Virginia Raggi: a mulher que quer conquistar Roma e faz tremer Renzi

Candidata do Movimento 5 Estrelas é favorita para ganhar a autarquia da capital italiana. PM Matteo Renzi tem que segurar outras grandes cidades nas municipais de hoje para evitar pressão interna no Partido Democrático

Em meados de maio, 200 pessoas aceitaram pagar 20 euros por uma fatia de piza numa ação de campanha destinada a apoiar a candidata do Movimento 5 Estrelas à Câmara de Roma. Federico Tucci esteve presente e explica porquê. "Há corrupção a todos os níveis. Para fazer qualquer coisa é preciso sempre um favor de alguém. Quem quer fazer as coisas como deve ser fica desmoralizado", disse à Reuters o engenheiro civil, de 50 anos, que tem negócios tanto no setor público como no privado.

Virginia Raggi, uma fotogénica advogada de 37 anos, surge como favorita nas eleições municipais de hoje em Roma. A última vez que houve sondagens autorizadas (15 dias antes das eleições não podem ser divulgadas mais) ela recolhia entre 32% e 35% das intenções de voto. Precisa conseguir pelo menos 50% para evitar a segunda volta de dia 19. Mas se tiver ganho ao candidato do Partido Democrático, no poder, poderá criar uma dinâmica boa para o Movimento 5 Estrelas e menos boa para o atual primeiro-ministro italiano Matteo Renzi.

Raggi, vereadora em Roma, ambiciona ser a primeira mulher a liderar os destinos da capital italiana. "As mulheres em Itália votaram pela primeira vez há 70 anos. Espero que os romanos queiram mudar a história elegendo-me como a primeira mulher autarca de Roma", disse em entrevista recente. Mas a avaliar por opiniões como a do engenheiro civil Federico Tucci, a sua possível vitória poderá não ter que ver apenas como o facto de ser mulher.

A autarquia da capital italiana é um caso problemático: má gestão, corrupção e ligações ao crime organizado e até à máfia. A sua situação financeira é caótica, com uma dívida da ordem dos 12 mil milhões de euros que, no ano passado, obrigou a uma injeção de capital de emergência do governo nacional. Em outubro passado, o presidente da câmara, Ignazio Marino, demitiu-se do cargo depois de se saber que pagou com dinheiros públicos despesas privadas em restaurantes no valor de 20 mil euros. Pediu desculpas mas mesmo assim perdeu a confiança do Partido Democrático. Além desse escândalo, houve acusações de que a autarquia teria ligações à máfia. "Roma não tem sido governada nos últimos dez anos, é um caso perdido a nível político para quem quer que a lidere", declarou ao site Politico.eu o analista político Ilvo Diamanti.

Em Roma a candidata do Movimento 5 Estrelas, escolhida através de uma votação online por parte dos apoiantes do partido, promete cortar os privilégios de que gozam os políticos e ajudar os pobres. A nível nacional a formação cofundada pelo comediante Beppe Grillo e Gianroberto Casaleggio (que morreu em abril deste ano) defende a redução dos impostos para as pequenas e médias empresas e investimentos nas novas tecnologias, energias renováveis e agricultura de alta qualidade. Além disso, o partido que em maio surgiu em primeiro nas intenções de voto a nível nacional, com 28,5%, contra os 28% do Partido Democrático, promete fazer um referendo sobre se a Itália deve ou não permanecer no euro.

Se Virginia Raggi ganhar (Grillo ameaçou imolar-se pelo fogo se ela não conseguir ser eleita) isso representará um duro revés para Renzi, que precisa não perder as grandes cidades nas municipais de hoje para não ser posto em xeque no seu partido. Ao todo 13 milhões de eleitores são chamados a votar em 1300 municípios. A taxa de participação é uma incógnita pois muitos italianos podem ir para fora das suas cidades durante o fim de semana. Nas regionais de 2015 a participação foi inferior a 50% nalguns locais. "Ele [Renzi] sabe que há um risco significativo de as coisas não correrem bem para o seu lado e não quer ser negativamente associado a esse resultado", declarou Roberto d"Alimonte, professor de Ciência Política da Universidade LUISS de Roma, citado pela Reuters. A derrota em três ou mais grandes cidades (Roma, Milão, Turim, Nápoles) poderá enfraquecer Matteo Renzi e galvanizar os seus opositores, refere, mas "não irá certamente fazer cair o governo".

Isso poderá acontecer, sim, se Renzi perder o referendo de outubro sobre a reforma constitucional que pretende reduzir o poder do Senado italiano. Criticado por algumas correntes do Partido Democrático que consideram algumas políticas demasiado à direita, o primeiro-ministro italiano, no poder desde 2014, já afirmou que se perder essa consulta popular irá demitir-se da chefia do governo. As eleições municipais de hoje em Itália são, por isso, encaradas por muitos como um teste de stress para Matteo Renzi.

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