"Regime não tinha tinha possibilidade de evitar a revolução"

O DN falou com o historiador Gregory L. Freeze, especialista em História da Rússia imperial sobre o significado da Revolução de 1917 e sobre a relação entre este país e a Europa ocidental

Em entrevista realizada por e-mail, o responsável pela organização de uma História da Rússia, recentemente editada em Portugal pelas Edições 70, explica que a Revolução de 1917 era praticamente inevitável, assim como se tornou também inevitável a queda do regime soviético.

Por que é que o poder político na Rússia se mostrou pouco interessado em comemorar a revolução bolchevique?
O governo de Vladimir Putin é muito patriótico e inclinado a culpar os bolcheviques por grande parte dos males sucedidos durante as décadas do domínio soviético. Comemora as vítimas do Grande Terror, não aqueles que o perpetraram, e até agora fez apenas modestas concessões para reconhecer as contribuições de Estaline. Mas este, na verdade, é bem mais popular entre a população em geral do que o governo, como sucessivas sondagens têm mostrado.

A revolução bolchevique era inevitável, assim como o seu sucesso? O que poderia ter acontecido à Rússia se um processo político evoluísse da Revolução de fevereiro que derrubou o czar Nicolau II?
Os historiadores evitam declarações deterministas e sempre buscam alternativas, condicionantes. Neste caso, no entanto, é difícil escapar à visão de que o antigo regime tinha escassas possibilidades de evitar um caminho não revolucionário no início do século XX. Não só os problemas eram enormes, mas a capacidade de resolução de problemas do regime estava em rápido declínio. Em 1914, esses problemas - sociais, económicos, diplomáticos - eram tão grandes que o governo deixou de tentar resolvê-los e, de facto, até se congratular com a guerra estava a desviar a atenção da crise doméstica.

Os líderes soviéticos estavam conscientes das fragilidades do regime, como estas são referidas pelos analistas e historiadores?
Alguns líderes estavam cientes, mas os petrodólares da década de 1970 ajudaram a mascarar o declínio gradual da economia, ainda que, de facto, os padrões de vida estivessem num momento de apogeu. Quando Brejnev morreu, em 1982, pessoas como Andropov sabiam bem que as coisas tinham de mudar, mas não perceberam a gravidade da situação e como eram poucas as opções que tinham. Mesmo Gorbachev pensou inicialmente, em 1985, ser possível recompor o sistema. Só dois ou três anos mais tarde é que percebeu a magnitude da crise sistémica na URSS.

Há algum tipo de legado da era soviética ainda na atual sociedade russa?
A Rússia pós-soviética ainda conserva alguns dos valores positivos da era soviética - por exemplo, o forte valor colocado no interesse coletivo e na justiça social. Em tempos de crise ou de desastres naturais, as pessoas mostram-se realmente dispostas a oferecer sua ajuda. Este quadro de valores ajuda a explicar a atual conflitualidade social, especialmente o ressentimento em relação aos ricos e privilegiados.

Qual o papel da Igreja Ortodoxa na Rússia? É o verdadeiro governante no país, como alguns sugerem, é "cúmplice" ou foi "capturada" por Vladimir Putin?
A Igreja é bastante independente: tem seus próprios interesses e resiste às tentativas do regime de cooptá-la. Segue o seu próprio programa, por exemplo, na oposição ao aborto (favorecido pelo Estado) e na promoção da educação religiosa nas escolas. O Patriarca Kirill, por exemplo, votou no Conselho Mundial de Igrejas em 1980 para denunciar a intervenção soviética no Afeganistão e a independência que mostrou então, de uma Igreja separada do poder político, ainda molda seu comportamento hoje.

Ao longo da história russa, um dos debates respeita às diferenças entre aqueles que acreditam ser a Rússia parte da Europa, geográfica e civilizacionalmente, enquanto outros defendem ser a Rússia, uma entidade autónoma com identidade específica como cultura e civilização. Em sua opinião, qual das teses está mais próxima da realidade?
Na verdade, a Rússia sempre teve fortes laços com a Europa Ocidental, mesmo nos primeiros séculos. Tinha fortes laços comerciais com a Liga Hanseática e também deu muita atenção à cultura europeia, e não apenas à bizantina. Esses laços intensificaram-se muito desde 1500 com o início da "globalização", que trouxe um número crescente de estrangeiros para a Rússia e um importante número de russos a viajar pela Europa. Quando Catarina, a Grande, escreveu em 1767 que "a Rússia é um país europeu", esta imperatriz, de origem alemã, no trono russo estava apenas a expressar o que a maioria da elite já acreditava. Alguns dos chamados eslavófilos tentaram minimizar a ligação europeia, mas a globalização - que originou um enorme crescimento económico a partir de meados do século XIX - simplesmente ultrapassou a nostalgia de um "passado não europeu" inexistente.

Considerando ainda o debate referido na pergunta anterior, que momentos definiria como decisivos das tensões mencionadas?
Ser parte da Europa não significa falta de tensão e conflito - e a guerra foi um ponto de tensão particular (a invasão napoleónica em 1812, Guerra da Crimeia entre 1853 e 1856, as duas guerras mundiais). Em termos culturais, tem havido uma tensão considerável desde há muito gerada principalmente do lado ocidental, seja a russofobia no século XIX ou a mesma que vemos hoje na comunicação social americana. Sinto muito menos anti-ocidentalismo na Rússia, mesmo hoje. E se é verdade que na esfera governamental há muitas queixas sobre a russofobia, não sinto nada disso no mundo académico ou entre a população em geral. Estive há pouco em Moscovo para fazer a intervenção principal numa conferência sobre o lugar da religião na revolução russa, e eles queriam, especificamente, que fosse um ocidental a proferir a conferência.

Uma última pergunta sobre as tensões entre a Rússia e o Ocidente. Considerando a situação geográfica e factos como a Rússia tornar-se uma nação ortodoxa, as guerras com o reino da Polónia e o conflito com os tártaros no século XVI, é justo dizer que a Rússia nasceu e se construiu contra o Ocidente ou, noutra perspetiva, contra o Oriente?
Um russo preferiria dizer que herdou ou escolheu, de forma seletiva, elementos tanto do Ocidente como do Oriente. De Bizâncio herdou sua primeira cultura política (o czarismo ortodoxo) ao mesmo tempo que abraçava o espaço e legado territorial dos mongóis (com "khan" adicionado ao título do governante). Mais tarde, remodelou a sua cultura política através da enorme transferência cultural maciça iniciada com Pedro o Grande. Alguns gostam de designar a Rússia "Eurásia", para sublinhar a sua dupla identidade, o que talvez reflita melhor na atitude positiva em relação aos seus cidadãos não europeus (Não diria o mesmo para os Estados Unidos e a sua atitude em relação aos asiáticos!).

Quais as origens históricas precisas da Rússia, a Rus de Kiev ou o ducado da Moscóvia, ou ainda a uma época posterior?
A maioria dos historiadores traça as origens da Rússia ao período de Kiev (continuidade dinástica, instituições, leis), que evoluiu no período do "apanágio" (1240-1480) até evoluir para o ducado da Moscóvia (1480-1689).Pedro, o Grande (1689-1725) teve um pé na herança que conduziu ao ducado e outro na Europa ocidental sua contemporânea. O que produziu a síntese da "Rússia imperial".

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