Trás-os-Montes, Nova Zelândia e o almirante Nelson, o trio que as terras antípodas ligaram

Não há criança a quem a imaginação não cave um caminho direto entre a sua casa, o centro da Terra e o ponto oposto do planeta. Na realidade, a correspondência antipodal entre duas localidades em terra seca é uma singularidade geográfica. Portugal é dos poucos países do mundo que a reivindica.

Na costa leste da Ilha do Norte na Nova Zelândia, os campos verdejam no inverno austral. Centenas de quilómetros quadrados de paisagem coleante, nas proximidades da Baía de Hawke, aconchegam-se aos relevos épicos dos gigantes vulcânicos do território, como o Monte Tongariro. Na multidão indiferenciada de colinas que desenha o lugar, uma ganhou estatuto: figura no Guinness World Records. Taumata é uma elevação com pouco mais de 300 metros de altura, rodeada de pequenos bosques. Para os locais, Taumata tem significado lendário. Ali terá permanecido a figura de Tamatea-pōkai-whenua, explorador entre os Maori, população nativa da Nova Zelândia. Não é, contudo, devido a um dos pais das explorações terrestres Maoris que a elevação arrebatou referência nos registos da instituição que tutela os recordes mundiais.

Proferir o nome completo de Taumata é um desafio de 85 letras (há versões com mais de 90 letras). Um trava-línguas que se lê Taumatawhakatangihangakoauauotamateaturipukakapikimaungahoronukupokaiwhenuakitanatahu. Em Taumata uma placa com perto de 12 metros de comprimento assinala isto mesmo, o mais longo nome relacionado com uma localização geográfica. Designação oficialmente aceite na toponímia do país do Sul em 1948, inscrita nos mapas neozelandeses desde 1955.

Perto de 20 mil quilómetros separam a colina tornada famosa pela extensão do nome de um município da comunidade autonómica de Madrid. Tal como Taumata, Arganda del Rey é lugar indistinto. O casario de tijolo cru não se destaca de outras localidades da cintura suburbana da capital madrilena. Arganda partilha, contudo, com a já referida colina da Nova Zelândia uma ligação diametralmente oposta. São dois pontos antipodais terrestres. Uma hipotética linha reta a cruzar o centro exato do planeta uniria Taumata e Arganda.

As duas posições geográficas não são uma excentricidade no que toca ao tema antípoda, palavra que nasceu do grego como definição para "pés opostos". Em teoria todos os pontos do globo contam com o seu congénere antípoda. Contudo, o que faz de dois pontos uma singularidade antípoda é o facto de apenas 4% da superfície do planeta possuir pontos opostos situados ambos em terras emersas. Os mais de 78% de superfície aquática da Terra levam a que em 46% dos casos, os pontos antipodais se encontrem em mares e oceanos. Os restantes 50% dos casos fazem-se numa relação mista (terra/água).

Neste contexto, Portugal pode chamar a si uma das raras relações em que será lícito afirmar que os contrários se atraem. Num continente europeu onde os pontos antipodais se limitam a poucas regiões (Galiza, na vizinha Espanha e a Occitânia, em França, são dois exemplos), o nosso país integra a lista restrita de territórios com duas localidades antipodais exatas. A transmontana vila de Mogadouro, no distrito de Bragança, tem a sua alma gémea nas margens do Mar da Tasmânia, em Nelson, cidade da Nova Zelândia. Localidade fundada em 1841 em honra de um dos nomes maiores da marinha britânica, Horatio Nelson, comandante militar morto em combate, em 1805, face às forças napoleónicas na Batalha de Trafalgar, nos mares a sul de Cadiz, em Espanha.

Uma afinidade antipodal que à escala mundial encontramos, entre outros pontos, em pares como Hong Kong e La Quiaca (Argentina), Padang (Indonésia) e Esmeraldas (Equador) ou Whangarei (Nova Zelândia) e Tânger (Marrocos).

Um fado de casualidades geográficas que faz com que grandes massas continentais como a Austrália, com mais de sete milhões de quilómetros quadrados não alinhem um único metro quadrado com uma porção de terra seca que lhe seja antípoda. O país do hemisfério sul com a dimensão de um continente espelha com o Oceano Atlântico Norte, embora parte da Austrália continental e ilha da Tasmânia tenham pontos antipodais próximos a três regiões, uma delas que nos é próxima: Açores, Porto Rico e Bermudas.

Gigantes sem afinidades antípodas

Ainda no que respeita aos gigantes sem afinidades antípodas, aos Estados Unidos da América calha-lhe sorte semelhante à da Austrália. Perto de dez milhões de quilómetros quadrados de área, 50 estados e um mergulho antipodal em pleno Oceano Índico. Resta ao Havai, estado norte-americano no Oceano Pacífico, fazer um casamento de opostos com partes do deserto do Calaári, correspondentes ao Botswana, na África Austral.

Por oposição às solidões da Austrália e dos Estados Unidos, a maior extensão de antípodas terrestres habitada emparelha os continentes sul-americano e asiático, com partes do Chile e da Argentina a partilharem com a China e a Mongólia afinidades no que respeita a opostos. Em comum, os quatro países combinam 3,5 milhões de quilómetros quadrados de terras antípodas.

Ainda na prodigalidade antípoda, cabe à Nova Zelândia e à França o feito de casarem terra seca com o maior número de pontos diametralmente opostos no globo, respetivamente com 12 países. Uma lista onde Portugal, com os seus dois pontos antípodas (Nova Zelândia e Austrália), entra a par com outros 17 estados.

Querendo embarcar num voo comercial entre dois lugares antípodas, não sairíamos da sala de aeroporto. Não existe ligação regular direta entre os dois extremos opostos do planeta, embora o voo quase perfeito, com um desvio de 20 quilómetros, a unir dois aeroportos se fizesse entre as pistas marroquinas do aeroporto Tânger-Ibn Batouta e o aeródromo de Whangarei, uma vez mais na Nova Zelândia.

No que toca a recordes, Taumatawhakatangihangakoauauotamateaturipukakapikimaungahoronukupokaiwhenuakitanatahu não vive solitária na lista de palavras que sofrem de hipertrofia muscular de letras. A velha Europa dá ao mundo a localidade com o nome mais extenso. Llanfairpwllgwyngyll(gogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch, nasceu de um golpe de publicidade em 1869, quando a pequena localidade de Llanfair, no País de Gales, Reino Unido, precisava de captar visitantes. Crê-se que o nome de origem galesa seja reivindicado por um alfaiate local. Inspirado, apelidou a sua terra natal como o local da "Igreja de Santa Maria no vale da avelaneira branca próxima a um redemoinho rápido e da igreja de São Tisílio da gruta vermelha". Llanfair não tem ponto antípoda em terra, mergulha diretamente no Oceano Pacífico.

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