Trump, Saddam, a Harvard dos terroristas e a estrela do Frozen

Candidato republicano às presidenciais voltou a elogiar a capacidade de matar terroristas do ditador iraquiano. E lembrou que a Disney usou a estrela de seis pontas num livro de colorir.

Com o FBI a acusar Hillary Clinton de ter sido "negligente" ao usar a sua conta pessoal de e-mail quando era secretária de Estado e depois do primeiro comício conjunto da candidata democrata às presidenciais de novembro com Barack Obama, a polémica em torno da alegada estrela de David usada por Trump num tweet sobre a rival quase ficara esquecida. Até o próprio candidato republicano a trazer de volta às notícias na quarta-feira à noite (madrugada de ontem em Lisboa).

Numa ação de campanha em Cincinnati, o milionário começou por atacar Hillary sobre os e-mails, mas depressa subiu o tom para reafirmar que não havia nada de antissemita no seu tweet. "Era só uma estrela", repetiu, sublinhando que a ideia de apagar a publicação foi da sua equipa e não dele. Foi precisamente no Twitter que Trump comparou a sua estrela de seis pontas - semelhante à que os nazis obrigavam os judeus a usar na roupa durante a II Guerra Mundial - à que se pode ver num livro de colorir do Frozen. Avô de oito netos, Trump deve conhecer bem o filme da Disney. No seu discurso em Cincinnati, o republicano usou o filho mais novo, Barron, de 10 anos, fruto do seu casamento com Melania, para explicar ainda que este "desenha estrelas por todo o lado" e que "não lhe costumo dizer "isso é uma estrela de David, Barron, não faças isso!"".

Horas antes do comício, Trump recebera o apoio do genro. Jared Kushner, um judeu ortodoxo casado com Ivanka Trump, escreveu um artigo de opinião no Observer no qual começa por garantir: "O meu sogro não é antissemita", antes de admitir que a escolha de uma estrela de seis pontas no cartaz onde surgia a imagem de Hillary Clinton sobre um fundo de notas de cem dólares e com a frase "a candidata mais corrupta de sempre" foi "um descuido" da equipa de Trump.

Outro assunto que o milionário fez questão de não esquecer em Cincinnati foi as suas declarações sobre Saddam Hussein. Trump voltou a afirmar que o ditador iraquiano, expulso do poder após a invasão do Iraque em março de 2003, era "mau", mas também era eficiente a matar terroristas. Esta não é a primeira vez que Trump elogia o líder que os americanos capturaram escondido num buraco na sua Tikrit natal nove meses após o início da guerra e que viria a ser executado em abril de 2004. Já em fevereiro afirmara na CBS: "Quer se goste de Saddam Hussein ou não, ele costumava matar terroristas. Agora se formos ao Iraque é como uma Harvard para terroristas."

Pouco fundamento real

Afirmações que têm pouco ou nenhum fundamento na realidade, como recordava ontem o The Washington Post num artigo em que sublinha que Saddam Hussein e o seu regime eram descritos pelo Departamento de Estado dos EUA como "apoiantes do terrorismo". "A ideia implícita nas palavras de Donald Trump é que Saddam Hussein costumava matar um grande número de terroristas internacionais que pretendiam espalhar o caos em países ocidentais. E não há qualquer prova disso", explicava ao The Washington Post Stephen Biddle, perito em segurança internacional e professor na Universidade George Washington.

Os elogios a Saddam vêm juntar-se a outras apologias a líderes controversos, do norte-coreano Kim Jong-un ao russo Vladimir Putin. E vieram causar mal-estar na liderança republicana e preocupação entre os dirigentes mundiais. A última a alertar para o perigo de uma presidência Trump que mergulhasse os Estados Unidos no protecionismo foi Christine Lagarde. A diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI) não referiu diretamente o milionário, mas explicou ao Financial Times: "Esperamos trabalhar com todos os governos e todas as autoridades, mas esperamos que qualquer que seja o governo nos EUA e quem quer que seja eleito presidente olhe para o comércio de forma positiva."

Enquanto o mundo discute as suas últimas polémicas, Trump e a sua equipa parecem concentrados na escolha do seu futuro vice-presidente. Ao lado do milionário em Cincinnati estava Newt Gingrich. O antigo presidente da Câmara dos Representantes - que ganhou destaque internacional no final dos anos 90 por ter liderado o processo de destituição do presidente Bill Clinton - é um dos favoritos a juntar-se a Trump no ticket republicano. Mas há outros nomes em cima da mesa, mesmo depois de o senador Bob Corker ter vindo na quarta-feira garantir que não tenciona juntar-se a Trump. Um deles é o governador de New Jersey, Chris Christie, mas também o governador do Indiana, Mike Pence. Ou ainda a senadora do Iowa Joni Ernst.

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