Sombras sobre o Vale dos Caídos - o que fazer com o ditador morto

Republicamos aqui reportagem de 2005 em Madrid, quando a memória de Franco era já tema forte do debate político em Espanha. Em causa estava, como agora, o gigantesco mausoléu do ditador.

"Olha, olha, é aqui que está Franco." Numa voz de nervoso miudinho, a mulher chama a atenção ao marido, que distraidamente filma com a sua minicâmara o interior da Basílica do Vale dos Caídos. Gravadas na lápide branca situada logo atrás do altar-mor, as quinze letras maiúsculas não deixam dúvidas: FRANCISCO FRANCO. Ali naquele chão, a cerca de metro e meio de profundidade, encontra-se sepultado o generalíssimo Francisco Franco, o militar que derrotou a República Espanhola numa sangrenta guerra civil entre 1936 e 1939 e que depois, como Caudilho, governou o país com mão de ferro até à sua morte por velhice e doença em 1975.


Um túmulo colocado num mausoléu grandioso, mandado construir pelo próprio Franco com o trabalho escravo de 20 mil prisioneiros de guerra, e que hoje suscita sérias dúvidas em Espanha. Um senador basco, Iñaki Anasagasti, foi ao extremo de propor o derrube puro e simples do Vale dos Caídos, mas a maioria das associações de vítimas da ditadura exige apenas a retirada do corpo de Franco. "Para ser entregue à sua família, e que esta o sepulte onde bem quiser", como explica Dolores Cabra, dirigente da Associación Guerra y Exílio.


Os partidos políticos espanhóis, para já, analisam o assunto e as propostas enviadas por dezenas de associações e centenas de indivíduos, mas é uma hipótese séria a transformação num memorial da repressão franquista. O 30.º aniversário da morte do ditador fascista, que se celebra já em Novembro deste ano, oferece uma ocasião. E depois da retirada, por ordem do Governo socialista, em meados de Março, da última estátua de Francisco Franco existente em Madrid, tudo parece possível, mesmo que ninguém saiba bem o preço desta reabertura das feridas do passado. César Vidal, historiador com vários livros sobre o franquismo, alerta que se está a quebrar o pacto feito durante a transição democrática: "No fundo, não remexer no passado para se construir um presente democrático em paz e liberdade."


Do exterior, é a imensa cruz de 150 metros de altura que sobressai. Colocada no cume do rochedo granítico onde foi escavada a basílica, é visível a alguns quilómetros de distância, mesmo em dias nublados como os de Abril, onde é ainda muito comum nevar na serra de Guadarrama, em pleno centro da Península Ibérica. Mas nem a neve nem os ventos gélidos impedem que pequenos grupos de excursionistas invadam num silêncio pouco conseguido o Vale dos Caídos. Nesta manhã, à hora da habitual missa, um autocarro de Cáceres, na Extremadura, e um outro de Linares, na Andaluzia, fornecem o essencial dos visitantes. No parque junto à imensa esplanada que dá acesso à basílica está estacionada apenas mais meia dúzia de automóveis e uma caravana de matrícula alemã. "Temos milhares de visitantes todos os dias", diz com orgulho mal contido uma jovem funcionária da loja da basílica, num manifesto exagero, pois as estatísticas oficiais dão conta de cerca de 407 mil visitas em 2004, uma média aproximada de 1100 visitantes diários. Todos obrigados a passar por uma máquina de detector de metais, e as suas malas por um aparelho de raios X, medidas de segurança que relembram que o ódio de muitos a Franco já levou a atentados com explosivos no interior da basílica


Um ódio nos antípodas da admiração que muita gente de direita sente ainda pelo Caudilho e que leva a que venham prestar-lhe homenagem com regularidade. Mais duvidosas são as histórias que se contam de reuniões de grupos fascistas ou nazis no Vale dos Caídos, incluindo uma de veteranos da Legião Condor, a aviação posta por Hitler ao serviço de Franco e que entrou na história pelo bombardeamento sobre a cidade basca de Guernica em 1937.
"É uma obra impressionante, feita em memória de todos os que morreram pela pátria", comenta um dos visitantes extremeños, homem para os seus 70 anos e que se identifica como Rodriguez, "filho de um português de Castelo Branco".

Sobre Franco, os comentários são escassos. As palavras medidas com cuidado. "Há muitas opiniões sobre o Caudilho. Mas às vezes é melhor não falar muito do passado", diz, enquanto um dos companheiros de viagem acena com a cabeça, em sinal de óbvia concordância. Dizem não ter ouvido falar do debate dos políticos sobre o futuro do Vale dos Caídos, mas parece- -lhes que "talvez seja melhor deixar como está". Pelo que confessam, o seu interesse pelo monumento é relativo. É apenas uma pequena paragem numa excursão de dois dias que os levará aos impressionantes monumentos situados na serra de Guadarrama e imediações, em especial o convento de San Lorenzo del Escorial, antigo palácio de Felipe II e panteão onde estão sepultados os monarcas espanhóis dos últimos cinco séculos, tanto Habsburgos como Bourbons. Talvez não seja um mero acaso que Francisco Franco Bahamonde, que governou quase tantos anos como Felipe II e regenerou a monarquia através da designação de Juan Carlos como seu sucessor, ter igualmente desejado o seu túmulo nestas montanhas de picos nevados. Afinal não fez também o ambicioso e plebeu Caudilho casar a sua filha Carmen com o marquês de Villaverde e não é hoje uma das suas netas casada com um outro Bourbon, o duque de Cádis?

Projeto faraónico

Situado a uns 11 quilómetros de El Escorial e a 50 de Madrid, o Vale dos Caídos é um projecto pessoal de Franco, que começou a sonhá-lo assim que terminou a Guerra Civil ganha com o apoio da Itália de Mussolini e da Alemanha de Hitler. Foi o próprio ditador espanhol quem a partir de 1940 desenhou o seu futuro mausoléu, se bem que o projecto seja do arquiteto Pedro Muguruza, executado mais tarde pelo também arquitecto Diego Méndez.


Segundo um artigo publicado recentemente no jornal El País, o custo da obra terá rondado os mil milhões de pesetas, mas uma brochura à venda na loja da basílica revela que, segundo um cálculo feito já nos anos 70 e corrigindo a desvalorização da moeda, todo o complexo terá custado mais de cinco mil milhões de pesetas. O maior custo foi, porém, em vidas humanas, com um número desconhecido de trabalhadores a morrerem durante a construção. Franco não hesitou em recorrer ao trabalho forçado de 20 mil prisioneiros de guerra republicanos para construir o seu projecto faraónico. Concluído em 1958, o Vale dos Caídos será abençoado pouco depois pelo Papa João XXIII como monumento à reconciliação espanhola, com o Sumo Pontífice a elevar a igreja à categoria de basílica. Uma discreta placa recorda a distinção papal.

Fissuras na rocha

Enquadrado num vasto parque arborizado, cujo acesso é hoje pago a cinco euros por cabeça, o complexo do Vale dos Caídos inclui ainda uma abadia, uma escola e uma estalagem. É aos frades beneditinos que compete rezar a missa diária na basílica (quatro aos domingos), assim como a preservação do local. É igualmente missão dos religiosos a preservação dos registos dos nomes dos cerca de 40 mil cadáveres, de combatentes de ambos os lados da Guerra Civil, que se encontram sepultados na basílica, espécie de companheiros de mausoléu de Franco e do outro único morto com direito a túmulo individual, José António Primo de Rivera, o líder fascista fuzilado pelos republicanos em Alicante a 20 de Novembro de 1936, logo nos primeiros tempos do conflito, e que serviu de mártir da causa franquista. Também Franco morreu a 20 de Novembro.

Enquanto os políticos debatem o futuro a dar ao Vale dos Caídos - "símbolo da tragédia franquista e feito com o sangue dos republicanos", nas palavras de Francisco Martinez, um antigo guerrilheiro republicano -, há uma ameaça séria à sua sobrevivência a médio prazo: as fissuras na rocha granítica que serve de cúpula à basílica. O historiador César Vidal, que considera um erro reabrir as feridas do passado 30 anos depois do fim da ditadura, chama a atenção para "o esquecimento a que ao longo dos anos os governos, tanto de esquerda como de direita, votaram o monumento, não atribuindo quaisquer verbas para a sua manutenção".

São as manchas de humidade no tecto que denunciam essas fissuras e que obrigam já a que em vários pontos da basílica do Vale dos Caídos caixas metálicas estejam estrategicamente colocadas para recolher a água que pinga das rochas onde foi escavado o monumento há meio século. Talvez a natureza, mais que a vontade dos homens, venha a contrariar os dese- jos de imortalidade de Franco.

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