Uruguai: 15 anos depois, a esquerda corre o risco de perder presidenciais

Nas eleições de 2004, a Frente Ampla pôs fim à supremacia dos partidos conservadores no Uruguai. Agora, apesar de Daniel Martínez estar à frente nas sondagens, corre o risco de perder na segunda volta se a oposição se conseguir unir.

A Frente Ampla, coligação de esquerda que está há 15 anos à frente dos destinos do Uruguai, enfrenta este domingo o seu maior desafio. Depois da alternância no poder entre Tabaré Vázquez e Pepe Mujica, as sondagens colocam Daniel Martínez a vencer este domingo, mas com necessidade de enfrentar um duelo complicado numa segunda volta, a 24 de novembro, na qual a oposição aparecerá unida.

O "desgaste natural" estará na origem da perda de apoio à Frente Ampla, que com a eleição de Vázquez em outubro de 2004, conquistando 50,45% dos votos na primeira volta, pôs fim à hegemonia dos dois partidos conservadores no país, o Partido Nacional (ou Branco) e o Partido Colorado. Os mesmos que agora podem voltar ao poder.

Luis Lacalle Pou, filho do ex-presidente Luis Alberto Lacalle e com a experiência de já ter concorrido há cinco anos (perdeu para Vázquez), é o candidato do Partido Nacional. É o que aparece mais bem colocado entre os dez candidatos da oposição para a segunda volta (entre 22 e 27%, dependendo da sondagem).

Lacalle já estará a negociar com Ernesto Talvi, do Partido Colorado, que só está na política há um ano, tendo ganho destaque como diretor académico do CERES, um centro de investigação dedicado à análise económica na América Latina. Surge nas sondagens com 10% a 19% das intenções de voto.

Há um terceiro candidato que veio baralhar as contas, e que nalgumas sondagens surge até em terceiro lugar na intenção de votos. Guido Manini Ríos, do recém-formado partido de direita Cabildo Aberto (um cabildo é uma reunião popular destinada à tomada de decisões em conjunto). Ríos é um ex-militar e é apelidado por muitos do "Bolsonaro uruguaio", numa referência ao presidente brasileiro. Tem entre 10 e 18% nas sondagens.

Do lado da Frente Ampla, a aposta é em Daniel Martínez, um engenheiro de 62 anos que foi eleito presidente da câmara de Montevidéu em 2015 (renunciou em abril deste ano para ser candidato à presidência). Quer um quarto governo de esquerda consecutivo para "não perder o bom" dos anteriores mandatos e, ao mesmo tempo, "fazê-lo melhor". Está à frente nas sondagens, com entre 33% e 41% da intenção de voto.

Para vencer à primeira, precisava da maioria absoluta, isto é, 50% mais um voto entre os 2,6 milhões de eleitores chamados a votar no domingo. O voto é obrigatório.

Um balanço de 15 anos

No Uruguai não existe a figura da reeleição presidencial e em 2009 coube a Pepe Mujica, um ex-guerrilheiro dos Tupamaros que esteve detido 12 anos durante a ditadura militar, liderar a candidatura da Frente Ampla. A sua vitória pôs o país nas bocas do mundo, com o carismático Mujica a ser apelidado do "presidente mais pobre do mundo". Vázquez sucederia a Mujica cinco anos depois.

Foi no mandato de Mujica que, em 2013, o Uruguai legalizou a marijuana, incluindo o cultivo e a venda, numa medida cujo impacto ainda está a ser analisado. Os críticos dizem que foi responsável por um aumento da criminalidade -- desde 2005 os homicídios aumentaram 80% e as denúncias de furto 200%. Só no ano passado houve 414 homicídios, mais 45% que no ano anterior. O ministro do Interior, Eduardo Bonomi, é um dos mais contestados do atual governo.

Além das presidenciais, os uruguaios vão poder votar numa proposta de reforma constitucional que quer aumentar as penas de prisão para os crimes graves, incluindo prisão perpétua passível de revisão aos 30 anos para crimes gravíssimos. A proposta passa ainda pela criação de uma guarda policial com efetivos militares, permitir as buscas em horário noturno se um juiz suspeita de algo ilícito e o cumprimento efetivo das sentenças.

O projeto é da autoria do senador Jorge Larrañaga, do Partido Nacional, não contando com o apoio de nenhum candidato presidencial. Até Lacalle Pou, do mesmo partido, disse que não vai votar na lei.

Foi ainda no mandato de Mujica que se despenalizou o aborto (2012) e que foi autorizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo (2013). Isto quatro anos depois da legalização das adoções por parte destes casais, ocorrida no primeiro mandato de Vázquez. Já no segundo, foram aprovadas leis para proteger os transgénero e reformas para garantir a igualdade de género.

Vázquez, um oncologista, liderou também logo desde a primeira hora a luta contra o tabaco, defendendo desde 2005 o aumento dos impostos e as restrições ao seu consumo em espaços públicos. O Uruguai tornou-se, em 2006, no quinto país do mundo a proibir fumar em espaços públicos fechados. As tabaqueiras responderam com processos judiciais, mas o Uruguai venceu após anos nos tribunais.

Por ironia, Vázquez anunciou em agosto que tem um cancro maligno no pulmão. Apesar de o pai, da mãe e da irmã terem morrido nos anos 1960 de cancro, os médicos acreditam que não será genético, mas fruto do fumo passivo, tendo o presidente deixado de fumar com 24 anos (tem hoje 79 anos).

Mujica, que em 2018 renunciou ao Parlamento pelo "cansaço", é nestas eleições candidato a senador.

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