Wuhan, a imagem do futuro, agora no (lento) regresso à normalidade

A cidade onde começou a pandemia de covid-19 já não está de quarentena, mas o regresso ao dia-a-dia normal ainda enfrenta muitos obstáculos.

Declarado oficialmente o fim da quarentena, a cidade chinesa de Wuhan, onde eclodiu o surto de coronavírus que viria a propagar-se à escala mundial, volta a sair à rua para retomar a normalidade possível, ainda cheia de obstáculos nos atos mais simples do dia-a-dia.

Numa reportagem a partir de Wuhan o El País conta que já se veem táxis a circular nas ruas, bem como os 'ferries' no rio que atravessa a cidade, uma novidade face aos últimos meses, mas a mobilidade ainda é uma prova difícil, com as autoridades a exigirem um código verde (uma aplicação no telemóvel que certifica que as pessoas não têm sintomas de covid-19, nem estiveram perto de nenhum caso suspeito) para as pessoas poderem circular. Em qualquer local que junte muitas pessoas - nas estações de metros e comboio, nos centros comerciais, em edifícios de escritórios - é pedido às pessoas que façam testes de temperatura à entrada. E os trabalhadores das atividades consideradas prioritárias para a economia da região foram autorizados a voltar ao trabalho, mas apenas fazendo prova de que não estão infetados. Wuhan, na província de Hubei, é um importante centro da indústria pesada chinesa, em particular da indústria automóvel,.

Às portas das lojas mais frequentadas pelos jovens já começam a ver-se algumas filas - resultado do distanciamento social - , mas a maior parte continua ainda fechada, tal como os cinemas, teatros, e todos os espaços onde possa haver ajuntamento de pessoas. Os restaurantes e cafés ainda não reabriram as portas, servindo apenas para fora, e as escolas também ainda não reabriram. A quarentena total foi declarada em Wuhan a 23 de janeiro e foi levantada na passada semana, a 8 de abril.

Quem queira ir de Wuhan à capital, Pequim, tem mil quilómetros pela frente e outro tanto de burocracias: tem de pedir autorização às autoridades (também através de uma aplicação) e, em caso de ser dada, tem de "encomendar" o bilhete de avião ou comboio, dado que as ligações de longo curso ainda não foram restabelecidas e não podem seguir para Pequim mais que mil pessoas por dia. Na semana anterior à saída de Wuhan, o viajante tem de fazer um teste ao coronavírus e, depois, um teste de sangue à chegada a Pequim, onde tem de permanecer 14 dias em confinamento.

"Para as pessoas normais o confinamento não acabou"

A par das restrições mantidas pelas autoridades, o jornal britânico The Guardian aponta também as cautelas com que os residentes de Wuhan ensaiam os primeiros passos foram de casa, após onze semanas de confinamento. "Não sentimos uma grande mudança. Para as pessoas normais o confinamento não acabou", diz ao jornal um residente de Wuhan, de 50 anos, que conta que lhe pediram quatro vezes para medir a temperatura no caminho entre a sua casa e a paragem onde habitualmente apanha o autocarro.

Uma mulher de 68 anos, que saiu de casa pela primeira vez em dois meses, diz ao jornal que a preocupação se mantém. Uma lojista, a trabalhar, expressa os receios de uma cidade onde, segundo os números oficiais, houve mais 50 mil infetados e 2500 mortos: "Se não sair, não tenho dinheiro, e se não tenho dinheiro não posso comer. Se pudesse, ficava em casa".

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