Temer perde terceiro ministro num mês devido à Lava-Jato

Escândalo do Petrolão vitimou titular do Turismo e continua a ruir a imagem do governo. Delator reforça acusação ao presidente interino, Michel Temer, que fugiu de "apitaço"

Informado de que seria envolvido em novas delações da Operação Lava-Jato, Henrique Eduardo Alves, ministro do Turismo e um dos mais próximos colaboradores do presidente interino Michel Temer no PMDB e no executivo, decidiu apresentar a demissão "para não constranger e desgastar o governo". Após reunião de meia hora entre ambos, Alves e Temer chegaram à conclusão de que a posição do primeiro ficaria insustentável e contagiaria inevitavelmente o segundo. Alves é o terceiro ministro a cair em 35 dias de governo provisório, depois de Romero Jucá, titular do Planeamento, e Fabiano Silveira, da pasta da Transparência.

Os três foram derrubados por causa de denúncias de Sérgio Machado, o ex-presidente da Transpetro, subsidiária da Petrobras, que assinou acordo de delação premiada com o juiz Sérgio Moro, coordenador da Lava-Jato. No caso de Alves, é a segunda vez em 2016 que ele se demite do Turismo - titular da mesma pasta no governo de Dilma Rousseff (PT), entregou o cargo no mesmo dia em que o PMDB rompeu com o PT, em fevereiro.

"O governo Temer está derretendo, é uma situação dramática", acusou Affonso Florence, líder parlamentar do PT, hoje na oposição. "Mesmo que amanhã ele prove que não tem culpa do que foi dito, é oportuna a sua demissão, o modelo adotado por este governo é diferente do anterior", rebateu o senador governista Ronaldo Caiado (DEM). Em nota, Temer chamou Alves de "meu amigo". O delator disse que passou ao ministro 1,55 milhões de reais (à volta de 400 mil euros) de duas construtoras em quatro prestações - e fará novas acusações em breve.

Machado, depois de envolver 25 políticos na sua última delação, incluindo Temer, ameaça continuar a entregar antigos parceiros do PMDB e reafirmou, através de nota, as acusações contra Temer, mesmo depois de este ter subido ao palanque no Palácio do Planalto e ter chamado o delator de "mentiroso, leviano e criminoso".

As explicações de Temer, porém, não convenceram a imprensa - impediu perguntas dos repórteres no final e limitou-se a reações vagas, sem incluir qualquer menção aos factos relatados por Machado. O presidente interino, que pretendia anunciar notícias positivas para o seu governo na noite de quinta-feira em discurso televisivo, foi obrigado a adiar a aparição por causa da conjuntura contaminada pela Lava-Jato. Pela internet, organizava-se um "apitaço", resposta da oposição a Temer aos "panelaços" com que Dilma era brindada.

O presidente do Senado, Renan Calheiros, do PMDB, um dos mais visados por Machado, disse equacionar aceitar pedidos de impeachment contra o procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Janot pediu a prisão de Calheiros na semana passada, por obstrução à Lava-Jato, baseado em escutas de Machado. "Ele extrapolou", diz o líder do Senado, que agora quer derrubar o seu acusador.

Na primeira quinzena de agosto, o Senado manifesta-se em definitivo sobre a destituição de Dilma. Para o impeachment são necessários os votos de dois terços dos senadores, ou seja, 54, e, por enquanto, segundo a imprensa, 37 garantem escolher a destituição, 18 são contrários e 26 estão indecisos.

*) São Paulo

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