Theresa May: a dama de ferro e de porcelana

"É uma mulher difícil como o raio", disse o histórico torie Kenneth Clark, durante a campanha para a liderança do partido, no ano passado

Contam os antigos colegas de faculdade que a jovem Theresa, estudante de Geografia em Oxford na década de 70, já aspirava aos mais altos voos políticos e que tinha o desejo de ficar na história como a primeira mulher a chefiar o governo britânico. Margaret Thatcher, em 1979, roubou-lhe a ambição, mas em julho do ano passado, quando entrou em Downing Street sucedendo a David Cameron, rapidamente surgiram as comparações com a Dama de Ferro. Também mulher e a mesma aura de implacável.

Talvez fosse apenas aparência. Num artigo publicado no espanhol El País e intitulado "A Dama de Porcelana", o jornalista e escritor britânico John Carlin escreve que desde o início da campanha May parece "diminuída, dura por fora e frágil por dentro". Um repórter da BBC amigo de Carlin confidenciou-lhe que nas entrevistas que fez à primeira-ministra detetou medo nos seus olhos. Medo das negociações com a União europeia sobre o brexit e medo de dividir o Reino Unido.

Theresa May é reconhecida como sendo uma mulher mais de ação do que de palavras e alguém que ganhou o respeito de pares e opositores por ter resistido durante seis anos como ministra do Interior, uma pasta que costuma amputar carreiras políticas. "Ela não namorisca. Não usa a sexualidade como uma arma. Thatcher usava. Theresa é quase assexual. É uma política madura, sagaz, experiente e competente, mas falta-lhe calor humano no primeiro contacto", explicava ao The Guardian, em 2014, um deputado do Partido Conservador que preferiu não revelar a identidade. "É uma mulher difícil como o raio", disse o histórico torie Kenneth Clark, durante a campanha para a liderança do partido, no ano passado, quando pensava que tinha o microfone desligado e que não estava a ser ouvido.

Theresa Brasier (o apelido paterno) nasceu em 1956, em Eastbourne, no condado de Sussex, na costa sul do país. Filha única de um vigário da Igreja de Inglaterra, Theresa perdeu os pais ainda jovem. O pai morreu em 1981 num acidente de automóvel, quando a futura primeira-ministra tinha 25 anos. A mãe, doente de esclerose múltipla, resistiu apenas mais um ano. Foi nos tempos de faculdade que Theresa conheceu aquele que viria a ser o seu marido, Philip May, dois anos mais novo. Quem os apresentou, durante uma festa, foi Benazir Bhutto, futura primeira-ministra paquistanesa, assassinada em 2007. Foi "amor à primeira vista", garantem, nascido da paixão que ambos sentem pelo cricket. Continuam juntos, mas não conseguiram ter filhos, algo que é para os dois um motivo de tristeza. "Claro que ambos fomos afetados por isso, mas é preciso aceitarmos aquilo que a vida nos dá", disse a atual primeira-ministra ao Mail on Sunday durante a corrida à liderança do partido.

Depois de trabalhar no Banco de Inglaterra, Theresa May foi eleita deputada em 1997, concorrendo pela circunscrição de Maidenhead, no condado de Berkshire. Na corrida para ser ela a candidata derrotou aquele que hoje é o seu ministro das Finanças, Philip Hammond. Feminista convicta, May foi escolhida por David Cameron em 2010 para chefiar o ministério do Interior.

Na campanha do referendo, a atual chefe do governo britânico ficou do lado daqueles que defendiam a permanência na União Europeia, mas manteve-se na sombra, o que lhe permitiu ser a escolhida pelos deputados dos conservadores para suceder a David Cameron. Primeiro garantiu que jamais haveria eleições antecipadas, mas a 18 de abril deu o dito por não dito. A dama de ferro e de porcelana, que gosta de cozinhar e de fazer caminhadas na montanha, vai hoje a votos.

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