Trump: "Irão nunca terá armas nucleares"

O presidente dos EUA voltou ao Twitter para minimizar a prometida vingança do Irão relativamente ao assassínio do general Qassem Soleimani. Antes, já tinha dito que não precisa da aprovação do Congresso para lançar um ataque "desproporcional" contra o Irão.

Donald Trump mostrou nesta segunda-feira não estar preocupado com uma eventual retaliação por parte do Irão ao assassínio do general iraniano, Qassem Soleimani, pelos Estados Unidos. "O Irão nunca terá armas nucleares", escreveu o presidente norte-americano no Twitter, na sequência das críticas que tem recebido a propósito do ataque com drones a Soleimani.

Este tweet de Trump surge um dia depois de o presidente iraniano Hassan Rouhani ter anunciado que o Irão deixará de cumprir o acordo nuclear de 2015, dizendo que o país não irá observar os limites acordados relativamente ao enriquecimento de urânio, bem como à quantidade de urânio enriquecido armazenado ou no que toca à pesquisa e ao desenvolvimento das suas atividades nucleares.

Segundo o comunicado oficial do governo de Teerão, o quinto e definitivo passo de redução de compromissos nucleares "elimina a última restrição técnica que restava, que era o limite do número de centrifugadoras (para enriquecimento de urânio)", que era de cerca de 6100. O programa nuclear do Irão deixa, desta forma, de ter restrições operacionais à capacidade e percentagem de enriquecimento de urânio, quantidade de material enriquecido armazenado e atividades de investigação.

Em maio de 2018, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu retirar-se unilateralmente do acordo nuclear e restabelecer sanções ao Irão, incluindo no setor petrolífero. Trump justificou a saída deste pacto ao acusar o Irão de nunca ter renunciado a dotar-se de uma arma atómica (enquanto Teerão sempre desmentiu esta acusação) e de ser a origem de todos os problemas no Médio Oriente. As novas sanções dos EUA provocaram uma fuga das empresas estrangeiras do Irão, que tinham regressado após o acordo, fazendo cair a economia iraniana numa grave recessão.

Esta segunda-feira, a NATO reuniu em Bruxelas e o secretário-geral da organização anunciou que a missão de treino militar no Iraque, da qual Portugal faz parte, está "temporariamente suspensa", embora tenha referido que os aliados continuam a apoiar a manutenção do programa. Jens Stoltenberg demarcou-se também do ataque efetuado pelos EUA que resultou na morte de Soleimani. "Foi uma decisão dos EUA. Não foi tomada pela coligação global nem pela NATO."

Nesta segunda-feira, dezenas de milhares de iranianos concentraram-se no centro de Teerão para homenagear o general Qassem Soleimani e manifestar-se contra os Estados Unidos e Israel. Nas ruas ouviram-se palavras de ordem como: "Morte à América", "Morte a Israel".

E a filha de Qassem Soleimani, Zeinab, ameaçou diretamente um ataque às forças armadas dos EUA no Médio Oriente enquanto falava diante de multidão em Teerão. "As famílias dos soldados norte-americanos no oeste da Ásia (...) passam o dia esperando a morte de seus filhos", disse Zeinab. "Trump maluco, não penses que tudo acabou com o martírio do meu pai", acrescentou e terminou com a ameaça de que "um dia negro" vai cair sobre os EUA.

UNESCO recorda convenções sobre proteção de locais culturais

A diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, lembrou nesta segunda-feira que os Estados Unidos e o Irão ratificaram duas convenções que protegem a propriedade cultural em caso de conflito, após ameaças do presidente norte-americano contra locais culturais iranianos.

No passado sábado, Donald Trump usou a sua conta pessoal na rede social Twitter para dizer que os EUA têm sob mira, para possível ataque, 52 alvos no Irão, incluindo locais "muito importantes para o Irão e para a cultura iraniana", no caso de Teerão retaliar pelo ataque aéreo que vitimou mortalmente um alto comandante iraniano.

Nesta segunda-feira, a diretora-geral da UNESCO reuniu-se com o embaixador iraniano em Paris, Ahmad Jalali, enfatizando que os Estados Unidos e o Irão ratificaram duas convenções (em 1954 e 1972) sobre a proteção da propriedade cultural e do património mundial, de acordo com um comunicado da organização ligada à ONU.

O comunicado sublinha que a convenção de 1972 estipula que cada estado "se compromete a não tomar medidas deliberadas que possam prejudicar direta ou indiretamente o património cultural e natural (...) situado no território de outros estados subscritores da convenção".

A diretora-geral da UNESCO recordou ainda os termos da Resolução 2347 do Conselho de Segurança da ONU, adotada por unanimidade em 2017, que condena os atos de destruição de património cultural, mesmo em caso de conflitos militares.

"Azoulay enfatizou a universalidade do património cultural e natural como vetores de paz e diálogo entre os povos, que a comunidade internacional tem o dever de proteger e preservar para futuras gerações", pode ler-se no comunicado hoje divulgado pela UNESCO.

O comunicado nunca se refere à ameaça de Donald Trump, de atacar locais culturais no Irão, e Audrey Azoulay recordou o embaixador iraniano que as convenções foram assinadas pelos dois países.

Neste domingo, o presidente norte-americano minimizou as críticas que recebeu pelo assassínio de Soleimani, ao afirmar que não precisa da aprovação do Congresso, até mesmo para um ataque "desproporcional".

A presidente da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, liderou a posição de repúdio face à decisão de Trump em autorizar um ataque com drones contra o general iraniano, no aeroporto internacional de Bagdade, Iraque, sobre o qual o Congresso foi informado oficialmente apenas no sábado, quase 48 horas após o ataque.

Dois congressistas democratas anunciaram no domingo que vão apresentar uma resolução na Câmara dos Representantes para impedir que Trump leve, unilateralmente, o país a uma guerra com o Irão.

Trump manifestou-se contra as posições que defendem que as operações militares precisam da aprovação do Congresso, ao declarar que esta "não é necessária" e que a sua conta de Twitter servirá de notificação se decidir atacar novamente o Irão.

"Estas publicações [na rede social Twitter] servirão de notificação ao Congresso que, se o Irão atacar qualquer pessoa ou alvo americano, os Estados Unidos irão responder de forma rápida e, talvez, de forma desproporcional", publicou Trump na rede social. "Este aviso legal não é requerido, mas está dado mesmo assim!"

Embora governos anteriores tenham tentado obter apoio bipartidário para operações militares significativas, com avisos aos opositores antes das ações, desta vez nem Pelosi nem o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, foram avisados do ataque contra Soleimani.

O general Qassem Soleimani, comandante da força de elite iraniana Al-Quds, morreu na sexta-feira num ataque aéreo contra o carro em que seguia, junto ao aeroporto internacional de Bagdade, ordenado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

No mesmo ataque morreu também o número dois da coligação de grupos paramilitares pró-iranianos no Iraque, Abu Mehdi al-Muhandis, conhecida como Mobilização Popular [Hachd al-Chaabi], além de outras oito pessoas.

O ataque ocorreu três dias depois de um assalto inédito à embaixada norte-americana que durou dois dias e apenas terminou quando Trump anunciou o envio de mais 750 soldados para o Médio Oriente.

Câmara dos Representantes quer reunião imediata

Nancy Pelosi disse que "este início de hostilidade" aconteceu "sem uma consulta ao Congresso e a articulação de uma estratégia clara e legítima para o Congresso e o público. "Como presidente da Câmara dos Representantes reitero o meu apelo à administração para uma reunião imediata com o Congresso sobre a ação militar relacionada com o Irão e os próximos passos que estão a ser considerados".

Chuck Schumer, líder do Senado, disse à ABC que o preocupa o facto de o presidente levar os Estados Unidos "para o que ele chama de outra guerra interminável no Oriente Médio".

Por outro lado, o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, afirmou que a administração Trump começou a informar os líderes do Congresso sobre o assunto. Ao ser questionado se a administração irá procurar autorização para qualquer nova ação militar, respondeu à ABC: "Temos toda a autoridade de que precisamos para fazer o que temos feito até agora. Continuaremos a fazer as coisas de forma apropriada, legal e constitucional."

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