Remdesivir, o medicamento antiviral que é a aposta dos EUA no combate ao covid-19

Três estudos, três resultados diversos. O medicamento antiviral não é a cura para o covid-19 mas pode ajudar no tratamento e a chegar a outras soluções.

O presidente dos EUA anunciou na sexta-feira que o remdesivir, um medicamento antiviral desenvolvido para tratar o Ébola, recebeu luz verde para ser utilizado por parte da agência do medicamento (FDA) depois de um ensaio ter concluído que impulsionou a recuperação em doentes graves com covid-19. "É realmente uma situação muito promissora", disse Donald Trump, na Casa Branca.

"Estou feliz em anunciar que a Gilead obteve da FDA uma autorização urgente para o uso do remdesivir", disse o líder norte-americano ao lado do presidente da empresa farmacêutica, Daniel O'Day.

"Queremos garantir que não haja obstáculos para os pacientes receberem o medicamento", disse por sua vez o administrador da farmacêutica.

A FDA aprovou o uso de emergência do medicamento, o que vai permitir a utilização em pacientes em estado grave, um quadro clínico em que se regista baixos níveis de oxigénio no sangue, o que torna necessário receber oxigenoterapia ou estar ligado a um ventilador.

Uma autorização de emergência não é uma aprovação formal, mas em casos de emergência sanitária a FDA pode autorizar certos medicamentos, caso não existam alternativas,

A Gilead tinha anunciado horas antes que iria doar 1,5 milhões de doses, o que equivale a aproximadamente 140 mil tratamentos, com base numa duração de 10 dias.

No entanto, a empresa fez saber que precisa de levar o medicamento para um "modelo sustentável". À CNBC, O'Day disse: "Compreendemos as responsabilidades que temos quer para os doentes quer para os acionistas e vamos encontrar um equilíbrio."

A Gilead Sciences gastou 50 milhões de dólares em investigação e desenvolvimento do remdesivir neste ano, um valor residual se tivermos em conta que a empresa avaliada em cem mil milhões de dólares, viu o valor das ações subir 20% desde o início de 2020.

Para tal ajudou o facto de a empresa ter acionado o mecanismo de medicamento órfão. O medicamento órfão é usado para tratar uma percentagem baixa da população e dá à empresa detentora exclusividade nas vendas e o direito de fixar preços durante sete anos, além de incentivos fiscais. No caso dos EUA é concedido pela Food and Drug Administration para um medicamento destinado a tratar doenças que afetam menos de 200 mil pessoas.

A empresa acabou por prescindir deste estatuto, mas antes recebeu uma série de críticas.

Por exemplo, o ativista Thiru Balasubramaniam, do grupo de defesa da propriedade intelectual Knowledge Ecology International, disse que a aplicação da empresa para obter essa designação é o resultado do "cálculo mórbido" da Gilead.

"Apesar dos apelos à solidariedade na sequência da pandemia de Covid-19, a Gilead Sciences demonstrou uma implacável propensão para a ganância insaciável que rivalizaria com um salteador medieval", afirmou ao Financial Times.

Mas o que faz esta droga e quais as expectativas por parte dos investigadores?

Foi a primeira vez que um medicamento mostrou eficácia contra a doença, mas os resultados ainda preliminares demonstram resultados diversos.

O remdesivir é injetado no paciente e incorporado ao genoma do vírus, causando um 'curto-circuito' no processo de replicação.

O Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID), chefiado por Anthony Fauci, divulgou na quarta-feira resultados de um teste clínico que envolveu mais de 1000 pessoas.

Demonstrou que os pacientes hospitalizados com covid-19 com dificuldade respiratória melhoraram mais rapidamente 31% do que aqueles que receberam um placebo.

"Os dados mostram que o remdesivir tem um efeito manifesto, significativo e positivo na diminuição do tempo de recuperação", disse Fauci.

"Embora os resultados tenham sido claramente positivos do ponto de vista estatístico, eles foram modestos", comentou na quinta-feira o imunologista que lidera o NIAID e um dos principais conselheiros de Trump nesta pandemia.

Apesar de não ser considerado uma cura, o estudo com remdesivir pode abrir caminho para melhores tratamentos, de acordo com Fauci.

"O que ficou provado é que um medicamento pode bloquear este vírus. Este será o padrão de cuidados", e quaisquer outros tratamentos potenciais terão agora de ser testados em comparação ou em combinação com o remdesivir, disse Fauci.

Se o tempo de tratamento baixou com a administração do medicamento, a sua importância para salvar vidas está por provar. Os dados sugerem um possível ganho nos níveis de sobrevivência com o remdesivir, embora a diferença não seja estatisticamente significativa (8% de mortos com remdesivir, 11,6% sem). Dito de outra forma: pode ter sido devido ao acaso e não ao medicamento da Gilead.

"Este não é um medicamento milagroso, mas é definitivamente melhor do que tudo o que temos", disse à Associated Press Babafemi Taiwo, chefe do departamento de infecciologia na Northwestern Medicine, de Chicago, que também participou no estudo.

O teste da farmacêutica

No estudo realizado pela Gilead, que envolveu mais de mil infetados, a maioria dos pacientes que recebeu um plano de tratamento de cinco dias registou melhoras ao fim de 10 dias, ao passo que aqueles que receberam um tratamento de 10 dias mostraram uma melhoria ao fim de 11 dias.

Após duas semanas, 64,5% no grupo de tratamento de cinco dias e 53,8% no grupo de tratamento de 10 dias tiveram alta do hospital.

Os dados do estudo sugerem também que iniciar a terapia de remdesivir mais cedo após o desenvolvimento dos sintomas pode ajudar os pacientes com COVID-19 grave a sair do hospital mais rapidamente do que aqueles que começaram a terapia mais tarde no decurso da doença.

No entanto, este estudo não teve um grupo de controlo, pelo que não se sabe se os pacientes dos dois grupos de tratamento se teriam saído melhor do que os pacientes que não foram tratados com remdesivir.

Os testes na China

A revista especializada The Lancet atira água na fervura com um teste inconclusivo realizado em Wuhan.

No teste aleatório a hospitalizados em estado grave por covid-19 os 158 pacientes que receberam remdesivir não melhoraram mais rapidamente do que os 79 pacientes de um grupo de controlo que receberam um placebo. O medicamento também não conseguiu reduzir a quantidade de vírus no corpo ou o risco de morte.

No entanto, como o surto na China ficou sob controlo, os investigadores tiveram dificuldade em inscrever um número suficiente de doentes no seu ensaio para produzir dados estatisticamente relevantes, pelo que os resultados não são conclusivos.

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