Trump demonstra força a Pyongyang e ataca Pequim em vésperas do G20

EUA e Coreia do Sul dispararam mísseis na costa leste da península coreana em resposta ao teste balístico da Coreia do Norte. Presidente norte-americano usou o Twitter para mostrar desagrado para com a China

Quando Donald Trump e Xi Jinping se cruzarem em Hamburgo, na Alemanha, para a reunião do G20 que decorre na sexta-feira e no sábado, entre os dois haverá uma espécie de enorme elefante na sala chamado Coreia do Norte.

Nos últimos tempos, a relação entre os presidentes dos EUA e da China arrefeceu substancialmente. Ainda ontem, Trump voltou a usar a rede social Twitter para beliscar Pequim. "O Comércio entre a China e a Coreia do Norte cresceu quase 40% no primeiro trimestre [do ano]. Lá se vai a possibilidade de a China colaborar connosco - mas tínhamos de tentar", escreveu o líder norte-americano.

Apesar de haver poucas certezas sobre os números invocados por Trump, não restam dúvidas de que Washington e Pequim estão cada vez mais distantes. Na semana passada a administração Trump impôs sanções a um banco chinês devido às relações que esta entidade mantém com a Coreia do Norte, referiu-se à China como um dos piores países em matéria de tráfico de seres humanos e concluiu um negócio de venda de armas a Taiwan no valor de 1,4 mil milhões de dólares (1,2 mil milhões de euros).

Pyongyang voltou esta semana a despertar as atenções internacionais quando, na terça-feira, realizou um novo teste de um míssil balístico, alegadamente o primeiro intercontinental e com capacidade para atingir o estado norte-americano do Alasca. O engenho terá percorrido 933 quilómetros em 39 minutos e atingido uma altura de 2802 quilómetros, despenhando-se depois em águas territoriais japonesas. Rex Tillerson, secretário de Estado norte-americano, classificou o teste como uma nova escalada da ameaça. "Qualquer país que receba trabalhadores norte-coreanos, que favoreça [Pyongyang] com benefícios económicos e militares ou que não implemente as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas está a ajudar e apoiar um regime perigoso", sublinhou o responsável pela política externa dos EUA. Tillerson apelou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para que viabilize uma resposta com "medidas mais fortes". EUA, Coreia do Sul e Japão pediram uma reunião urgente do órgão da ONU.

Kim Jong-un, o presidente norte-coreano, disse que o míssil foi um "presente" para os EUA na data em que os norte-americanos festejavam o 4 de julho, o Dia da Independência e que irá a continuar a enviar "prendas".

Ontem, em respostas às movimentações balísticas de Pyongyang, EUA e Coreia do Sul dispararam uma barragem de mísseis ao longo da costa leste da península coreana. "[Esta reação] é apenas uma demonstração de força, uma espécie de olho por olho, dente por dente, mas não irá dissuadir os norte-coreanos de continuar a desenvolver mísseis de longo alcance e de investir no programa nuclear", sublinha o analista Robert Kelly, da Universidade Nacional de Busan, na Coreia do Sul, citado pela Al Jazeera.

O ministro da defesa da Coreia do Sul afirmou ontem que a probabilidade de um sexto teste nuclear por parte de Pyongyang é alta. "O objetivo da Coreia do Norte é reforçar o seu poderio nuclear, por isso é bastante possível que tal venha a acontecer", referiu Han Min-koo. Até hoje foram cinco os testes de armamento nuclear levados a cabo pelo regime norte-coreano. O primeiro aconteceu em 2006 e os dois últimos no ano passado, em janeiro e em setembro.

China e Rússia pedem diálogo

A diplomacia ainda poderá ser a chave para desanuviar a tensão. Pequim acredita que a Coreia do Norte pode aceitar suspender o programa balístico caso Estados Unidos e Coreia do Sul congelem os exercícios militares na península coreana, mas Washington e Seul entendem que estes são essenciais para garantir a segurança. Neste aspeto Vladimir Putin está em sintonia com a China. Na terça-feira, o presidente russo e Xi Jinping apelaram a Pyongyang para terminar com o programa nuclear, mas pediram também aos EUA e à Coreia do Sul o fim das manobras, sublinhando que consideram "justificáveis" os receios da Coreia do Norte.

Outra opção nas mãos dos Estados Unidos é intensificar a pressão económica sobre o inimigo asiático. Mas apertar ainda mais as sanções à Coreia do Norte, estrangulando-a economicamente, é uma possibilidade que a China não vê com bons olhos. O custo para Pequim pode ser grande. Em caso de colapso, muitos norte-coreanos ver-se-iam tentados a cruzar a fronteira, inundando a China de refugiados.

Em pleno clima de guerra fria, até que ponto o conflito diplomático pode descambar para guerra aberta? Jim Mattis, secretário de estado da Defesa dos EUA, já avisou que as consequências de uma ação militar seriam "trágicas numa escala difícil de imaginar". Esse deverá ser sempre o último dos últimos recursos

O presidente norte-americano tem tentado convencer a China a fazer todos os esforços para resolver a questão norte-coreana, mas o tom dos seus tweets, mesmo tratando-se de Donald Trump, mostram que estará a perder a paciência com Pequim. "A Coreia do Norte acaba de lançar outro míssil. Será que este tipo [Kim Jong-un] não tem nada melhor para fazer na vida. É difícil acreditar que a Coreia do Sul e o Japão vão aturar isto durante muito mais tempo. Talvez a China faça um gesto forte em relação à Coreia do Norte e ponha fim a este absurdo de uma vez por todas", escreveu no Twitter o líder norte-americano depois das notícias que davam conta do mais recente teste balístico levado a cabo por Pyongyang.

Em Hamburgo, a Coreia do Norte será certamente um dos assuntos em cima da mesa de reuniões do G20. Entre mísseis e tweets, serão Trump e Xi capazes de domesticar o elefante?

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