Vaga de protestos lança desafio a regime de Teerão

Contestação levou a escalada verbal entre o Irão e os EUA. Situação económica pode originar nova vaga de descontentamento.

Quarta-feira, 3 de janeiro. O chefe dos Guardas da Revolução, general Mohammad Ali Jafari, anuncia o fim da "sedição", a vaga de protestos antigoverno que agitavam o Irão desde há seis dias. Ao mesmo tempo, a televisão do Estado mostrava imagens em direto de manifestações pró-regime convocadas para fazer frente à agitação.

Era o fim oficial da vaga de protestos que tinha já feito 22 mortos e centenas de detidos, mesmo se nas redes sociais e nas agências circulavam ainda notícias de agitação em vários pontos do país.

As manifestações, que se iniciaram a 28 de dezembro na cidade de Mashhad, a segunda cidade mais populosa do Irão, e contagiaram rapidamente várias províncias, começaram com protestos contra a subida de preços e a corrupção, para assumirem rapidamente um tom marcadamente político, com críticas acesas ao governo e contestação do regime e degeneraram em confrontos violentos.

O general Jafari, chefe dos Guardas da Revolução, culpou agentes antirrevolucionários, grupos pró-monarquia e forças destinadas a criar "agitação, anarquia, insegurança e intriga" no Irão pela vaga de protestos e apontou o dedo a planos que teriam já sido anunciados pela ex-secretária de Estado Hillary Clinton.

O mundo assistia, entretanto, de respiração suspensa, ao desenrolar da situação no Irão, entre apelos à moderação e críticas ao regime de Teerão e uma troca de acusações e de ameaças entre o regime iraniano, a administração Trump e os governos de Telavive e de Riade.

Os Estados Unidos convocaram uma reunião do Conselho de Segurança e a embaixadora americana nas Nações Unidas aplaudiu uma vez mais os contestatários e alertou que o Irão estava "debaixo de olho" - uma iniciativa prontamente denunciada pela delegação russa como uma "ingerência" nos assuntos internos iranianos.

Vaga de protestos

28 de dezembro. As agências dão conta das primeiras manifestações em Mashhad. Os protestos estendem-se rapidamente a várias cidades do interior do Irão. O regime de Teerão vê-se confrontado com a maior vaga de protestos desde as grandes manifestações contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad nas presidenciais de 2009.

Trata-se, de início, de protestos contra o desemprego, a pobreza crescente, a subida dos preços e a corrupção. Uma explosão de descontentamento e de frustração face ao ruir das esperanças de que o alívio das sanções internacionais que puniram a economia do país durante anos trouxesse uma melhoria da situação. "Há uma crise de expectativas no Irão" - observa Tamer Badawi, um investigador do Al-Sharq Forum de Istambul, citado pela Reuters. "Um sentimento profundo de frustração económica."

O presidente Hassan Rouhani, em quem muitos iranianos terão depositado grandes expectativas, é diretamente visado pelos manifestantes. Ouvem-se protestos contra o dinheiro gasto com a intervenção nos conflitos em países vizinhos. "Deixem a Síria, pensem em nós" - "Dou a minha vida pelo Irão, não por Gaza, não pelo Líbano."

Os protestos visam agora diretamente o próprio regime teocrático e o líder supremo, ayatollah Khamenei. Na Universidade de Teerão são rasgados posters com a imagem de Khamenei. As agências e as redes sociais fazem eco de palavras de ordem como "Morte ao ditador" e de "Morte aos Guardas Revolucionários" repetidas em vários pontos do país.

No sábado, 30 de dezembro, a polícia antimotim dispersa uma manifestação de estudantes em Teerão. Fala-se de centenas de detidos por todo o país. No domingo, manifestantes armados tentam assumir o controlo de esquadras da polícia e bases militares. Há dez mortos. A 1 de janeiro é morto um membro das forças de segurança.

"Inimigos" do Irão

O ministro do Interior, Abdolreza Rahmani Fazli, ameaça na televisão mão dura contra quantos "espalham a violência, o medo e o terror". São mobilizadas as primeiras manifestações de apoio ao regime. O acesso à Internet é cortado em partes do país, incluindo muitas áreas em Teerão.

Hassan Rouhani reage pela primeira vez à crise no domingo à noite, 31 de dezembro, nos ecrãs da televisão nacional. O presidente iraniano reconhece "o direito das pessoas a criticar" e chamou aos protestos "uma oportunidade, e não uma ameaça", mas adverte que as autoridades não tolerariam ações de "violência e de destruição de propriedade pública". Ao mesmo tempo, rejeita o apoio manifestado por Donald Trump aos protestos recusando-lhe qualquer direito a "expressar simpatia pelo povo do Irão" depois de "nos chamar uma nação terrorista".

Dois dias depois, na terça, dia 2 de janeiro, o líder supremo do Irão ayatollah Ali Khamenei, intervém pela primeira vez desde o início dos protestos para acusar "inimigos" não especificados, mas que, dizem os analistas, se referem claramente aos Estados Unidos, a Israel e à Arábia Saudita. "Em dias recentes, inimigos do Irão usaram diferentes instrumentos, incluindo dinheiro, armas, serviços políticos e de espionagem, para criar problemas à República Islâmica", disse Ali Khamenei, segundo uma mensagem no website oficial do regime citado pela BBC.

Era o primeiro sinal claro de que a liderança iraniana tinha tomado conta da situação.

"EUA is watching!"

A embaixadora americana nas Nações Unidas, Nikki Haley, reagiu prontamente classificando de "completo absurdo" as acusações de Teerão de que a agitação estava a ser fomentada por inimigos externos. E disse que "todos os amantes da liberdade deviam apoiar a causa" do povo do Irão.

Donald Trump marcou prontamente presença na crise emitindo tweet após tweet em apoio dos manifestantes e repetindo "The U.S. is watching!" - A América está de olho em vocês. Num tweet emitido a 2 de janeiro, Trump aplaudiu a luta do povo iraniano contra o "brutal e corrupto regime iraniano", acrescentando que "todo o dinheiro que o presidente Obama lhes deu de forma tão inconsciente foi para o terrorismo e para os bolsos" da liderança iraniana, numa referência ao acordo que permitiu o alívio das sanções ao Irão. Num novo tweet, emitido no dia seguinte, Trump prometeu aos iranianos em protesto "um grande apoio dos Estados Unidos no momento apropriado".

Para já, a crise iraniana deu ainda novas razões ao contencioso entre o Irão, de um lado, e os Estados Unidos, Israel e a Arábia Saudita, que têm constituído uma espécie de um bloco de contenção das ambições iranianas no Médio Oriente.

Segundo a agência Tasnim News, citada pela BBC, o secretário do Conselho Nacional de Segurança, Ali Shamkhani, teria visado diretamente a Arábia Saudita garantindo que haveria uma resposta "séria" do Irão.

Nos últimos anos, o Irão emergiu como um ator-chave nalguns dos maiores pontos de conflito no Médio Oriente, da Síria ao Iraque ao Líbano ou ao Iémen numa política regional agressiva, e em que muitos analistas veem um peso crescente do Corpo de Guardas da Revolução (CGRI) e do próprio ayatollah Ali Khamenei.

O presidente americano deverá tomar, a breve trecho, decisões quanto ao eventual agravamento das sanções ao Irão. Trump chamou sempre ao acordo de 2015 sobre o programa nuclear iraniano um mau negócio.

O facto de ter sido o chefe dos Guardas da Revolução a anunciar a derrota da rebelião parece confirmar a ideia de que o núcleo mais conservador do regime terá assumido o controlo da situação e dar argumentos aos que receiam um endurecimento político no Irão.

Novas crises em perspetiva?

A crise iraniana deixa no ar muitas interrogações quanto ao alcance real da vaga de protestos que agitou o país. Na perspetiva da generalidade dos observadores, e apesar dos 22 mortos e da intervenção dos Guardas da Revolução, a reação do regime face à vaga de contestação foi notoriamente moderada.

A rapidez com que os protestos alastraram e o facto de se concentrarem sobretudo em cidades do interior levantaram muitas interrogações. Hamidreza Jalaipour, um analista citado pelo The Guardian, observou que os reformistas se opunham aos protestos e que estes eram instigados por gente apostada numa "mudança de regime", ou seja, dando a ideia de que a vaga de protestos não era inteiramente espontânea.

Os observadores notaram ao mesmo tempo a ausência aparente de uma liderança da contestação, em contraste com os protestos de 2009. Ali Vaez, do International Crisis Group, citado pelo The Guardian, chamou aos protestos uma "explosão das frustrações acumuladas face à estagnação política e económica", mas, acrescentou, "não se trata de uma revolução nem de um movimento".

A simples ocorrência dos protestos é significativa, e a vários títulos. Por um lado parecem testemunhar certa margem de expressão do descontentamento permitida pelo regime. Ao mesmo tempo, dão sinal da frustração crescente dos iranianos face à situação económica do país. "As pessoas estão cada vez mais desesperadas", diz Mehrdad Emadi, um economista iraniano sediado em Londres, citado pela Reuters. "Nesta situação, haverá novos surtos periódicos de descontentamento."

Os dilemas de Hassan Rouhani

A situação coloca um sério desafio ao presidente Rouhani. O presidente iraniano tem prosseguido uma política orçamental de contenção, de modo a manter sob controlo as finanças iranianas e criar um ambiente económico que favoreça o investimento estrangeiro. Mas essa política de austeridade tornou-se cada vez mais impopular.

Para travar o descontentamento da população, o governo terá de investir mais na criação de empregos (o desemprego atinge 12% da população, segundo os dados oficiais, mas os economistas falam de uma taxa muito superior, sobretudo entre os jovens) e no combate à inflação (da ordem dos 10%). "Rouhani tem duas opções - considera ainda Ali Vaez. Ou opta por uma política mais cautelosa ou capitaliza o descontentamento público para empurrar o sistema no sentido de reformas mais genuínas."

Ora, as reformas defendidas por muitos economistas, e em particular o combate à corrupção, implicam mudanças políticas de risco.

Os recentes protestos no Irão visaram, em muitos casos diretamente, os Guardas da Revolução que controlam várias das grandes empresas iranianas e que beneficiam de várias isenções e outras vantagens. Segundo muitos economistas, o peso de corpos paramilitares como os Guardas da Revolução e diversas instituições religiosas nos negócios do país é um dos fatores que bloqueiam reformas económicas urgentes.

Resta então saber que margem de manobra restará ao presidente iraniano, que pareceu de algum modo ultrapassado pelos acontecimentos nos dias mais críticos da crise iraniana.

Para já, a linha dura assumida pela administração Trump face ao Irão parece capaz de dissuadir as trocas comerciais e o investimento no Irão, agravando os embaraços económicos do governo de Hassan Rouhani.

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