"Tem compromisso com o seu próprio ego", diz Bolsonaro sobre Moro

Para o presidente da República "uma coisa é você admirar uma pessoa, outra é conviver com ela". Segundo ele, o agora ex-ministro de justiça se importou mais com o caso de Marielle Franco do que com o do atentado à faca de que foi alvo. E negociou cargo no Supremo Tribunal Federal

"Uma coisa é você admirar uma pessoa outra é conviver com ela. Hoje vocês conhecerão aquela pessoa, que tem compromiso consigo próprio, o seu ego e não com o Brasil. Essa pessoa ela vai tentar colocar uma cunha entre mim e o povo brasileiro", disse Jair Bolsonaro, rodeado dos seus ministros, em resposta à demissão de Sergio Moro.

O presidente do Brasil fora colocado horas antes em xeque pelo seu ex-ministro da justiça e da segurança por - sublinhou Moro - ter tentado interferir na polícia federal e por ter levado à demissão do diretor geral da instituição, Maurício Valeixo, homem da confiança do antigo juiz da Operação Lava Jato.

"Ele fez acusações infundadas que vão prejudicar a sua tão defendida biografia", referiu o chefe de estado.

Mas mais tarde notou que queria, de facto, saber mais sobre processos em curso: "Eu precisava implorar informações... queria um delegado que eu sentisse que fosse alguém com quem eu pudesse interagir, eu interajo com a agência de inteligência...".

Bolsonaro contou a história de como conheceu Moro, como o convidou e como foi conviver com ele no governo. E queixou-se de o seu ex-ministro se preocupar mais com a execução da vereadora Marielle Franco do que com o atentado que ele próprio sofreu.

"Todos conhecemos Sergio Moro das suas decisões lá de Curitiba, ninguém nega o seu brilhante trabalho. Tive contacto com ele em março de 2017. Ele ignorou-me. Fiquei triste, Ele era ídolo para mim, eu era um humilde deputado. Uns dias depois recebi telefonema dele, a sua consciência tocou, e eu dei por encerrado o assunto".

E prosseguiu: "Com o passar do tempo, tentaram-me assassinar, por não me conseguirem deter. Acabou a primeira volta, passei à segunda com Fernando Haddad, do PT. Uma pessoa quis que ele se encontrasse comigo, eu não quis beneficiar-me do prestígio dele e recusei. Ganhei e recebi-o em casa e traçamos como ele seria tratado como ministro da justiça. Acertamos que teria autonomia e não soberania".

"Dei sinal verde a 90% dos nomes indicados, incluindo o sr. Valeixo", disse. "Mas se posso trocar o ministro porque não posso trocar o diretor-geral? Será que é interferir pedir para saber quem mandou matar Jair Bolsonaro? O meu caso é muito mais fácil de resolver do que o caso de Marielle... É exigir muito pedir para investigar porque um porteiro mentiu a respeito do chefe de estado?"

Na discussão sobre um substituto de Valeixo, o presidente disse que Moro exigiu um nome da sua confiança. "Porquê? Porque não um sorteio, um consenso? Lembrei-o de que por lei a escolha era prerrogativa minha".

Bolsonaro acusou, entretanto, Moro de propor uma troca: "Pode indicar em novembro, depois que me indicar para o Supremo Tribunal Federal, mas eu não troco".

Disse ainda que "nas boas matérias ele aparece, no resto omite-se" e lembrou que "é um ministro desarmamentista, lamentavelmente".

O discurso de Bolsonaro surgiu cinco horas depois do de Moro. O ex-ministro afirmou que "o grande problema não é quem trocar... é por que trocar".

"E permitir que haja interferência política no âmbito da polícia federal. O presidente disse-me que queria colocar uma pessoa dele, com que ele pudesse colher informações, relatórios de inteligência. Realmente, não é papel da polícia federal prestar esse tipo de informação, a autonomia da polícia é essencial", sublinhou ainda Sergio Moro.

O agora ex-ministro fez um histórico da situação que levou à sua saída: "Fui juiz por 22 anos, antes de ser ministro, e a partir de 2014 tivemos a Operação Lava Jato que mudou o patamar do combate à corrupção, desde essa altura sempre senti vontade de interferência com mudanças na polícia mas o governo da época [de Dilma Rousseff, do PT], apesar de inúmeros defeitos, manteve a autonomia da Polícia Federal e isso permitiu os resultados", disse Moro depois de lamentar a realização do evento a meio de uma pandemia que até quinta-feira já causara mais de 3000 mortos.

"Em final de 2018 recebi convite do então eleito Jair Bolsonaro para ser ministro da justiça e da segurança, onde estabeleci compromisso contra crime organizado, corrupção e crimes violentos. Na ocasião foi dito que teria estabelecido como condição uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), o que não era verdade, a única condição que eu coloquei, e que eu nunca ia revelar mas revelo agora, é que pedi que caso algo me acontecesse a minha família não ficasse desamparada. O presidente disse ainda que me dava carta-branca para escolher a equipa e eu aceitei".

"No ministério a palavra norte tem sido a integração, com combate duro ao crime organizado, não contra mas com os estados. Tive apoio do presidente na maioria desses projetos mas a partir de meio do ano passado começou a haver insistência para trocas na polícia federal, primeiro a substituição da chefia da polícia federal do Rio de Janeiro, depois em trocar o diretor geral da polícia federal... eu disse-lhe que precisaria de uma causa, que ele estava fazendo bom trabalho", afirmou ainda o ex-juiz da Lava Jato.

"O problema não era o nome, os problemas eram não haver causa, haver interferência política e criar desorganização", concluiu.

Entretanto, o procurador geral da República, Augusto Aras, pediu ao STF para abrir inquérito a Bolsonaro para apurar os crimes de interferência na polícia federal denuncaidos por Moro.

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