Tudo a postos para a montagem de uma geringonça

Geert Wilders parece estar em queda nos últimos dias. Partidos tradicionais do centrão político devem ser penalizados. Será necessária ampla coligação para formar governo

A Holanda vai hoje às urnas e o resto da Europa irá estar de olhos postos na contagem dos votos. O principal culpado deste inesperado mediatismo do sufrágio holandês é o populista de extrema-direita Geert Wilders. Apesar de ter perdido fôlego nas últimas semanas, o Partido para a Liberdade (PVV) - que faz do discurso anti-Islão e anti-Europa as suas marcas distintivas - surge bem colocado nas sondagens, próximo dos liberais do Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD), liderado por Mark Rutte, o atual primeiro-ministro. Ainda assim, mesmo em caso de vitória, Wilders dificilmente encontrará parceiros para formar governo.

Os principais partidos já rejeitaram a possibilidade de aliança com o PVV. Os políticos holandeses parecem assim condenados a negociar uma ampla coligação. Essa geringonça à holandesa deve necessitar pelo menos de quatro ou cinco partidos para conseguir a maioria num Parlamento com 150 deputados. Membros do governo holandês já estiveram em Lisboa para ver como funciona o caso português.

Pelo que as sondagens mostram, o que parece mais provável é uma coligação inclinada para a direita, tendo como principais forças o VVD e os democratas-cristãos do CDA. Ainda assim, no limite não é impossível pensar num acordo a resvalar para a esquerda, com o CDA a chefiar uma aliança com outras forças de centro e de esquerda.

De acordo com o sistema holandês, na sequência das eleições, o novo parlamento nomeia um responsável - por tradição um político mais sénior - para explorar uma possível coligação maioritária. Na Holanda, tal como acontece em Portugal, é possível a existência de governos minoritários sustentados por apoios parlamentares.

Um dado relevante nestas eleições - a confirmarem-se as sondagens - é a queda das forças políticas tradicionais. O VVD de Rutte, o CDA e os trabalhistas - que nas últimas três eleições (2006, 2010 e 2012) somaram no mínimo 82 deputados em conjunto - deverão agora conseguir um resultado a rondar os 60 parlamentares.

Em teoria o guião não deveria ser este. Segundo a lógica fria dos números, o VVD não deveria ser tão penalizado como parece que será. Isto tendo em conta que o comportamento da economia holandesa tem sido satisfatório, com um crescimento do PIB na ordem dos 2%. Ao mesmo tempo, o desemprego tem vindo a diminuir - depois de um máximo de 7,9% no início de 2014 a taxa caiu para 5,4% em dezembro. O que pode então explicar a quebra eleitoral do centrão político e a subida das forças mais radicais e dos chamados movimentos antissistema? Uma das possibilidades é avançada ao britânico The Guardian por Gijs Schumacher, cientista político da Universidade de Amesterdão. "Os eleitores não se comparam com outros países. Comparam-se consigo mesmos, mas recuando à década 90, antes da crise financeira e do 11 de setembro", explica o analista. Por outro lado, a imigração tomou conta da agenda política. Em 1996 a população estrangeira não ocidental representava 7,5% do total de habitantes do país e em 2016 essa mesma percentagem ascendia já a 12,3%.

Os últimos dias da campanha ficaram marcados pelo conflito diplomático com a Turquia, depois de o governo holandês não ter permitido que Mevlut Çavusoglu, ministro turco dos Negócios Estrangeiros, aterrasse no país para fazer campanha a propósito do referendo de 16 de abril - que visa reforçar os poderes do presidente Recep Tayyip Erdogan. A firmeza de Rutte para com Ancara é apontada como justificação para a subida nas sondagens do atual primeiro-ministro.

Às 20.00 de Lisboa fecham as urnas e serão divulgadas projeções. De madrugada já deverá haver resultados provisórios, mas a contagem definitiva só no dia 21.

Quem é quem

Mark Rutte
Atual primeiro-ministro. Lidera uma coligação entre o seu Partido Popular para a Liberdade e Democracia (liberais de centro-direita - VVD) e o Partido Trabalhista. É o favorito à vitória nas eleições.

Geert Wilders
Populista anti-imigração e anti-UE. Lidera o Partido para a Liberdade (PVV) e durante muito tempo esteve à frente nas sondagens. Agora surge em segundo ou em terceiro. Mesmo que seja o mais votado ser-lhe-á difícil encontrar parceiros para governar.

Alexander Pechtold
Líder do Democratas 66 (D66), um partido liberal e progressista que defende o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a eutanásia e a legalização do cultivo da marijuana. As últimas sondagens apontam para que seja a quinta força mais votada.

Jesse Klaver
O seu partido é o Esquerda Verde (GL), que defende posições pró-UE e pró-imigração. Aos 30 anos é o mais jovem dos principais líderes e está em quarto nas intenções de voto.

Sybrand Van Haersma
Lidera os democratas-cristãos do CDA. Desde que foi formado em 1977 tem sido presença habitual nas coligações de governo. Têm um discurso duro sobre a imigração e aparecem em terceiro ou em segundo lugar nas sondagens

Lodewijk Asscher
É o homem à frente de um Partido Trabalhista (PvdA) que corre o risco de colapsar nas urnas. Nas eleições de 2012 conseguiu eleger 38 parlamentares e governa em coligação com o VVD de Rutte. As sondagens mais recentes dão-lhe apenas nove deputados.

Emile Roemer
O Partido Socialista (SP) é vincadamente anti-UE e antiglobalização. É o sexto nas intenções de voto.

Marianne Thieme
A única mulher entre os principais candidatos lidera o Partido para os Animais.

Gert-Jan Segers
Líder da União Cristã, partido conservador que deverá voltar a eleger cinco deputados.

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