Saída de Schulz deixa UE nas mãos dos populares europeus

Era a única instituição da União Europeia dirigida por um socialista. Presidente cessante pode ser candidato a chanceler nas eleições alemãs do próximo ano.

A saída do social-democrata alemão Martin Schulz da presidência do Parlamento Europeu (PE) vai, previsivelmente, deixar a direção das principais instituições da União Europeia (UE) nas mãos do Partido Popular Europeu.

Schulz vai trocar os corredores de Bruxelas e Estrasburgo por um papel ativo na política alemã, a pensar especificamente nas legislativas previstas para setembro de 2017.

A saída do social-democrata cumpre um dos requisitos de um pacto assinado entre as duas principais famílias políticas no PE, os conservadores e democratas-cristãos, de um lado, e os sociais-democratas, do outro, que permitiu a reeleição do eurodeputado alemão em 2014 e prevê a rotação da presidência desta instituição a cada dois anos.

Neste momento, à exceção do PE, a Comissão Europeia e o Conselho Europeu são dirigidos, respetivamente, pelo luxemburguês Jean-Claude Juncker e pelo polaco Donald Tusk, ambos de partidos filiados no PPE.

O cenário da hegemonia do PPE na direção das principais instituições europeias levou o presidente do grupo dos Socialistas e Democratas (S&D), a que pertence Schulz, o italiano Gianni Pittella, a declarar que "um monopólio da direita nas instituições europeias seria inaceitável". Para este eurodeputado é verdade que, com a saída de Schulz, "vai alterar-se significativamente a dinâmica política" na UE, mas insiste na necessidade de um "equilíbrio" nas instituições.

A dimensão do trabalho de Schulz pode atestar-se pelas suas próprias palavras numa entrevista concedida há meses ao site Politico: "queria tornar o PE mais visível, ativo e influente (...). E creio que o consegui". Por seu turno, um eleito do PPE dizia ao mesmo site no final de outubro, a coberto do anonimato, que Schulz conseguira controlar os "esquerdistas" do S&D e impedira "um choque" entre estes e o PPE.

Num momento em que o SPD não descola nas sondagens - encontrando-se, em média, dez pontos percentuais abaixo da CDU da chanceler Angela Merkel, e em que o seu potencial candidato à chefia do governo e atual dirigente do partido, Sigmar Gabriel, recolhe ainda menos apoio no eleitorado -, o envolvimento de Schulz pode devolver dinamismo à campanha dos sociais-democratas.

Fora há mais de 20 anos

Schulz será cabeça de lista pelo land da Renânia do Norte-Vestefália, mas com o SPD a proceder à escolha do candidato a chanceler em finais de janeiro, ontem muitos comentadores na Alemanha não excluíam o cenário de ser o ainda presidente do PE a ser designado pelo partido para enfrentar Merkel.

Embora esteja fora da Alemanha há mais de 20 anos - foi eleito eurodeputado pela primeira vez em 1994 -, Schulz esteve sempre presente nas reuniões da liderança do SPD, todas as segundas-feiras de manhã em Berlim, e os seus níveis de popularidade são elevados. Recentes sondagens indicavam que 54% dos alemães desejam vê-lo como substituto do atual ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE), o social-democrata Frank-Walter Steinmeier, que, no quadro do acordo entre os dois parceiros da grande coligação (CDU e SPD), deverá suceder, em fevereiro, ao atual presidente Joachim Gauck, sendo eleito pelos 630 eleitos do Bundestag e por número equivalente de deputados dos parlamentos estaduais. Schulz iria, assim, chefiar a diplomacia alemã nos sete meses que antecedem as legislativas do próximo ano. Qual a importância disto?

O Frankfurter Allgemeine recordava ontem a importância do cargo de MNE em termos de experiência política para alguém que, como Schulz, não a teve a nível estadual nem federal - apenas no plano europeu. Uma experiência que não seria apenas de alguns meses mas que, como surge como cenário provável, com a repetição de uma solução governativa de grande coligação, se poderia estender por alguns anos. Além de eleito para o Bundestag, Schulz, hoje com 60 anos, teria um outro peso político no partido e no país para ser candidato a chanceler em 2022, mesmo que o seja já no próximo ano. É ainda o Frankfurter Allgemeine a destacar recentes palavras do líder do SPD, Sigmar Gabriel, em que este referiu quem for MNE determina o partido, abrindo implicitamente caminho à candidatura do presidente cessante do PE. Até porque, Gabriel, de 57 anos, espera o nascimento na próxima primavera de um terceiro filho, uma rapariga, e já tornou público que tenciona dedicar mais tempo à família. Uma forma oblíqua de dizer que a política deixará de ser a prioridade? - Afinal, como candidato a chanceler, Gabriel não recolhia mais de 18% das intenções de voto, numa sondagem de finais de outubro, enquanto Schulz chegava aos 28%, e ainda não era adquirido que estaria de regresso a Berlim.

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