Se vencer, Hillary Clinton talvez ainda agradeça ao FBI

Diretor James Comey terá decidido reabrir investigação a e-mails da democrata com receio de uma fuga. Uma revelação depois das eleições podia estragar eventual vitória da ex-senadora

Barack Obama nunca mencionou James Comey pelo nome, mas ficou bem claro que as suas palavras se dirigiam ao diretor do FBI. "Não agimos com base em informações incompletas. Não agimos com base em fugas. Agimos de acordo com decisões concretas que são tomadas", garantiu o presidente dos EUA em entrevista ao site noticioso NowThis. A dias das presidenciais da próxima terça-feira, Obama não poupou a agência secreta americana e o seu diretor (que ele próprio nomeou em 2014), sugerindo que violou as regras de atuação e agiu com base em insinuações quando enviou uma carta ao Congresso a anunciar a existência de novos e-mails ligados ao uso do servidor privado de Hillary Clinton quando a agora candidata democrata era secretária de Estado (2009-13).

O que levou Comey a agir assim, tão perto das presidenciais, tem sido alvo de todas as teorias e especulações. E mergulhou o FBI no centro do caldeirão político norte-americano. Para alguns analistas, o diretor do Bureau, como é conhecida a polícia federal americana, decidiu agir por receio de que os novos factos acabassem por ser divulgados para a imprensa, o que viria dar novas munições a um Donald Trump que não se cansa de denunciar que as eleições são "fraudulentas". O candidato republicano ameaça mesmo não reconhecer os resultados se perder.

Caso viesse a público depois das eleições e de uma eventual vitória de Hillary, a existência dos e-mails poderia manchar o início da sua presidência, escreveram vários media americanos. A revista The New Yorker garantia mesmo que "se Clinton for eleita, ficará agradecida a Comey por ter agido assim".

Mitificado desde os tempos de J. Edgar Hoover, o homem que dirigiu o FBI durante uns impressionantes 48 anos (até 1972), o Bureau tem vivido nos últimos meses um período de divisões internas. Segundo a CNN, um dos assuntos que têm gerado tensões é a forma de lidar com os casos ligados a Hillary Clinton, com alguns setores a considerar que a forma de agir cautelosa do Departamento de Justiça (de que o FBI depende) e da própria agência perante a ex-primeira-dama tem motivos políticos. O Daily Beast fala mesmo num "sentimento anti-Clinton entre os agentes, liderado pelo ex-diretor adjunto James Kallström

As decisões de Comey têm incendiado ainda mais os ânimos. Primeiro, em julho, o diretor do FBI convocou uma conferência de imprensa para anunciar que não iria haver qualquer acusação contra Hillary no caso do uso do seu servidor privado quando estava à frente do Departamento de Estado. Isto depois de um ano de investigação. Os republicanos ficaram furiosos, acusando o Bureau de estar a beneficiar a candidata democrata. Trump respondeu com o seu grito de "Hillary, corrupta!", logo seguido por um "engavetem-na!", lançado pela assistência nos seus comícios.

O anúncio, sem aviso prévio ao Departamento de Justiça, terá sido uma usurpação do papel tradicional dos procuradores cuja tarefa passa por analisar as recomendações do FBI em segredo. O caso abriu uma guerra entre a direção do Bureau e o Departamento de Justiça. E a própria procuradora-geral, Loretta Lynch, teve de se afastar da investigação depois de um encontro com Bill Clinton.

Depois de irritar os republicanos, Comey veio agora indignar os democratas, com a carta ao Congresso a anunciar a existência de mais e-mails, encontrados no âmbito de outra investigação no computador do ex-congressista Anthony Weiner, o marido de Huma Abedin, a mais próxima assistente de Hillary. À CNN, Rick DesLauriers, ex-diretor do gabinete de Boston do FBI, garantiu que isto revela como Comey "não é partidário".

Nascido em Nova Iorque há 55 anos, Comey cresceu em Nova Jérsia e formou-se em Química e Religião antes de se doutorar em Direito. Como jovem advogado destacou-se na Divisão Criminal do Departamento de Justiça, tendo ajudado nos processo contra a família de mafiosos Gambino. Após uma passagem pelo setor privado, que incluiu cinco anos ao serviço da empresa de aeronáutica Lockheed Martin, em 2013 foi nomeado diretor do FBI por Obama. Casado e pai de cinco filhos, este descendente de irlandeses foi republicano durante a maioria parte da vida, mesmo se agora garante não ter filiação partidária. Mas tanto em 2008 como em 2012 doou dinheiro para os candidatos presidenciais republicanos John McCain e Mitt Romney.

Agora, enquanto os apoiantes elogiam a sua coragem de agir e os críticos denunciam a sua escolha de timing, Comey encontra-se no centro das atenções - um protagonista (in)voluntário nestas presidenciais.

Na campanha, a subir nas sondagens e nas hipóteses de vencer, Donald Trump deu ontem o palco à mulher. Silenciosa desde que plagiou um discurso da primeira-dama Michelle Obama na convenção de julho, Melania Trump garantiu ontem na Pensilvânia que o marido vai tornar "a América justa". A ex-modelo de origem eslovena lembrou a infância no seu país natal e a chegada aos EUA como imigrante. E, se Trump ganhar, Melania promete ser "uma defensora das mulheres e das crianças".

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