Rutte deixa Wilders ao longe e meia Europa respira de alívio

Primeiro-ministro vence e extrema-direita faz pior que em 2010. São precisos pelo menos quatro partidos para ter governo

"Independentemente do resultado das eleições, o génio não vai voltar a entrar na garrafa e esta revolução patriótica, quer seja hoje ou amanhã, vai acontecer." A previsão era de Geert Wilders, líder do Partido para a Liberdade (PVV) à hora de votar. Mas quando as urnas fecharam e as sondagens à boca das urnas foram reveladas, a extrema-direita tinha ganho apenas quatro deputados em relação a 2012 e ficara abaixo dos resultados de 2010. Quem tinha motivos para festejar era o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, que ganhou, mesmo perdendo oito lugares no Parlamento.

Rutte, depois de votar, tinha considerado estas eleições "cruciais", dizendo que era "a oportunidade para uma democracia como a nossa de acabar com o efeito dominó do mau populismo". Depois da surpresa do voto do brexit e da eleição de Donald Trump nos EUA, aproximam-se duas eleições fulcrais na Europa: as presidenciais francesas e as legislativas alemãs. "A grande maioria dos eleitores holandeses rejeitaram os populistas anti-europeus. Isso são boas notícias. Precisamos de vocês para uma Europa forte", lia-se no Twitter do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Alemanha.

Com 95% dos votos contados, o Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD, centro-direita) de Rutte consegue eleger 33 deputados (de 150). Em segundo lugar, surge o PVV de Wilders com 20 deputados (tinha 15 e em 2010 tinha eleito 24), logo seguido dos democratas-cristãos do CDA de Sybrand Buma, com 19, os mesmos do democratas do D66, de Alexander Pechtold. "Ganhámos deputados! O Rutte ainda não se livrou de mim", escreveu Wilders no Twitter.

Com estes resultados, abre-se a porta à formação de um governo de coligação de centro-direita.

Depois de vários meses à frente nas sondagens, tendo prometido proibir a imigração de muçulmanos e sair da União Europeia, o líder da extrema-direita estava há semanas em queda. A tensão com a Turquia no passado fim de semana, com o governo holandês a proibir a entrada de ministros turcos para fazer campanha, beneficiou o primeiro-ministro, que recusou ceder diante do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. O bom resultado económico do país, que as previsões indicam que vai crescer 2% em 2017, também favoreceu Rutte.

A divisão de votos na Holanda implica que todos os governos têm que ser de coligação, sendo que serão precisos pelo menos quatro partidos para ter maioria (76 deputados). Antes das eleições, quando se temia uma eventual vitória de Wilders com quem ninguém queria coligar-se, o ex-primeiro-ministro Dries van Agt, que em 1977 demorou 208 dias para formar o seu primeiro executivo, dizia acreditar que o seu recorde poderia ser batido (o governo mais rápido demorou dez dias a negociar, em 1948, tendo Rutte precisado de 52 dias em 2012).

O grande derrotado foi o Partido Trabalhista (PvdA), atual parceiro de coligação de Rutte, liderado por Lodewijk Asscher e que tinha em Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, o seu principal rosto na Europa. O PvdA perdeu 29 deputados e ficará apenas com nove, segundo a sondagem, naquele que é o seu pior resultado de sempre. Dijsselbloem reagiu dizendo que o partido "nunca irá desistir". Os grandes vencedores foram os verdes do Groen Links, de Jesse Klaver, que elegem mais 10 deputados (14). No total, 28 partidos concorreram às eleições, sendo que pelo menos 12 devem conseguir eleger deputados.

A taxa de participação ficou acima dos 80%, e é a mais elevada em 31 anos - em 2012 tinha sido de 74,6%. Às 19.45 locais já tinham votado precisamente 74% dos 12,9 milhões de eleitores. Este ano, todos os votos foram contados à mão depois de terem surgido denúncias de que os programas informáticos utilizados podiam não ser seguros e estavam sujeitos a ser alvo de pirataria informática. Os problemas não são novos: já em 2007 a Holanda decidiu acabar com o voto eletrónico. Mas agora nem foi usado o software de contagem de votos. "Não quero que exista uma sombra de dúvida sobre o resultado no clima político em que estamos agora", disse o ministro do Interior, Ronald Plasterk, quando anunciou a decisão. Os resultados finais só serão conhecidos oficialmente dentro de uma semana.

Mais Notícias