Um ensaio bem português para o cante alentejano na capital da América

Os Estados Unidos são o país convidado do festival Terras Sem Sombra 2019. A apresentação por terras americanas ficou a cargo do Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento e depois do ensaio em Manassas, esta segunda-feira o palco é o Kennedy Center em Washington DC.

Chapéu preto na cabeça, traje domingueiro, lenço de seda ao pescoço, António Silva não tem dúvidas: "O nosso cante vai ser uma surpresa para os americanos". O responsável e o seu Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento, no concelho de Serpa, acabam de atuar em Manassas, no Virgínia Portuguese Community Center, o clube português da pequena cidade da Virgínia, a uma hora de carro de Washington. Mas já está a pensar na atuação desta segunda-feira no Kennedy Center de Washington.

A ideia de trazer o grupo a Washington partiu do festival Terras Sem Sombra que arranca no dia 26 e este ano tem como país convidado os Estados Unidos. "A nossa ideia é internacionalizar o Alentejo como destino de arte e de natureza mas não só", explica José António Falcão, o presidente do festival fundado em 2003 para "abrir as portas do património cultural e natural do Alentejo". Esta é a quinta vez que o Terras Sem Sombra tem um país convidado e depois de passagens pela China, por Espanha, pelo Brasil e pela Hungria, desta vez chegou a terras norte-americanas.

"Penso que as pessoas gostaram", continua José António. O responsável do Rancho destaca o facto de "os minhotos e os transmontanos que aqui estavam gostarem muito do cante alentejano". Esses gostaram de ouvir mas para os alentejanos de Manassas, "ter outra vez o contacto com o cante é uma ternura e uma coisa que nos satisfaz e preenche". Para José António, "o objetivo é trazer o cante ao estrangeiro, está claro. E dar o cante a conhecer nos quatro cantos do mundo "é ótimo", explica diante do placar com as fotografias de todos os presidentes do clube português, fundado em 1987. De cada um dos lados, o retrato também dos presidentes Marcelo Rebelo de Sousa e Donald Trump. Pelas paredes há ainda cartazes de Toy, ou não viesse o cantor setubalense atuar em Manassas a 9 de fevereiro.

A audiência no Kennedy Center, essa, promete ser diferente. Para já, nesta tarde de domingo cheia de neve a sala do clube português encheu-se para um almoço solidário. Joyce é uma das que se sentou a uma das mesas redondas. A estudante de Gestão vem ao clube desde pequenina. Já nasceu aqui na América, há 21 anos, mas "ainda fui feita em Portugal", conta. A mãe, Natália, estava grávida de cinco meses quando entrou nos EUA vinda do México. A viagem demorou quase dois meses aqui até Manassas, entre a travessia do rio para o Texas, roupa posta a secar junto à linha do comboio e alguma fome passada. Vinda da cozinha é Natália quem garante que as filhas "são muito típicas, gostam de tudo o que tem a ver com Portugal".

Joyce confirma. Sempre andou na escola portuguesa, conta com sotaque minhoto, fez parte do rancho "e toco concertina". Cante alentejano é que nem mãe nem filha conhecem. "Mas vamos gostar com certeza", garante Natália, sentando-se ao lado de Joyce para assistir à atuação do rancho. Na sala, os olhares desviam-se da televisão e do Chaves-Tondela que está a passar na Sport TV para se concentrarem no palco.

A porta da sala abre-se então e os cantadores entram sob os aplausos. Começam por cantar as janeiras, depois os Reis, o Entrudo e por aí fora, percorrendo as festas tradicionais que se celebram ainda em Vila (sim, já não é aldeia) Nova de São Bento e embalando a sala apenas com as suas vozes ou acompanhados pela viola campaniça do também ensaiador Pedro Mestre. Antes do fim ainda tempo para o Hino Nacional, que deixa a plateia de lágrima nos olhos e para Eu Ouvi O Passarinho, para satisfazer os pedidos da sala.

Uma das modas é dedicada ao embaixador Domingos Fezas-Vital, presente em Manassas. O diplomata admite que não foi fácil organizar está vinda aos EUA do rancho e de um comitiva trazida pelo Terras Sem Sombra que inclui ainda políticos e empresários. "É um programa extremamente vasto, com uma forte vertente cultural que começa aqui em Manassas e vai depois ao Kennedy Center", explica. E admite que não foi fácil, sobretudo quando ao Natal e Ano Novo se junta um shutdown que paralisa o governo americano. Mas destaca um programa "rico e diversificado".

Para o Virgínia Portuguese Community Center, foi "uma honra" receber os cantadores de Aldeia Nova de São Bento. Carlos Martins, o presidente do clube português também nunca ouviu cante alentejano, mas este homem natural de Anadia ("a zona do leitão, bem bom", comenta) que em 1986 trocou Portugal pela América acredita que o cante é capaz de convencer muitos dos 200 a 300 elementos da comunidade portuguesa de Manassas a abandonar o conforto do lar para vir até ao centro.

Natália não se arrependeu nada. No final da atuação garante: "é diferente do que costumamos ouvir no Minho, mas é muito bonito". " e remata: "Adorei O Passarinho!"

O DN viajou a convite do festival Terras Sem Sombra

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