Opinião

Leonídio Paulo Ferreira

A América é um filme de Hollywood, daqueles mesmo muito bons

Cheguei numa tarde de finais de outubro de 2000 a Hope, Arkansas, num daqueles autocarros metalizados da Greyhound, com o galgo desenhado, que nos habituámos a ver nos filmes passados na América profunda. E sim, estava no Deep South, o sul profundo, e sim, sentia-me numa película de Hollywood. Ali tinha nascido Bill Clinton, que estava então de saída da Casa Branca, ali havia ainda memória da mercearia dos avós, ali se encontrava ainda quem se recordava das bolsas de estudo ganhas pelo menino-prodígio que se fez advogado em Yale, regressou ao Arkansas para ser governador e só voltou a sair do estado natal para ser presidente dos Estados Unidos. O sonho americano existe mesmo e ver como começou naquele caso era o objetivo da reportagem para o DN, na primeira de duas eleições presidenciais que cobri ao serviço do jornal e em que a regra foi evitar Washington.

Leonídio Paulo Ferreira
Raúl M. Braga Pires

Argélia referenda Nova Constituição este domingo

A Argélia pós-Bouteflika terá neste Domingo de Todos-os-Santos e do Profeta também, a última etapa de mudança efectiva por decreto. Este processo de "mudança de pele" está obrigado a apresentar alterações palpáveis e visíveis a uma população que quer acreditar na mudança, através de um (actual) Presidente (PR) que foi 5 vezes Ministro e Primeiro-Ministro também do ex-Presidente de duas décadas, Abdelaziz Bouteflika e, caso não fosse a mobilização dos argelinos, ainda lá estaria, sem falar nem poder andar e sempre, a bem da nação! A 1ª parte desta mudança por decreto, foi a substituição dos nomeados pelo General Ahmed Gaid Salah durante o período de transição, para os postos chave do aparato de segurança e defesa. Salah quis ser candidato, mas a Argélia do Século XXI não poderia ser novamente liderada por um militar e, se fosse, essa eleição não equivaleria a uma mudança de paradigma e era precisamente isso que os argelinos queriam. Ou seja, queriam, enquanto Comunidade, respirar a mudança e acreditar em mentiras novas, que é o que a Política nos dá, em perspectiva, passados 10 ou 20 anos. O General Gaid Salah, actuou enquanto Presidente Interino, sem nunca se ter intitulado ou ser chamado de tal, entre Março e Dezembro de 2019 e, preparou tudo para no pós-eleições agir enquanto tal, já que durante esse período minou com homens da sua confiança os lugares-chave nas instituições militar, policial, petrolífera e de intelligence. A sua derradeira vitória foi ter conseguido garantir a realização da Eleição Presidencial a 12 de Dezembro, para morrer 11 dias depois, a 23, com 79 anos, de ataque cardíaco, como consta no laudo médico. Antes da pandemia marcar a agenda argelina e internacional, o novo Presidente Abdelmadjid Tebboune, por Decreto Presidencial, já tinha substituído as chefias-chave a seu gosto e nomeado Abdelaziz Djerad enquanto Primeiro-Ministro, o qual formou Governo. Em Maio deste ano o novo PR lança para o debate público o esboço da Constituição que será referendada no próximo Domingo, um acto final que transportará oficial e solenemente a Argélia para uma nova fase. O que há de novo nesta Constituição? Com a mesma aprovada, o PR Tebboune poderá enviar contingentes militares para fora das fronteiras, nos mais diversos tipos de missões, fundamental para recuperar alguma influência e prestígio perdidos regionalmente. O Mali e o recém iniciado período de transição, será um palco interessante para testar a "diplomacia Tebboune", sem perder de vista as influências turcas na Tunísia e a guerra na Líbia.

Raul M. Braga Pires
Paulo Pedroso

O dilema da direita açoriana

No nosso sistema político, como na generalidade das democracias regidas pelo princípio da proporcionalidade, ficar em primeiro não é sinónimo de vitória, apenas dá ao partido que ganha as eleições a prerrogativa de ser o primeiro a ser convidado a formar governo. Consequentemente, quem efetivamente as ganha e define a governabilidade que delas resulta é o bloco que tiver a confiança maioritária, ou pelo menos não tiver a desconfiança maioritária, no Parlamento.

Paulo Pedroso
Daniel Deusdado

Se não houver um plano, a covid não abranda e ficamos sem empregos

O Governo só tem uma hipótese de evitar a revolta generalizada: organização-planeamento-antecipação. Como fazê-lo num contexto de imprevisibilidade? Destruindo a falácia da "imprevisibilidade". É que nós não estamos a viver tempos absolutamente imprevisíveis, como a história das pandemias demonstram. É possível ler no passado os passos seguintes. Neste caso, para se fazer um calendário para o outono-inverno. Sem isso agravamos o colapso económico.

Daniel Deusdado
António Ferreira

Novos paradigmas no combate à pandemia de CoVID-19

"É inútil dizer estamos a fazer o possível. Precisamos de fazer o que é necessário." Winston Churchill Um conjunto de 34 autores internacionais, entre os quais me encontro, divulgou recentemente um artigo científico no qual, depois de examinarem a evidência científica disponível acerca dos medicamentos potencialmente eficazes contra o SARS-CoV-2 (o vírus causador da CoVID-19) e rever a história do combate inicial à SIDA (no qual as autoridades de saúde norte-americanas foram obrigadas, pelos ativistas cívicos, a disponibilizar fármacos que ainda estavam sob investigação para tratamento imediato de doentes infetados pelo VIH, salvando, assim, milhares de vidas que, de outro modo, pereceriam) desafiam as autoridades de saúde mundial a alterar os paradigmas do combate à atual pandemia.

António Ferreira
Leonídio Paulo Ferreira

Cazaquistão, vítima colateral do humor de Sasha Baron Cohen

Os Estados Unidos e os aspetos mais reacionários da sociedade americana são os alvos de Sasha Baron Cohen nos seus filmes Borat. Mas tanto agora na sequela como há uma década e meia quando se estreou o primeiro filme com o suposto jornalista cazaque há uma vítima colateral: o Cazaquistão. Sim, o país de Borat existe mesmo, é aliás o nono maior do mundo, e nele se pode encontrar tanto a base espacial de Baikonur como as montanhas junto à Almaty de onde são originárias as maçãs.

Leonídio Paulo Ferreira
Paulo Baldaia

Morte religiosamente assistida deixa de ser obrigatória

Portugal está em vias de passar a ter a morte medicamente assistida como opção à, até agora obrigatória, morte religiosamente assistida. Como vão ficar sem o monopólio, numa hipocrisia sem tamanho, os que não querem a eutanásia por motivos religiosos queriam um referendo, mas só estariam disponíveis para aceitar o resultado desse referendo se o povo votasse maioritariamente contra a eutanásia. Um dogma é um dogma e nenhuma igreja deixa que os seus fiéis se juntem aos infiéis para decidir o contrário do que é suposto ter Deus decidido em nome de todos.

Paulo Baldaia
Viriato Soromenho-Marques

Mereceremos Samuel Paty?

"Um país incapaz de transcender o seu passado, deprime". Esta sentença, aplicada à França, foi escrita por Régis Debray numa altura em que estava em causa o uso do véu islâmico por estudantes em estabelecimentos de ensino público (Ce que nous voile le voile, Gallimard, 2004). Nos últimos 15 anos tudo piorou exponencialmente. Se somarmos todos os atentados terroristas de fundamentalistas sunitas, a França apresenta já uma lista de centenas de mortos, ou milhares de vítimas, se incluirmos os feridos no corpo e no espírito. Contudo, o assassínio no passado dia 16 de Samuel Paty, um professor do ensino secundário, de 47 anos, decapitado por um refugiado checheno de 18 anos, constitui um salto qualitativo que não pode ser subestimado.

Viriato Soromenho-Marques
Adriano Moreira

Violação da tolerância e da paz

PremiumNão obstante a dimensão do atentado contra as Torres Gémeas, que levou o presidente dos EUA a declarar ser tarde para os homens e demorado para Deus, naturalmente pensando na substituição do conflito entre muçulmanos e ocidentais, confirmado agora pelo brutal assassínio do professor Samuel Paty, mestre de História, em Bois d'Aulne, decapitado por um estudante, "selvaticamente atacado quando entrava provavelmente na sua casa a pé", segundo a confirmação de um polícia que estava perto da prática do crime. O executante, de 18 anos, foi morto, quando tentava fugir, pelo polícia, gritando "Allahu Akbar". O motivo do atentado seria castigar o professor por ter exibido uma pretensa imagem do "profeta dos muçulmanos".

Adriano Moreira
Margarita Correia

Graças a Deus. Ou graças a nós.

Fomos abalados pela execução de Samuel Paty, professor de História e Geografia, a 16 de outubro, frente à escola onde trabalhava, nos arredores de Paris. A causa próxima do crime foi a exibição, numa aula de Ensino Moral e Cívico, de duas das caricaturas de Maomé publicadas pelo Charlie Hebdo. A disciplina de Ensino Moral e Cívico é obrigatória ao longo de todo o currículo do ensino não superior, desde o ataque ao Charlie Hebdo em 2015, que é um dos temas do programa. Os seus objetivos são: respeitar os outros, adquirir e partilhar os valores da República (liberdade, igualdade, fraternidade, democracia, cidadania, laicidade, liberdade de expressão) e construir para si mesmo uma cultura cívica.

Margarita Correia
Victor Ângelo

Terror ou democracia

Quase duzentos e cinquenta anos após a sua morte, Voltaire permanece como um dos pensadores mais influentes da história de França e da Europa. Escreveu abundantemente e foi conselheiro dos grandes de então. O seu pensamento político e filosófico abriu o caminho que levaria à Revolução Francesa e à divisa nacional, que ainda hoje se mantém: liberdade, igualdade, fraternidade. Os seus escritos troçavam dos dogmas religiosos, numa altura em que era muito perigoso fazê-lo, batiam-se contra a intolerância, advogavam a liberdade de expressão e a separação da Igreja do Estado. Em 1736, escreveu uma peça de teatro contra a intransigência religiosa, que intitulou O Fanatismo ou Maomé, o Profeta. Nesta tragédia, Voltaire critica diretamente e com todas as letras o fundador do islão. Pessoalmente, leio a obra como sendo uma investida contra as religiões, num caso, de modo aberto, noutro, o do catolicismo, de maneira mais subtil, para não pôr em risco a sua pele.

Victor Ângelo
Rogério Casanova

Antropocentrismo à lagareiro

Desde tempos imemoriais que membros da espécie humana adquirem um humilde e salutar sentido de perspectiva através da contemplação do mundo natural. Confrontados com esplendores diversos - o ciclo incessante das marés, a luminosidade dispersa do firmamento, as peregrinações em massa de aves migratórias -, a reacção adulta normal é pensar: "Quão insignificantes são todas estas coisas comparadas comigo!" E temos toda a razão. A galáxia mais espectacular é incapaz de escrever má poesia sobre si própria. A borboleta mais exuberante não consegue organizar fotografias suas em subpastas de "Os Meus Documentos". Quem inventou os vários significados da palavra "interessante" tem, por definição, muito mais interesse do que todas as coisas que lhe interessam. O resto da realidade tem imensa sorte em nos ter por perto, e nem sequer nos agradece (o agradecimento foi outra maravilhosa invenção nossa, tal como os pronomes pessoais e possessivos).

Rogério Casanova
Ruy Castro

Ficção sobre cascas de banana

O novo romance de Mario Vargas Llosa, Tempos Duros, traz mais uma contribuição à coleção de disparates em torno de Carmen Miranda. A querida Carmen, brasileira de Várzea de Ovelha, freguesia de São Martinho da Aliviada, concelho de Marco de Canaveses, distrito do Porto e palcos do Rio de Janeiro, continua sujeita a delírios biográficos. É como se a sua exuberância como artista e como pessoa autorizasse os escritores a criar fantasias à sua volta, sem nenhuma comprovação factual. Sei disso porque, nos cinco anos que lhe dediquei para escrever meu livro Carmen - Uma Biografia, publicado em 2005, o maior trabalho foi para desbastar as invencionices e lendas que investigadores imaginativos teceram sobre ela. A de Vargas Llosa é apenas a mais recente, e não das mais brilhantes.

Ruy Castro
Leonídio Paulo Ferreira

Primeira médica portuguesa foi em 1889, primeira presidente talvez no século XXI

Já sabia que no século XIX o DN era adepto de frases de grande eloquência, como a de Victor Hugo a gritar "Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória" ou a de D. Luís a proclamar "Nasci português, português quero morrer". Mas num caso era o escritor francês a elogiar a abolição da pena de morte, no outro o rei a desmentir que nos quisesse trocar pelos espanhóis. Desta vez descobri, através de um grupo no Facebook de admiradores de história de Portugal, uma tirada que se podia atribuir à própria redação, a um qualquer jornalista ou editor: "Para trás a touca de rendas e o avental de chita, para trás o tricô e a agulha de marfim, para trás o pot au feu! Honra à ciência! Glória ao bisturi!". Entusiasmava-se assim o jornal com a notícia da primeira médica portuguesa a abrir em 1889 um consultório em Lisboa.

Leonídio Paulo Ferreira
Oliver Antic

Pós-verdade: "Kosovo agradece os seis mil soldados portugueses que ajudaram à paz"

Pós-verdade ou a política da pós-verdade, isto é, política pós-factual, é a situação em que o debate público se limita a provocar emoções, evitando factos importantes, assim como detalhes, com repetição de elementos do discurso ou da escrita que procuram atingir um determinado objectivo, particularmente político, enquanto a refutação de tais afirmações com factos concretos é ignorada. É, portanto, a criação de uma atmosfera em que factos objetivos, a verdade, portanto, têm um impacto muito menor na formação da opinião pública que opiniões pessoais e individuais, emoções e reacções públicas. Desta forma, contornando, ou mesmo ignorando a verdade, os preconceitos são muitas vezes encorajados, sendo o melhor alimento para as paixões e emoções que bloqueiam a razão. Os seguintes termos podem também ser usados ​​para explicar a "pós-verdade": a habilidade de mentir ou até mesmo a arte de mentir (The Economist). Na Sérvia e em alguns outros países, este tipo de formação da opinião pública é também conhecida como "Goebbels". Já vão sendo escritos livros (Ralph Keyes, The Post-Truth Era) sobre a era da pós-verdade, onde a desonra, a fraude e o engano reinam. A política da pós-verdade era habitualmente associada a sociedades anti-democráticas e totalitárias, mas tem vindo a tornar-se um conceito sociológico cada vez mais importante nas sociedades democráticas, levantando toda uma série de questões essenciais sobre a democracia moderna, as suas limitações e até mesmo a sua crise.

Oliver Antic