"Seria ótimo se a Comissão tornasse Schengen novamente numa área de livre circulação"

O DN entrevistou em Bruxelas o presidente de uma das maiores associações de operadores turísticos de longo curso. Tom Jenkins leva mais de duas décadas à frente da European Travel Association e fala de um sector "em apuros", sem um produto para oferecer, e sem procura de clientes.

A Comissão Europeia apresenta esta quarta-feira um pacote de recomendações para a retoma das viagens, no espaço europeu, sem descriminação da nacionalidade. Esperam-se orientações sobre a abertura gradual das fronteiras. A medida é vista pelos operadores turísticos como condição fundamental para relançar o sector. Tom Jenkins, há mais de duas décadas à frente da European Travel Association fala ao DN, em Bruxelas, sobre um "sector em apuros".

Que expectativa tem sobre as orientações de Bruxelas?
A Comissão está numa zona muito difícil, porque tem estado até agora amplamente desamparada, quando confrontada com governos nacionais, a falarem para os espectadores nacionais, durante uma crise que é internacional.

O que é que isso significa em termos práticos?
Bem, significa simplesmente, que cada Estado-membro da União Europeia acionou políticas que apenas fazem sentido localmente e não o fizeram de forma coordenada. E, significa que o Espaço Schengen, enquanto zona em que os europeus podem movimentar-se livremente, basicamente deixou de existir. Tem agora controlos de fronteira, por toda a Europa, neste momento. E, isto significa que a Comissão está muito focada para ver se estes controlos de fronteira são levantados. E, de uma forma coordenada. Por agora, o que os Estados-Membros estão a falar é das ligações entre eles. Mas, o que a Comissão quer ver, e o que a indústria do turismo, que eu represento largamente, queremos ver, é o levantamento das restrições nas fronteiras.

Não teme que a movimentação das pessoas entre países, por razões de turismo possam contribuir para desencadear uma segunda vaga?
O perigo que existe, creio que é isto que é preciso entender, é que uma pandemia, enquanto tal, quer dizer que está em todo o lado. E, se você viver em Paris, alguém que venha de Frankfurt, não representa mais risco do que alguém que venha de Lyon. Percebo que é difícil. Se você estiver a administrar um governo nacional, é mais reconfortante dizer que está a impor controlos em todo o lado, principalmente para as pessoas que vêm de fora do país. O turismo é uma indústria vital para a Europa. E todos esperam que o turismo interno seja o primeiro a descolar. Dentro do espaço Schengen pode criar-se um mercado interno com 420 milhões de pessoas, então há algo que pode ter impacto neste verão. Se, por outro lado, se mantiverem os sentimentos nacionais, então temos um alvo muito reduzido para o turismo e para a recuperação do turismo.

Mesmo que abra fronteiras, continuará a ter que lidar com a confiança das pessoas. As pessoas querem realmente viajar, neste contexto em que nos encontramos?
Penso que há um enorme apetite. Francamente, represento a indústria do turismo, que vende a Europa como destino, em todo o mundo. Em geral, os meus clientes ou os meus associados são da América do Norte, China ou Japão. Tendem a não ser turistas europeus, mas de todo o mundo. Acabei de fazer uma conferência online, esta manhã com os meus associados chineses. E, em todo o mundo, existe um verdadeiro apetite por viagens e turismo. Obviamente, está alterado pelas preocupações com a segurança e a saúde, mas ainda há uma enorme procura latente. Penso que se as restrições forem levantadas, - nesse momento - haverá realmente uma recuperação no mercado de turismo. Não será uma recuperação total no mercado de turismo. Para isso, temos que esperar até 2021. Mas haverá muitas pessoas dispostas, preparadas e felizes para viajar neste verão, se se puder levantar as restrições.

Falou no mercado oriundo da china e dos Estados Unidos. Há de facto essa vontade de viajar para a Europa?
Oh, sim! Fizemos seminários online nos Estados Unidos e na China, e todas as pessoas relataram que há uma redução pequena - é alguma, mas não é uma grande quebra - da procura da Europa como destino, neste momento. Não penso que alguém veja uma recuperação real, na procura, para qualquer um dos mercados de longo curso, antes do último trimestre deste ano. E, a maior parte das pessoas, - três quartos das pessoas -, não antecipa qualquer volume antes de 2021. Mas, dito isto, o que vendemos, enquanto operadores de longo curso, o que meus associados vendem no Japão, na China, nos Estados Unidos e na América do Sul, no Brasil, em todo lado, o que eles vendem é o mercado europeu de serviços. É isso que as pessoas vêm visitar. É isso que as pessoas experimentam quando chegam à Europa. E, é vital para nós que haja vontade. Mas há uma coisa que agora é inexistente: não há economia de serviços na Europa neste momento. Está tudo fechado. Francamente, se não está em coma, está ligada ao ventilador. É vital que a voltemos a ter saudável de alguma forma, para que possamos realmente começar a vender outra vez, nos mercados de origens distantes. Isso tornou-se numa condição sine qua non, se quisermos ter esses preciosos turistas, que vão injetar apenas uns 20%. Na maior parte do negócio do turismo são pessoas vindas de fora da Europa. Mas essa percentagem é uma parte realmente importante. E esses 20% que entram são fundamentais para que 80% [do sector] tenha saúde. E é disso que precisamos. Precisamos de um produto turístico europeu saudável para poder vendê-lo em todo o mundo.

Mas, ouvindo o que está a dizer, pergunto-me quanto é que a probabilidade de haver uma segunda vaga pesa nas decisões que tem de tomar e nos apelos que está a endereçar à Europa?
Essa é uma das coisas que as pessoas estão especular por agora no momento. A dificuldade que temos desde o início é que simplesmente ainda não temos dados. Não sabemos qual é a taxa de infeção em vários países. Não sabemos qual é a taxa de mortalidade em vários países. Não sabemos quantas pessoas estiveram [infetadas] em vários países. Ainda somos amplamente ignorantes, em relação ao que estamos a lidar. E, acho isso, francamente, incrível ao fim de dois meses, - depois de mais de dois meses de crise. Penso, em última análise, que os governos se preocupam não com o problema errado, mas estão preocupados apenas com um dos problemas, que é o impacto que esta doença tem no sistema de saúde e nas manchetes dos jornais nacionais. E precisam de começar a preocupar-se com o que estão a fazer com a economia. E, este será um tema de conversa, tenho certeza, nas próximas quatro a seis semanas. Em suma, a narrativa sobre essa doença e as nossas reações à medida que essa doença avançou, foram transformadas nas últimas seis a oito semanas. Eu acho que também vai mudar drasticamente nas próximas seis a oito semanas. E acho que vai descobrir-se que realmente cabe às pessoas avaliar se desejam ou não correr o risco de ir de férias ou correr o risco de ir para o trabalho. E, isso vai acabar por se abandonar a ideia dos governos a dizerem às pessoas o que fazer, e passar para os governos a orientar o que eles pensam que deveria acontecer. Simplesmente, não acho que a situação atual, de transformar toda a economia de serviços da Europa, em uma economia planificada, seja sustentável a médio prazo.

Que avaliação faz do impacto no sector?
Há inúmeras análises. Eu diria que os hotéis na Europa, em termos gerais, estão 95% abaixo de onde estavam no ano passado. Os meus associados simplesmente estão 100% abaixo. Não há negócios lá fora. Estamos numa posição única de não haver produtos disponíveis no momento. Não há nada para vender ao nível da Europa como destino. E não há procura. As pessoas não podem viajar. E se sua empresa não tem procura, nem produto, você está com sérios problemas. O que, francamente, é onde estamos.

Também por isso olha com expectativa para aquilo que a Comissão Europeia tem para apresentar hoje, julgo eu.
Não se esqueça que lhes estão a pedir para reagir numa área em que eles não têm plena competência. E, penso que é muito difícil para eles. Mas, até certo ponto, seria ótimo se a Comissão tornasse novamente o Espaço Schengen numa área de livre circulação. Esta seria uma das iniciativas mais importantes. Não teria sucesso amanhã, porque há um longo caminho a percorrer. Mas se tivessem isso como objectivo, então isso dar-nos-ia algo com que negociar. Não se esqueça, que a ideia de que a Europa está parcialmente fechada é uma péssima mensagem de vendas, para as pessoas a quem se está tentar vender a Europa [como destino turístico], que são as pessoas nos Estados Unidos, Japão e China.

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