Sevilha: o rescaldo da crise na região com mais desemprego da UE

Desemprego e despejos são dois dos problemas da Andaluzia, a comunidade mais populosa, com mais desemprego e que mais deputados elege no domingo para o Parlamento espanhol. Na sua capital, Sevilha, ainda é possível encontrar o rasto da crise

Javier Carrasco Diaz conta que vive na mesma rua onde nasceu. Só que desta vez literalmente na rua. Numa tenda, na Calle Torneo, junto à estação de autocarros da Plaza de Armas em Sevilha. Ele e mais dezena e meia de pessoas sem teto estão ali há mais de dois meses, embora por circunstâncias distintas.

"Trabalhava numa empresa de informática, havia muito trabalho, chegava a ganhar entre 3 mil a 4 mil euros por mês. A empresa, filial de uma multinacional alemã, fechou há um ano e eu deixei de poder pagar a casa que alugava. Gastei as minhas poupanças e agora vivo com um subsídio de 500 euros", afirma, explicando que prefere a rua aos albergues públicos.

"Roubam-nos tudo. Há alcoólicos. Drogados. Imigrantes. Tudo o que a Europa não quer está ali", diz, enumerando as suas razões. Divorciado, com 59 anos de idade, "muito novo para se reformar", tem três filhos a trabalhar no estrangeiro e as irmãs não o podem ajudar: uma vive na casa da mãe com os quatro filhos e outra tem os cinco filhos desempregados com ela.

Antes de a crise rebentar, Javier chegou a ter uma casa de férias em Portimão, no Algarve, mas teve que a entregar ao banco. "Nunca pensei chegar a isto. Ninguém esperava esta crise", desabafa, enquanto espera pela sopa de grão e cenoura que um cidadão solidário da cidade há de vir trazer à hora de almoço.

Em Espanha a crise esteve muito associada à bolha imobiliária e por isso a questão dos despejos evidenciou-se ao longo dos últimos anos, com episódios dramáticos - e tornando-se um tema político.

"Todas as semanas vêm aqui entre 15 a 20 famílias. A maioria dos afetados tem entre 35 e 50 anos", conta Chema Diaz, um dos muitos membros que tem a Plataforma de Afectados por la Hipoteca (PAH) na cidade de Sevilha. "Dividimo-nos por grupos ou por bancos. Cada grupo dedica-se a um banco. Renegociamos com eles, conseguindo períodos de carência para quem não pode pagar ou uma extensão do período do empréstimo", explica, sentado à mesa de um café próximo da Plaza de Pumarejo, o ex-comercial de uma empresa de decoração. Ali funcionam, numa casa ocupada, as reuniões da PAH.

E como se tornou ele um dos afetados pela ameaça de despejo? "Era um dos melhores vendedores da minha empresa e podia ganhar 6 mil euros por mês. Depois com a crise o mercado explodiu. Como o trabalho ia mal e só me faltava pagar dois anos do crédito da casa - uma vivenda de dois andares - pedi mais um empréstimo para fazer um armazém e abrir um negócio meu. Mas correu mal", admite, dizendo que entretanto deixou de pagar ao banco e, por isso, recebeu uma ordem de despejo há três anos e meio. O caso foi para tribunal e o juiz deu-lhe razão por considerar que a sua hipoteca estava mal formulada.

"Sei que tive sorte. O normal é as pessoas serem despejadas. A mim também podem acabar por fazê-lo, mas mais lentamente", confessa, explicando que as pessoas que naquele dia foram pela primeira vez à reunião têm vergonha de falar. E como está o seu caso com o banco? "Continuo sem pagar, até que cheguemos a um acordo, pois caso contrário só iria pagar juros. Isso seria dinheiro deitado à rua". Se alguma vez conseguir pagar o crédito, voltará a pedir dinheiro emprestado? "Quem está nesta situação não se vai esquecer tão cedo. Mas a crise não apareceu por acaso. Foram eles, banqueiros e financeiros, com a sua avareza, que a criaram".

As histórias de Javier e Chema são das várias que, no rescaldo da crise, existem para contar na Andaluzia, cuja capital é Sevilha (também capital da província homónima). Esta é a comunidade autonómica com mais população de Espanha (oito milhões de habitantes), a que maior taxa de desemprego tem (31,73% no terceiro trimestre deste ano) e a que mais deputados elege para o Parlamento espanhol nas legislativas do próximo domingo (61 em 350). Os partidos sabem disso e, portanto, os candidatos a primeiro-ministro do PP, PSOE, Ciudadanos e Podemos concentraram uma boa parte da sua campanha em terras andaluzas. Das sete comunidades atualmente governadas pelos socialistas, esta é uma das duas que deverão ganhar, revelou o barómetro de novembro realizado pelo Centro de Investigaciones Sociológicas.

"Os despejos não devem ser tema de confronto político, mas o PSOE sabe o mal que fez. Tem essa má consciência pela falta de sensibilidade que teve sobre o tema", afirma Alicia Martínez, deputada do PP no Parlamento da Andaluzia. Foi no governo de José Luis Rodríguez Zapatero que a então ministra da Habitação, Carme Chacón, impulsionou os "desahucios express" (despejos expresso). Alicia Martínez, que em agosto deu uma conferência de imprensa para denunciar que no ano passado a província de Sevilha teve o recorde andaluz de execuções hipotecárias, com 5 947, critica agora uma outra socialista, Susana Díaz, a atual presidente da Junta da Andaluzia.

"A Andaluzia é a região com mais desemprego de Espanha e da UE. E por causa do desemprego também há mais despejos. Se não consegue travá-los por alguma razão então a Junta da Andaluzia deve ser capaz de oferecer alternativas", afirma a parlamentar do PP. Martínez referia-se aos números de maio do Eurostat que mostraram que em 2014 a Andaluzia teve o maior índice de desemprego regional da UE, com uma taxa de 38,4%. "A Junta da Andaluzia tem 80 mil casas. Se estivessem bem geridas evitar-se-iam muitos dos despejos". Porém, as execuções hipotecárias em Espanha baixaram 12,1% entre julho e setembro deste ano, segundo dados do Conselho Geral do Poder Judicial.

Mas Susana Díaz, que foi reeleita presidente em junho graças a um acordo com o Ciudadanos, tem números preparados para as críticas e em outubro a Junta informou que impediu 7 877 despejos ao longo dos últimos três anos. Com a promessa de tornar Sevilha uma "cidade livre de despejos" foi também investido o novo presidente da Câmara, Juan Espadas, do PSOE, com o apoio do Participa Sevilha (a marca local do Podemos). Juan Manuel Flores, o seu vereador do Bem-estar social e emprego, argumenta: "Os problemas que há aqui são iguais aos do resto de Espanha e têm que ser lidos à proporção. A diferença é que aqui há um governo local que fez da habitação e do emprego uma prioridade".

E o que pensam Javier e Chema dos partidos políticos espanhóis? No entender do primeiro "PP e PSOE são o mesmo: Ladrões". Na opinião do segundo: "Falam mais do que fazem. Em linhas gerais PP e PSOE são iguais".

Enviada especial a Sevilha

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