar um recrutamento mais alargado e mais publicamente aferível, boicote com grande sucesso, no nosso contexto paroquial-corporativo.

Miguel Romão
Rosália Amorim

Antecipar é preciso

Se a pandemia poderia ter sido evitada, como alertaram ontem peritos mandatados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), imagine-se o que poderia ter sido acautelado na noite em que o Sporting se sagrou campeão! Vamos ao primeiro tema, a pandemia: segundo os entendidos e personalidades que compõem o Painel Independente, a convite da OMS, é urgente fazer vastas reformas dos sistemas de alerta e prevenção para evitar novas pandemias. Num relatório, o mesmo painel considera que a OMS demorou demasiado tempo a fazer soar o alerta e que teria sido possível evitar a catástrofe classificada como "Chernobyl do século XXI", que já custou a vida a pelo menos 3,3 milhões de pessoas e provocou uma crise económica mundial. "É claro que a combinação de más escolhas estratégicas, falta de vontade de atacar as desigualdades e um sistema mal coordenado criaram um cocktail tóxico que permitiu à pandemia transformar-se numa crise humana catastrófica", revela o mesmo relatório. Um ataque feroz às autoridades de saúde mundiais. Os peritos reforçam: "Muito tempo se passou" entre a notificação de um foco epidémico na China, na segunda quinzena de dezembro de 2019, e a declaração, a 30 de janeiro pela OMS, de uma emergência de saúde pública de âmbito internacional. Isto enquanto a China foi acusada de camuflar a epidemia.

Rosália Amorim
Pedro Marques

Está de regresso a Europa social

Por si só, colocar as políticas sociais no topo da agenda com a realização da Cimeira Social teria já um enorme significado. Não apenas porque estas não têm estado (e deviam) na esfera de intervenção da UE, como também porque alguns líderes europeus vieram recentemente dizer que querem que assim continue. Compreende-se os seus motivos. Sabem que a redução das desigualdades e a proteção aos mais vulneráveis só se conseguem com políticas que vão ao arrepio daquilo que defendem.

Pedro Marques
Jorge Moreira da Silva

Proteger os bens públicos globais

Poucos duvidam do potencial disruptivo desta pandemia na forma como passaremos a abordar temas como a saúde, a investigação científica, a organização do trabalho, o ensino à distância, as cadeias de valor globais e a digitalização. Contudo, uma das mudanças que menos discussão tem merecido é a da inexorabilidade da reforma da arquitetura global e da própria noção clássica de Estado-nação, agora que ficou bem demonstrada a interdependência entre o bem-estar das pessoas e do planeta, assim como a verdadeira interdependência entre todos os países.

Jorge Moreira da Silva
Shashi Tharoor

O tsunami de covid na Índia

É humilhante quando um colunista precisa de se retratar das suas palavras pouco depois de as ter escrito. Apenas dois meses atrás, depois de a Índia ter enviado milhões de doses de vacinas contra a covid-19 para mais de 60 países, elogiei a "diplomacia vacinal" do país. As aspirações da Índia de ser reconhecida como uma potência global receberam um impulso real. Agora, com mais de 300 mil novos casos por dia e um número de mortes evidentemente muito maior do que o reportado, a Índia não representa a ideia de ninguém do que é um líder global.

Shashi Tharoor