Sobreviveu ao Iraque e será primeira senadora a ser mãe no cargo

"Estava mais do que na altura", afirmou Tammy Duckworth ao anunciar a gravidez. A representante do Ilinóis, de 49 anos, já fora a primeira mulher ferida em combate eleita para o Congresso. E a primeira senadora de origem tailandesa.

Era uma tarde de sol em Bagdad. Tammy Duckworth e os três outros tripulantes do Black Hawk 83-23856 estavam a levar soldados para o terreno e a trazer outros para as bases americanas no Iraque - uma espécie de "serviço de táxi", nas palavras da então capitã da Guarda Nacional do Ilinóis. Tinham acabado de sair da Zona Verde quando foram chamados para uma zona de combate. Duckworth estava aos comandos quando o helicóptero ficou debaixo de fogo. E ainda se lembra de ouvir a explosão do rocket que lhe arrancou as duas pernas e a deixou ferida num braço. Estávamos em 2004. Tammy sobreviveu e oito anos depois era eleita para a Câmara dos Representantes dos EUA. Senadora do Ilinóis desde 2016, volta agora a fazer história ao anunciar estar grávida de uma menina, tornando-se assim em abril, quando nascer a segunda filha, na primeira senadora a ser mãe no cargo.

"Estava mais do que na altura", afirmou a democrata Duckworth ao Chicago Tribune, depois de anunciar a gravidez. "Não acredito que foi preciso esperar até 2018. Diz muito sobre a desigualdade de representação que existe no nosso país", acrescentou a veterana do Iraque. Duckworth, que em 2016 recuperou para os democratas o lugar no Senado que fora antes do ex-presidente Barack Obama, disse ainda esperar que "se alguma coisa vai ficar da Marcha das Mulheres [que juntou milhões de pessoas em várias cidades dos EUA no dia 20, primeiro aniversário da tomada de posse de Donald Trump como presidente] que seja termos cada vez mais mulheres a candidatar-se a cargos políticos. Seria bom ter mais companhia feminina aqui".

Dos atuais cem senadores, só 22 são mulheres. E com uma média de idades de quase 62 anos, não espanta que Duckworth seja a primeira senadora na história dos Estados Unidos a ter um filho enquanto cumpre o mandato. Mesmo na Câmara dos Representantes - onde dos 435 membros, 89 atualmente são mulheres -, até hoje apenas nove foram mães no cargo. E uma delas foi a própria Duckworth.

Aos 49 anos - terá 50 quando a segunda filha nascer, em abril -, Duckworth está habituada a ser uma pioneira. Primeira mulher ferida em combate a ser eleita para o Congresso, e mais tarde para o Senado, onde foi ainda a primeira senadora de origem tailandesa.

Foi de facto em Banguecoque que Tammy Duckworth nasceu. Filha de um antigo marine, veterano da II Guerra Mundial e da guerra do Vietname, e de uma tailandesa de origem chinesa, cresceu a saltitar de país em país um pouco por toda a Ásia, onde o pai trabalhava com refugiados para a ONU e outras organizações. Foi aí que aprendeu tailandês e indonésio, línguas em que ainda é fluente hoje, além do inglês.

Quando Duckworth tinha 16 anos, a família mudou-se para o Havai, onde se formaria em Ciência Política e Assuntos Internacionais. O sonho de ser embaixadora ficou suspenso quando decidiu seguir as passadas do pai e alistar-se no exército. Foi paixão à primeira farda. Pilotar helicópteros foi a forma que encontrou de estar em combate sendo mulher. E não se pense que a explosão do rocket enquanto servia no Iraque a travou.

Num perfil que publicou em 2012, a revista Mother Jones garante que se esse foi "o momento de viragem" para a então candidata ao Congresso, lembra também que 13 meses depois do ataque dos rebeldes Duckworth já estava de volta aos treinos, com as suas duas próteses de titânio - as que tem hoje têm um padrão camuflado numa e um com o branco, vermelho e azul da bandeira dos EUA. A T-shirt com a inscrição "Meu, onde é que deixei a perna?", a provar que o sentido de humor sobreviveu com ela.

Todos os anos, a 12 de novembro, Duckworth continua a reunir-se com os três companheiros de tripulação no Black Hawk para o que chama o Dia da Sobrevivência. É a eles que a agora senadora deve a vida, tendo-a retirado do helicóptero após a queda e levado para o hospital apesar de parecer estar morta.

Verdadeira heroína de guerra, em 2005 decidiu candidatar-se à Câmara dos Representantes pelo 6.º distrito do Ilinóis, onde vivia. Perdeu, mas a política viera para ficar. Vice secretária para os Assuntos dos Veteranos na Administração Obama, destacou-se na defesa de melhores condições para os ex-militares no regresso à vida civil.

À segunda foi de vez e Duckworth conseguiu mesmo ser eleita para o Congresso em 2012. Cumpriu dois mandatos e em 2016 derrotou o republicano Mark Kirk que, durante um debate televisivo, não hesitou em atacar a sua origem tailandesa.

Casada desde 1993 com Bryan Bowlsbey, hoje major da Guarda Nacional, ser mãe foi um sonho difícil de concretizar. A primeira filha, Abigail, nasceu em 2014 depois de longos tratamentos de fertilidade. Mas o casal não queria uma filha única. Numa entrevista ao Chicago Sun Times, Duckworth explicou agora: "Fiz vários ciclos de tratamentos e tive um aborto espontâneo a tentar engravidar de novo, por isso estamos muito gratos".

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