Ruanda olha para o futuro 25 anos depois do genocídio

No dia 6 de abril de 1994 o avião com os presidentes do Ruanda e do Burundi foi abatido. No dia seguinte começou uma matança que durou três meses e terá eliminado 70% dos tutsis. Reconciliada, a sociedade relembra o passado.

Dois dias depois de Aline Uwase Turatsinze ter nascido eclodiu um genocídio que ceifou entre 800 mil e um milhão de vidas. Hoje trabalha num local onde mais de 60 membros da família foram enterrados. Aline é guia no memorial do genocídio do Ruanda, em Gisozi, nos arredores da capital, Kigali.

"Eu perdi muitas pessoas", disse à Reuters. "É uma responsabilidade estar aqui... Estou a proteger a memória, mas também a pôr o mote 'Nunca mais' em ação para que não aconteça em lugar algum do mundo. Nem no Ruanda, nem em lugar algum do mundo." O memorial tem os restos mortais de 250 mil pessoas resultantes dos 100 dias de genocídio.

O desastre que envolve as etnias hutu e tutsi tem raízes nos tempos do colonialismo belga, quando os tutsis foram beneficiados em detrimento dos hutus na região que é hoje o Ruanda e o Burundi. A revolta de 1959 e a independência em 1962 levaram os hutus ao poder e a cometerem ataques aos tutsis - milhares foram mortos e centenas de milhares fugiram para os países vizinhos. Em 1990, a Frente Patriótica Ruandesa (FPR), grupo rebelde de refugiados tutsis, iniciou uma guerra aberta contra o regime do militar Juvénal Habyarimana. Contra a opinião de extremistas hutus, em 1993 foi assinado um acordo de paz em Arusha, na Tanzânia. Ao derrube do avião com um míssil que transportava Habyarimana e o homólogo do Burundi, Cyprien Ntaryamira, o cessar-fogo ficou sem efeito e começou uma caça aos tutsis.

A matança levada a cabo por miltares e polícias, mas também por milícias e civis teve fim com a vitória militar da FPR, que sob a liderança de Paul Kagame entrou pelo norte do país e tomou a capital em cem dias. Nova onda de refugiados, desta vez hutus, em especial para o então Zaire (agora República Democrática do Congo) levou a novos conflitos entre 1996 e 2003.

Após o fim das mortes em massa, as comunidades destroçadas foram reconstruídas com sobreviventes lado a lado com cúmplices ou mesmo com assassinos. Mas a política oficial do país passou a ser a de igualdade entre os cidadãos e de retirar do discurso público referências às etnias.

As etnias foram um fator decisivo no genocídio, mas agora o povo ruandês "vive sem divisões étnicas, partilhando e trabalhando unido", diz Martin Mutsindashyaka. Em declarações à agência Xinhua, este polícia hutu que salvou a vida de 18 pessoas durante os massacres, ao albergá-los em casa e num esconderijo que escavou junto de casa, acredita que as políticas do governo vão no bom caminho. "Os projetos de desenvolvimento são planeados de forma a ninguém ficar para trás. Na educação, por exemplo, há igualdade de acesso para todas as crianças, e os programas de assistência social visam todos os ruandeses."

A guia do memorial não tem dúvidas: "Reconciliámo-nos", diz Aline Uwase. "Não importa com quem me case, com o filho de um sobrevivente ou com o filho de um assassino. O futuro será risonho", crê.

Perdão e igualdade

A reconciliação aconteceu com um longo processo de justiça baseado em tribunais nas comunidades chamados gacaca, cujo princípio era "a verdade cura". O repórter da New Yorker Philip Gourevitch acompanha desde 1996 uma comunidade em Taba, no centro do país, e tem uma ideia um pouco diferente. "O facto é que, evidentemente, a verdade também fere", diz em entrevista à Justiceinfo.net. Os familiares das vítimas ouviam as descrições dos assassinos e depois era pedido que concedessem perdão. Há dez anos, um sobrevivente não mostrava grande entusiasmo pelo programa do Estado. "Quando um assassino pede perdão não se pode negá-lo. Perdoamo-lo, mas não sabemos realmente se vem do nosso coração porque não sabemos se o assassino o pede com o coração", dizia Evariste. Passados dez anos, o seu cunhado saiu da prisão. O homem que então dizia não querer ver de novo é hoje companheiro de bebida no mercado local.

"O facto de grande parte da energia na reconstrução do Ruanda ter sido canalizada para a saúde pública e para o desenvolvimento económico, de as circunstâncias estarem a melhorar, significa que as pessoas veem um propósito em prosseguir, veem uma recompensa. E é mais igualitária a nível hutu/tutsi (...) Por exemplo, entre as pessoas que visito em Taba, no agregado alargado de uma das grandes famílias hutu, a geração que tinha 30 a 40 anos em 1994, toda participou no genocídio e foi para a prisão, e nenhum foi à escola. Os seus filhos vão à escola - alguns deles, mesmo com a mãe ou o pai na prisão por genocídio. Um dos assassinos disse-me: 'Antes do genocídio, para os ''pequenos hutus'' como nós, isso era impensável'.

Se hoje estas crianças têm uma oportunidade, essa foi negada a cerca de 300 mil - estimativa da UNICEF do número de mortas em 1994. Todos os dias, Aline Uwase entra numa sala do memorial com fotos de crianças mortas, acompanhadas de detalhes sobre os seus brinquedos favoritos e a maneira como morreram: a maioria foi mutilada ou espancada até a morte. "Uma pessoa nunca se acostuma", diz, a chorar. "Sempre que entro naquela sala não sou a mesma pessoa quando saio."

Com a recuperação do país, vozes da oposição criticam o presidente Paul Kagame pelo seu punho de ferro na política e no controlo dos media. Kagame obteve quase 99% dos votos em 2017. Aline Uwase diz que é graças a Kagame que o genocídio acabou e quanto aos críticos, diz para não falarem do que não sabem.

Agora o Ruanda está concentrado no futuro, conclui a guia. No mesmo tom fala o bispo Celestin Hakizimana. "O futuro do Ruanda é promissor nas várias frentes. A razão para esta perspetiva positiva é que o país tem uma boa liderança a trabalhar para manter a dinâmica", afirma este homem que, em conjunto com outros padres e guardas da igreja de São Paulo, em Kigali, acolheram e salvaram cerca de 2000 pessoas das garras das milícias.

França investiga responsabilidades

Criticado por não ter aceitado o convite para se deslocar à abertura das comemorações oficiais do genocídio, que decorrem neste domingo, o presidente francês Emmanuel Macron nomeou uma equipa para levar a cabo uma investigação ao longo de dois anos sobre o papel do exército francês no genocídio do Ruanda. A comissão de nove membros vai ter acesso a arquivos presidenciais, diplomáticos, militares e dos serviços secretos, anunciou a presidência francesa, depois de Macron se ter reunido na sexta-feira com membros de uma associação de apoio aos sobreviventes do genocídio, Ibuka France.

Sob mandato da ONU, o exército francês chegou ao Ruanda em junho - uma missão tardia e pequena, como reconheceu o então presidente Nicolas Sarkozy. Há setores da sociedade ruandesa - Kagame incluído, a acusar o exército francês de ter sido cúmplice no massacre de tutsis, hutus moderados e da tribo twa. Paris já reconheceu erros nas relações com o Ruanda, mas tem rejeitado acusações de que treinou as milícias para participarem no massacre.

Não ajudou a normalizar as relações o facto de um juiz de Paris, em 2006, ter acusado Kagame e outros nove de abater o avião do presidente Habyarimana. Kigali rejeitou as acusações e os dois países romperam os laços diplomáticos.

Os dois países acabaram por restaurar relações em novembro de 2009, com o Ruanda a pedir a França para perseguir os fugitivos do genocídio que vivem em solo francês. O Eliseu anunciou também que o tribunal francês que investiga os casos de genocídio no Ruanda vai receber recursos adicionais para acelerar os processos judiciais.

O​​​​​ presidente francês não vai estar nas comemorações do genocídio, mas em sua representação está Hervé Berville, um tutsi sobrevivente do genocídio e deputado ao Parlamento francês pelo partido no poder de Macron. "Há muitos temas nos quais devemos trabalhar em conjunto, sem fugirmos às questões complicadas", disse Berville em entrevista à TV5Monde.

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