"Quem me dera não estar aqui": trabalho de ativista portuguesa premiado em Bruxelas

Adriana Costa Santos recebeu sexta-feira o prémio Henri La Fontaine em nome da Plataforma de Apoio aos Refugiados.

"Quem me dera que não estivesse aqui. Teria preferido não ter de usar da palavra em nome de dezenas de milhares de cidadãos empenhados, mobilizados e solidários. Quem me dera que este movimento não existisse. Teria preferido que as razões pelas quais estamos aqui hoje nunca tivessem sido acontecido."

Foi com estas palavras que a ativista portuguesa Adriana Costa Santos e Mehdi Kassou receberam na sexta-feira, numa cerimónia no Senado de Bruxelas, o prémio Henri La Fontaine para o Humanismo atribuído este ano à Plataforma de Apoio aos Refugiados. O prémio foi-lhes entregue por Mohktar Trifi, presidente honorário da Liga Tunisina dos Direitos Humanos e Prémio Nobel da Paz de 2015. Com o valor de 10 mil euros, o prémio reconhece personalidades e instituições que defendem os valores promovidos por Henri La Fontaine (Nobel da Paz de 2013), tais como o humanismo e a justiça social.

Nascida em Lisboa em 1994, Adriana Costa Santos é licenciada em Relações Internacionais pelo ISCSP e está a fazer um mestrado em Antropologia na Universidade Livre de Bruxelas. Foi para a Bélgica em 2015 para fazer voluntariado e acabou por ficar, tornando-se, com Mehdi Kassou, uma das principais forças da Plateforme Citoyenne de Soutien aux Refugiés, plataforma que apoia os refugiados que chegam àquele país. Em maio, Adriana explicava ao DN que a rede conta com o apoio de milhares de cidadãos: cerca de 4500 pessoas já acolheram alguém em casa, 2500 pessoas são voluntárias para fazer viagens, e a página de Facebook da Plataforma tem mais de 48 mil seguidores.

"Quem me dera que não estivesse aqui. Teria preferido não ter de usar da palavra em nome de dezenas de milhares de cidadãos empenhados, mobilizados e solidários", disse Adriana, que proferiu em francês o discurso de aceitação do prémio em nome da Plataforma. "Gostaria que nunca tivéssemos tido de pensar ou de organizar a proteção de seres humanos vítimas de uma política migratória firme, desumana, repressiva e de uma violência cuja história teria acontecido."

Os responsáveis da Plataforma aproveitaram esta oportunidade para tecer duras críticas ao governo belga que nada tem feito para apoiar o trabalho desta organização e que também nada tem feito para ajudar os refugiados: "A nossa mobilização é: mais de 200 mil noites oferecidas. Mais de 400 mil refeições partilhadas. Mais de um milhão de sorrisos trocados. Com um número único para o nosso governo: Zero. Não há solução."

Pelo contrário, acusam. O governo deu um passo atrás quando permitiu a detenção de famílias e de menores em centros de refugiados para depois serem expulsos do país. "Somos a consequência destas decisões políticas. Somos a consequência da desumanização das decisões políticas", dizem os dirigentes da Plataforma, lembrando que a base da sua ação é a sociedade, são as pessoas. "Não temos nada a ganhar a não ser deixar um mundo mais humano para aqueles que virão atrás de nós."

No final do discurso, para além dos agradecimentos oficiais, agradeceram a todas as pessoas que tiveram oportunidade de ajudar, porque com elas aprenderam "paciência, coragem, resiliência, partilha, força, perseverança".

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