Sucessor de Peña Nieto herdará número recorde de homicídios

Entre janeiro e setembro houve quase tantos homicídios dolosos como em todo o 2016 e número final vai superar o total do último ano. Eleições presidenciais realizam-se em julho.

Até final de setembro, 2017 já era considerado um dos anos mais violentos desde que há registos no México, com 21 200 homicídios dolosos entre janeiro e setembro. É um aumento de 23% em relação ao mesmo período do ano passado e está perto do total de 2016, que foi de 23 953. A associação civil Semáforo Delictivo estima que chegaremos ao final do ano com muito mais de 24 mil mortes violentas. "Continuamos envolvidos numa guerra estéril que nos foi imposta pelos EUA, uma guerra que ninguém resolve", disse o fundador da associação, Santiago Roel, exigindo mudança no modelo de combate à criminalidade e lembrando que, de outra forma, o sucessor do presidente Enrique Peña Nieto, a ser eleito em julho, também não terá sucesso.

"É o grande fracasso da estratégia e não é uma estratégia de Peña Nieto, é uma estratégia que vem do [ex--presidente Felipe] Calderón", indicou Roel. "Porque é que entrámos no Plano Mérida? Porque é que entrámos nesta guerra, quem beneficia desta guerra?", acrescentou em reação aos números, com base nos dados oficiais do governo.

O Plano Mérida foi acordado por Calderón com o ex-presidente dos EUA George W. Bush, após o sucesso de um plano semelhante com a Colômbia, e implicou nos primeiros três anos uma ajuda económica por parte dos EUA de 1,5 mil milhões de dólares. Os objetivos eram simples: acabar com o narcotráfico, desmantelar os cartéis e restabelecer a ordem social no país. Era, em suma, o declarar da guerra contra os cartéis, o narcotráfico e a violência.

Mas o número de homicídios dolosos nunca parou de subir até 2011, quando, em média, morreram 62 pessoas por dia. A partir daí, os números começaram, contudo, a cair para subir, de novo, em 2015. Neste ano, a média diária é de 77, tendo sido batido em junho o número recorde de homicídios dolosos - 2237 - desde o início de registos em 1997.

Em setembro, quando fez o balanço anual da sua presidência, Peña Nieto indicou que "recuperar a segurança é a mais alta exigência da sociedade e a mais alta prioridade do governo". E lembrou o trabalho feito e o facto de as autoridades terem "neutralizado 107 dos 122 criminosos mais perigosos" do México. O maior sucesso foi a captura em 2014 de Joaquín El Chapo Guzmán, foragido desde 2001. O líder do cartel de Sinaloa voltaria a fugir em 2015 para ser recapturado em 2016, tendo sido extraditado para os EUA. Mas tal só acelerou a luta pela liderança do cartel, com ainda maior violência, assim como do controlo territorial de todos os outros.

"Ainda temos muito que fazer", explicou Peña Nieto, que culpou também os governos locais e estatais pelos números da violência, dizendo que parte dos homicídios estão ligados a crimes comuns e não ao narcotráfico. Contudo, segundo a Semáforo Delictivo, 73% dos homicídios dolosos (13 513) foram execuções do crime organizado, o que representa um aumento de 53% em relação ao mesmo período do ano passado.

Por outro lado, não são só os homicídios dolosos que estão a aumentar no México. De acordo com a associação, a extorsão e roubo de automóveis subiu 16% entre janeiro e setembro em relação ao mesmo período do ano passado. As agressões aumentaram 14%, os sequestros subiram 9% e os assaltos a casas 3%. Roel vai mais longe e faz uma comparação entre os cinco primeiros anos de mandato de Calderón e os de Peña Nieto, se os números se mantiverem desta forma até final do ano. "Um aumento de 15% dos homicídios dolosos, de 12% nas execuções, de 25% nos sequestros, de 20% em extorsão e 22% nos assaltos a carros com violência", indicou. "Nada melhorou, tudo piorou."

O fundador da associação defende uma alteração total do modelo de combate à criminalidade que inclua a regulação das drogas no México, de forma a tirar o mercado aos cartéis. Sem uma alteração de modelo, não importará quem possa ganhar as eleições de julho de 2018, alega. O favorito à vitória é Andrés Manuel López Obrador, que já foi duas vezes candidato e agora surge à frente do partido Morena (centro-esquerda). Outra eventual candidata é a ex-primeira-dama Margarita Zavala, mulher de Calderón, que renunciou ao Partido Ação Nacional e quer concorrer como independente.

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