General Soleimani era uma "estrela" no Irão e uma "figura maligna" para os EUA

Mais influente que um presidente, o general iraniano Qassem Soleimani, morto em Bagdade num ataque dos Estados Unidos, começou a ganhar fama como combatente na guerra entre o Irão e o Iraque. Filho de uma família de agricultores pobres, começou a trabalhar na construção civil aos 13 anos. Anos mais tarde, tornou-se numa figura temida pelos EUA.

Chefe da força de elite iraniana Al-Quds, responsável pelas operações da Guardas da Revolução no estrangeiro, Qassem Soleimani desempenhou um papel chave nas negociações políticas sobre a formação de um Governo no Iraque, onde Teerão pretende manter a sua influência.

Com 62 anos, Soleimani tornou-se nos últimos anos uma verdadeira estrela no Irão, de que é prova a quantidade elevada de seguidores nas redes sociais.

Para os apoiantes - mas também para os inimigos - Soleimani, que desempenhou um importante papel na luta contra as forças radicais, foi uma personagem fundamental para o alargamento da influência iraniana no Médio Oriente, onde reforçou o peso diplomático de Teerão, especialmente no Iraque e na Síria, dois países onde os Estados Unidos estão militarmente empenhados.

"Para os xiitas do Médio Oriente, é uma mistura de James Bond, Erwin Rommel e Lady Gaga", escreveu o antigo analista da CIA Kenneth Pollack, sobre o perfil de Suleimani, para o número da revista Time consagrado às 100 personalidades mais influentes do mundo em 2017.

Já para o Ocidente, "é (...) responsável de ter exportado a revolução islâmica do Irão, de apoiar terroristas (...) e de conduzir as guerras do Irão no estrangeiro", notou Kenneth Pollack.

No Irão, imerso numa grave recessão económica, algumas pessoas chegaram a sugerir a entrada de Soleimani na arena política local. No entanto, o general iraniano sempre rejeitou os rumores de uma candidatura às eleições presidenciais de 2021.

O general dedicava-se antes a aplicar os seus talentos no vizinho Iraque: a cada desenvolvimento político ou militar, deslocava-se para agir nos bastidores, mas sobretudo por antecipação.

A descoberta do grupo extremista Estado Islâmico (EI), o referendo de independência do Curdistão ou a formação de um governo: a casa ocasião, Soleimani reuniu-se com as diferentes partes iraquianas e definia a linha a ser seguida, de acordo com diferentes fontes que participaram nos encontros, sempre realizados no maior sigilo.

Mais poderoso do que um presidente

A sua influência, contudo, vem de trás: Soleimani já liderava a elite Al-Quds quando os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, em 2001.

"Os meus interlocutores iranianos foram muito claros quanto ao facto de, mesmo que informassem o Ministério dos Negócios Estrangeiros, no final de contas, era o general Soleimani que tomava as decisões", disse, em 2013, à estação britânica BBC, o antigo embaixador dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque Ryan Crocker.

Depois de ter ficado nos bastidores durante décadas, Suleimani começou a fazer manchetes depois do início do conflito na Síria, em 2011, onde o Irão tem apoiado fortemente o regime de Bashar al-Assad.

Um dirigente iraquiano descreveu-o, numa entrevista à revista New Yorker, como um homem calmo e pouco falador. "Ele estava sentado do outro lado da mesa, só, de maneira muito calma. Ele não fala, não comenta (...) apenas escuta", disse.

Segundo um estudo publicado em 2018 pela IranPoll e pela Universidade de Maryland, 83% dos iranianos inquiridos tinham uma opinião favorável sobre Soleimani, à frente do presidente Hassan Rohani e do chefe da diplomacia, Mohammad Javad Zarif.

No estrangeiro, alguns líderes ocidentais viam-no como uma figura central nas relações de Teerão com grupos radicais como o Hezbollah libanês e o Hamas palestiniano.

Filho de agricultores, trabalhou na construção civil para pagar as dívidas do pai

No fundo, os EUA mataram não só uma figura muito influente no Irão, mas também na Síria, Líbano e Iraque.

Filho de uma família de agricultores pobre, Suleimani nasceu em Rabor, a leste do Irão, uma localidade conhecida pelas suas florestas e cultivos de damasco, nozes e pêssego, mas também pelos seus bravos soldados. Aos 13 anos, mudou-se para uma cidade vizinha para começar a trabalhar na construção civil.

O pai de Soleimani era um agricultor que tinha recebido um terreno controlado pelo xá Mohammad Reza Pahlavi, mas acabou por ficar cheio de dívidas. Foi por isso que o adolescente Soleimani arregaçou as mangas e foi trabalhar para pagar as dívidas do pai na empresa Kerman Water Organization.

Fora do trabalho, ocupava os seus tempos livres no ginásio e assistia aos sermões de um protegido de ayatollah Ruhollah Khomeini, que em 1979 tomou o controlo do Irão, após a queda do monarca, o xá Reza Pahlevi.

"Uma figura maligna"

Antes de ingressar nos Guardas da Revolução Iraniana, Soleimani esteve no campo de batalha, na guerra entre o Irão e o Iraque (1980-1988), durante a qual comandou a 41ª divisão. Tinha 20 anos quando lutava na frente do conflito. Rapidamente ganhou popularidade como combatente. Terá sido ferido em combate, pelo menos uma vez. A guerra proporcionou-lhe contacto com milícias estrangeiras.

Quando o governo do Iraque caiu, Soleimani era o líder da força de elite iraniana Al-Quds. Nesse período, o general atuava na sombra contra os EUA enquanto decorriam violentos protestos nas ruas do Iraque.

Em 2007 tornou-se conhecida uma carta que endereçou ao comandante norte-americano David Petraeus. "Deve saber que eu, Qassem Soleimani, controlo a política do Irã em relação ao Iraque, Líbano, Gaza e Afeganistão. O embaixador em Bagdade é um membro da força Quds. A pessoa que o irá substituir é um membro da força Quds".

"Uma figura verdadeiramente maligna", descreveu, por sua vez, Petraeus, em 2008, numa carta enviada ao secretário de Defesa dos EUA de então.

Desafiou Trump em 2018

Dina Esfandiary, do think tank, laboratório de ideias da Fundação Century, citada pelo The Guardian, não tem dúvidas. "Ele era mais importante que o presidente, falou com todas as fações no Irão, tinha uma linha direta com o líder supremo e estava encarregado da política regional" através da influência sombria da força Quds.

"Soleimani é um líder operacional. Não é um homem que trabalha num gabinete. Vai para a frente para inspecionar as tropas e para ver os combates", disse um antigo responsável iraquiano, que não pediu para não ser identificado por razões de segurança, numa entrevista em 2014.

"Ele obedece diretamente ao líder supremo. Se ele precisa de dinheiro, consegue-o. Se precisa de munições, consegue-as. Precisa de material, tem o material", disse o mesmo responsável, testemunhando o poder do general.

Foi, aliás, através da força de elite Quds que Soleimani apoiou o presidente sírio Bashir al-Assad quando este parecia que estava prestes a ser derrotado na guerra civil a Síria. O general iraniano também ajudou milicianos a derrotar o Estado Islâmico no Iraque.

Influência e poder são palavras repetidas quando se tenta descrever Soleimani, que recebeu a medalha da Ordem de Zolfiqar, a maior honra militar do Irão.

Em 2018, o poderoso general do Irão deixava um aviso sério ao presidente dos EUA. " "Serão vocês a iniciar a guerra, mas seremos nós a terminá-la".

Sucessor já escolhido

Entretanto, o Irão nomeou Esmail Qaani como o novo chefe da força Al-Quds, após a morte de Soleimani. "Após o martírio do glorioso general Qassem Soleimani, nomeio o brigadeiro-general Esmaïl Qaani comandante da força Al-Quds" dos Guardas da Revolução, declarou o ayatollah Ali Khamenei em comunicado.

Até agora, Qaani era vice-comandante da força Al-Quds, responsável pelas operações estrangeiras do Irão. Khamenei descreve-o como "um dos comandantes mais condecorados" da Guarda Revolucionária, o exército ideológico iraniano, desde a guerra Irão-Iraque (1980-1988). "As ordens da força Al-Quds permanecem exatamente as mesmas que sob a direção do mártir Soleimani", realçou o líder supremo iraniano.

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