Um cadáver no Planalto. Como Bolsonaro lida com morte de miliciano amigo

Morte suspeita de Adriano Nóbrega, um foragido com ligações à família do presidente, tornou-se assunto de estado nesta semana. Estratégia do chefe do governo é fazer com que as suspeitas que recaem sobre si façam ricochete e atinjam a oposição.

A morte no último dia 9 de Adriano da Nóbrega, capitão expulso da tropa de elite do Rio de Janeiro (BOPE) por se ter envolvido com a máfia carioca (milícias), pode ter ocorrido em Esplanada, na Bahia, mas o seu cadáver chegou, em sentido figurado, claro, ao Palácio do Planalto, no coração de Brasília, ao longo desta semana. Os Bolsonaros, que até então evitavam referir-se ao miliciano e negavam ligações a ele e à sua família, viram no facto de a Bahia ser liderada por um governador do rival Partido dos Trabalhadores (PT) terreno fértil para, da posição defensiva, partir para o ataque.

Natural do Rio de Janeiro, Adriano Magalhães da Nóbrega, 43 anos, era considerado foragido pelas autoridades desde que foi alvo de uma operação do ministério público, no ano passado, contra as milícias - entre as acusações estavam extorsão, chantagem, violência física, suborno, agiotagem e tomada ilegal de terras para construção de prédios sem regras mínimas de segurança em bairros cariocas.

Como em paralelo, Nóbrega era apontado como o líder do Escritório do Crime, um esquadrão da morte a que pertenciam Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, os dois assassinos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, o paradeiro dele tornou-se alvo de atenção mediática.

E, como, finalmente, a mãe e a ex-mulher do miliciano integraram o gabinete do hoje senador Flávio Bolsonaro, o primogénito do presidente acusado de desviar o salário público dos seus assessores num escândalo de corrupção que vem pairando sobre o governo, o interesse redobrou.

Flávio, aliás, enquanto deputado estadual do Rio homenageara Nóbrega com uma moção de louvor em 2003, pela "dedicação, brilhantismo e galhardia". E em 2005, concedeu ao ex-polícia a medalha Tiradentes, a mais prestigiada do Rio (atribuída em dezembro ao português, Jorge Jesus, treinador do Flamengo, por exemplo), numa altura em que ele estava detido sob acusação de homicídio de um guardador de carros que havia delatado milicianos. Já condenado em primeira instância por esse crime, Nóbrega foi defendido em plenário da Câmara dos Deputados pelo então parlamentar Jair Bolsonaro, que requereu "um novo júri" para "um brilhante oficial". O currículo dele já naquela altura, com 29 dias de suspensões acumuladas pela administração da polícia militar, no entanto, estava longe de ser brilhante.

Logo após ser noticiada a morte de Adriano numa casa rural em Esplanada, em operação conjunta das polícias do Rio e da Bahia, o advogado do miliciano falou em "queima de arquivo". "Adriano, que nunca me telefonara antes, ligou-me a dizer que suspeitava de vir a ser vítima de queima de arquivo", afirmou Paulo Catta Preta.

A suspeita levantada pelo assessor, associada às ligações de Nóbrega com a família Bolsonaro no caso da "rachadinha" e ao envolvimento indireto dele com a execução de Marielle, fizeram os holofotes virarem-se para Jair e Flávio Bolsonaro. Nos dois dias subsequentes à operação de Esplanada, porém, apesar da insistência da imprensa, ambos se mantiveram em silêncio.

Mudança abrupta

Até dia 12, ou seja, 72 horas após do ocorrido. A partir daí e até hoje registou-se uma mudança abrupta do presidente e do senador em relação à morte de Nóbrega.

"Mas quem matou o capitão Adriano foi a polícia da Bahia, do PT", começou por acusar o presidente da República.

O governador da Bahia respondeu, com ironia, que "o protocolo da polícia na Bahia é prender criminosos com vida, ainda que os marginais mantenham laços de amizade com a presidência". E, na sequência, 20 dos 27 governadores estaduais, incluindo Costa, assinaram uma carta conjunta a criticar Bolsonaro por cruzar os limites institucionais do cargo.

Bolsonaro e Flávio continuaram ao ataque, exigindo perícia independente ao cadáver de Nóbrega e insinuando que a "queima de arquivo" interessava aos seus opositores e não à sua família. Flávio chegou a publicar imagens sensíveis da autópsia do ex-polícia nas redes sociais - imagens, ao que tudo indica, falsas, de acordo com os institutos médico legais baiano e carioca.

"Acaba de chegar ao meu conhecimento que há pessoas acelerando a cremação de Adriano da Nóbrega para sumir com as evidências de que ele foi brutalmente assassinado na Bahia. Rogo às autoridades competentes que impeçam isso e elucidem o que de fato houve", afirmou o primogénito do presidente.

Uma posição estranha à família Bolsonaro, que jamais na sua vida pública condenou excessos policiais em operações - pelo contrário. Segundo um parlamentar próximo do presidente da República citado pelo jornalista da Globo News Gerson Camarotti, "priorizando esse caso, ele joga um holofote excessivo e passa a ser contraditório até mesmo com o próprio discurso de defesa do excludente de ilicitude".

O "excludente de ilicitude", cavalo de batalha antigo de Bolsonaro, explicado já em 2017 pelo então candidato presidencial em entrevista ao DN, prevê que os polícias, em caso de forte emoção ou medo, possam disparar contra criminosos sem serem posteriormente punidos pelo ato.

Os cuidados da família Bolsonaro com a morte de Nóbrega foram mesmo interpretados por apoiantes do governo como contraproducentes por tornarem a sua morte num assunto de estado e por atraírem o cadáver do miliciano para dentro do Planalto. "A perceção é que tanto Bolsonaro como o senador Flávio acabam explicitando uma preocupação incomum com a condução do caso envolvendo alguém como Adriano, que era foragido da polícia", escreveu ainda o comentarista do canal Globo News.

Desvincular-se do miliciano

Jair e Flávio apressaram-se então a desvincular-se do miliciano. "Conheci o Adriano em 2005 e nunca mais tive contacto com ele. As pessoas mudam, para o bem e para o mal...", disse o presidente. "Eu, como deputado estadual, homenageei centenas e centenas de polícias que sobreviviam à troca de tiros contra traficantes. Condecorei Adriano há mais de 15 anos. Não adianta querer me vincular, porque eu não tenho nada com milícia", afirmou, por sua vez, o senador.

Flávio, porém, sofreu um revés. O vereador do Rio Ítalo Ciba (do partido de centro-esquerda Avante) afirmou que ele e Adriano da Nóbrega receberam a visita de Flávio Bolsonaro na prisão. "Quando nós estivemos presos juntos o Flávio foi lá visitar a gente. Mais de uma vez", contou. Ele indicou ainda haver estreita relação entre Nóbrega e Fabrício Queiroz, o pivô do esquema de corrupção no gabinete do senador conhecido como "rachadinha", do qual ambos, tal como o hoje senador, eram os principais beneficiários.

O advogado do senador Frederik Wassef negou as palavras de Ciba, aos microfones da Rádio Gaúcha. Mais tarde Flávio admitiu que foi à cadeia entregar a medalha de Tiradentes a Adriano.

"O presidente, acuado com a verdade, apela a mentiras para desviar o foco de suas ligações com Nóbrega", resumiu Marcelo Freixo, deputado federal pelo PSOL, o partido de extrema-esquerda a que pertencia Marielle.

Entretanto, a família de Nóbrega contratou um perito para examinar o corpo. Segundo Talvane de Moraes, a nova necropsia de quatro e horas e meia de duração revelou que, em princípio, não há indícios externos de tortura mas que só nos próximos dias serão conhecidos os resultados dos novos exames laboratoriais ao cadáver do miliciano.

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