Ultrapassado pela austeridade, Tsipras desilude e irrita gregos

País já pediu 300 mil milhões de euros em três resgates desde 2010. Credores exigem mais reformas em troca de novas tranches. Governo pede alívio da dívida. Eurogrupo reúne-se a 24

"Podem acusar-nos de termos ambições mas não de mentir", disse o primeiro-ministro grego no domingo aos deputados, quando estes se preparavam para votar novo pacote de austeridade, sob pressão dos credores que financiam o resgate e a ameaça de novo incumprimento. Alexis Tsipras, no poder desde 2015, falou de sinceridade, honestidade, humanidade e solidariedade, antes de ver as reformas aprovadas, apenas com os votos favoráveis dos partidos da coligação (Syriza e nacionalistas dos Gregos Independentes). Mas os gregos não parecem impressionados com este discurso: muitos saíram às ruas para protestar, lançar coktails Molotov contra a polícia, que em troca lançou granadas de gás lacrimogéneo.

"Estou desiludido porque Tsipras mentiu descaradamente ao povo grego e, na realidade, vendeu-o. Nada foi cumprido do acordo anunciado em setembro de 2014", diz ao DN Leonidas Chrysanthopoulos, embaixador grego reformado. Além disso, refere o septuagenário, o chefe do governo "ignorou o resultado do referendo de julho, no qual 60% dos votantes rejeitaram mais medidas [de austeridade]". Declarando-se fortemente afetado pelas sucessivas medidas aprovadas, o diplomata afirma: "Desde 2010 a minha pensão foi cortada em 53%, podendo chegar aos 56% ou 57%. Eu chamo a isto roubo. Eu e mais três milhões de gregos deixámos de pagar impostos por não podermos, por isso duvido que o Estado consiga mais receita com mais impostos. Todos sabem disso. Tanto os credores como o regime grego."

Um Estado falhado?

O texto aprovado pelo Parlamento grego no domingo prevê uma reforma das pensões, dos impostos diretos e dos indiretos, para poupar 5,4 mil milhões de euros por ano e conseguir em 2018 um superavit primário de 3,5% do PIB, como prevê o programa do terceiro resgate (no valor de 86 mil milhões de euros). "Haverá um alívio da dívida porque a dívida é insustentável", garante Chrysanthopoulos - a dívida pública ronda 180% do PIB. O Eurogrupo, que se reuniu no dia 9, remeteu para o próximo dia 24 qualquer decisão sobre o alívio da dívida. O ministro das Finanças grego, Euclid Tsakalotos, avisou que a Grécia pode ser um Estado falhado. "É trágico ver os gregos à procura de comida no lixo, a taxa de desemprego nos 25%, empresas a fecharem todos os dias", sublinha o embaixador reformado.

Que a dívida grega é insustentável não tem também dúvidas o jornalista Tassos Morfis, que ao DN nota como o futuro é incerto. "As pensões são cortadas, os nossos amigos não têm emprego, temos de pagar mais impostos, é difícil começar um projeto como fizemos com o Athens Live", diz, referindo-se a um jornal online financiado por crowdfunding. "Cada vez mais pessoas emigram", conta o jovem, que fez Erasmus em Lisboa, sublinhando não acreditar que o seu país entre de novo em default. "Depois da aventura do verão passado, todos estão mais sensíveis", afirma, referindo-se ao incumprimento dos reembolsos devidos ao FMI. E quanto a Alexis Tsipras? "Nunca esperei nada de impressionante dele. A Grécia é um país devastado por cinco anos de austeridade. Tsipras não é um mágico nem é Deus."

No entender de Anastasis Lozos, jovem empresário grego, Tsipras até é um político carismático, mas duvida que volte a vencer eleições. "Acho que as pessoas começaram a acreditar que as coisas iam ser diferentes quando ele começou com a retórica antiausteridade, mas agora fez o contrário", refere, considerando bizarra a coligação atualmente no governo (entre o Syriza e os Gregos Independentes). "É como se fosse uma coligação entre Jeremy Corbyn e Donald Trump", ironiza o empresário que atualmente está de visita a Espanha. "Aqui ninguém me perguntou como vão as coisas. Acho que toda a gente já está farta da Grécia", desabafa, enumerando três problemas que considera urgentes resolver: "A fuga de cérebros, porque os jovens estão a emigrar, o desemprego, que anda nos 25%, a economia que está estagnada, não existe investimento."

Syriza desce nas sondagens

A comprovar a desilusão dos gregos está uma sondagem de abril, publicada pelo jornal To Vima, na qual o Nova Democracia, agora liderado por Kyriakos Mitsotakis, surge em primeiro lugar com 21,4% das intenções de voto. O Syriza de Tsipras recolhe 18,4%, enquanto o seu parceiro de coligação fica nos 2,5%. "Os Gregos Independentes não devem conseguir entrar no próximo Parlamento", antevê Anastasis Lozos, dizendo, porém, que ninguém acha boa ideia eleições antecipadas. "Não há grande interesse nisso."

Mais positiva, embora realista, está Elina Paraskevopoulou, advogada , de 37 anos, que representa tanto clientes gregos como estrangeiros em assuntos relacionados com transações financeiras. "Ainda há uma injeção de pensamento positivo e de otimismo, pois há uma comunidade de startup que está a florescer na Grécia. Acredito que vamos conseguir ultrapassar todas as dificuldades com o tempo. Apesar disso a atual situação não é fácil."

Afirmando que os mais afetados pela austeridade são os trabalhadores por conta própria e freelancers, Elina diz, sobre Tsipras, que "infelizmente, para muitas pessoas, todas as esperanças foram seguidas por controlos de capitais, perda de dinheiro e de fé no atual governo".

Muito desiludido com Tsipras, Christos Sideris sublinha que "não há um único grego que não tenha sido afetado pela austeridade. Os impostos, diretos e indiretos, estão a aumentar de tal forma, que 60% dos nossos salários serão em breve para pagar impostos. E esses não são para a saúde ou a educação, mas para pagar empréstimos". Assessor de imprensa da Metropolitan Community Clinic de Helliniko, uma clínica onde voluntários dão consultas, medicamentos, cuidados médicos grátis a quem não tem dinheiro para se tratar, Sideris afirma que Tsipras "não cumpriu nenhuma das suas promessas e foi contra o povo, assinando, mesmo após o referendo, um memorando pior do que os anteriores. Tornou-se um instrumento da troika".

A Grécia já pediu desde 2010 três resgates financeiros no valor de 300 mil milhões de euros. "O nosso país tornou-se uma colónia da dívida da União Europeia, que ignora a vontade do povo e o senso comum", sublinha ainda Sideris. Sobre um eventual incumprimento diz: "A Grécia já está em incumprimento... para com o seu povo."

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