Uma história de solidão no país mais populoso do mundo

Liu Shengjia é o único habitante de uma aldeia remota no Norte da China. Vive sozinho e isolado desde que, em 2006, os vizinhos rumaram às grandes cidades em busca de melhores condições de vida. Gosta da sua vida de paz. E das suas ovelhas

Liu Shengjia é um dos mais de 1,3 mil milhões de habitantes da China. A sua história começou há dez anos, quando as cerca de vinte famílias que o viram crescer trocaram a remota aldeia de Xuenshanshe, numa província no Norte do país, por grandes centros urbanos em busca de melhores condições de vida. Preferiu ficar para trás, no local que o vira nascer, e aí cuidar da mãe, idosa e acamada, e de um irmão mais novo. Ambos morreram pouco tempo depois, e Shengjia transformou-se numa história de superação. Ou melhor, numa história de solidão no país mais populoso do mundo.

Vive naquela localidade desde então. Apenas ele. No início "não conseguia dormir à noite por causa do uivar dos cães selvagens", conta. O medo foi esmorecendo e as ovelhas de que foi tomando - e toma - conta tornaram-se as suas companheiras. As únicas. "Aos poucos fui-me habituando a viver sozinho", explica ao jornal estatal chinês People"s Daily.

Região montanhosa e com invernos rigorosos, sai da aldeia apenas com a regularidade necessária ao seu abastecimento. A compra de alimentos e de água é feita a quilómetros de distância, no mercado da povoação mais próxima, e até à qual tem de se deslocar a pé. Paga-os com os 95 euros mensais que recebe do Estado pelo serviço de guarda-florestal. De resto, não tem mais para onde ir nem o que fazer.

Diz que gosta da vida de paz que leva. E das suas ovelhas. E garante que ser o único habitante de uma aldeia remota tem as suas vantagens. A casa é uma delas. Afinal, quando ficou sozinho mudou-se para a que mais lhe agradou - as paredes da sua tinham caído durante uma noite e Shengjia aproveitou o facto de todas as outras habitações da aldeia estarem vazias. Ainda tirou partido de objetos e mobílias que foram deixadas ao abandono. "Fosse como fosse já não vivia aqui ninguém", justifica em entrevista ao canal CCTV News. A habitação é cómoda, com luz elétrica, serviço de rede móvel e duas camas individuais num quarto, "não vá dar-se o caso de alguém precisar de pernoitar" por ali. Um caso único: todas as outras estão em ruínas.

"Sobreviver neste sítio não é um problema para mim, mas é claro que preferia ir viver para uma zona mais povoada", confessa.

O desejo poder-se-á tornar realidade no prazo máximo de 14 anos, já que o governo chinês estima que cerca de 250 milhões de cidadãos rurais deixem as aldeias rumo às cidades até 2030 para encontrar trabalho. O êxodo é planeado e faz parte de um esforço de urbanização. Liu Shengjia sabe-o, mas não está disposto a trocar a sua Xuenshanshe pelos arredores de uma qualquer cidade. Se as condições não lhe agradarem, prefere continuar na sua solidão.

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