QAnon, a teoria da conspiração que cresce no Facebook e vai chegar ao Congresso dos EUA

Os seguidores desta teoria, sem qualquer base factual, acreditam que o presidente Donald Trump está a travar uma guerra secreta contra um "Estado profundo". Ou seja, contra uma cabala orquestrada por democratas e estrelas de Hollywood envolvidos numa rede de pedofilia e tráfico sexual.

Marjorie Taylor Greene venceu a nomeação republicana para o 14.º distrito da Geórgia e a empresária é agora a grande favorita a vencer um lugar na Câmara dos Representantes do Congresso dos EUA nas eleições de novembro. A particularidade da candidata? Se se confirmar essa vitória - mais do que provável num distrito ultraconservador -, Greene será a primeira apoiante da QAnon, uma teoria da conspiração que tem vindo a ganhar força no Facebook , a chegar ao Congresso norte-americano.

Mas o que é a QAnon?

Os seguidores desta teoria da conspiração, sem qualquer base factual, acreditam que o presidente Donald Trump está a travar uma guerra secreta contra um "Estado profundo". Ou seja, contra uma cabala orquestrada por democratas e estrelas de Hollywood envolvidos numa rede de pedofilia e tráfico sexual.

Segundo o The Guardian, que realizou uma extensa investigação sobre a QAnon, esta teoria evoluiu a partir do pizzagate. Em março de 2016, meses antes das presidenciais, a conta de email de John Podesta, coordenador de campanha da candidata democrata, Hillary Clinton, foi alvo de um ataque de phishing. Em novembro, a WikiLeaks divulgaria emails pessoais supostamente pertencentes a Podesta. Os defensores da teoria da conspiração pizzagate garantem que os emails continham mensagens codificadas que relacionariam restaurantes e altos funcionários do Partido Democrata a uma suposta rede de tráfico de pessoas. A teoria foi espalhada por elementos da direita americana no Twitter e no 4chan.

Apesar de o FBi já ter identificado a QAnon como uma possível ameaça terrorista, há vários elementos do Partido Republicano que defendem esta teoria da conspiração e são candidatos às eleições de novembro próximo.

Em finais de junho, o The Guardian escrevia haver mais de cem páginas, grupos ou perfis de Facebook ligados à QAnon, além de contas de Instagram. O maior destes grupos contava com 150 mil seguidores e, ao todo, estávamos a falar de cerca de três milhões de pessoas envolvidas de alguma forma com a teoria nas redes sociais.

Mas a 9 de agosto, quando o mesmo jornal voltou a fazer as contas, o número de páginas, perfis e grupos no Facebook tinha aumentado 34% e envolvia já quatro milhões de pessoas. E não só nos Estados Unidos. Nos últimos meses, a QAnon ganhou defensores um pouco por todo o mundo - do Reino Unido ao Canadá, do Brasil à Hungria, passando por Alemanha, Itália, Holanda ou Austrália.

Mas como é que começou? Na verdade, foi Trump quem a 5 de outubro de 2017, num encontro com militares, falou na "calmaria antes da tempestade". Quando inquirido por um jornalista sobre a que tempestade se referia, o presidente respondeu: "Já vão descobrir!" Para a maioria das pessoas, a frase pouco significou, estando apenas Trump a ser Trump. Mas, para quem vive para as teorias da conspiração, "A Tempestade" tornou-se o mais importante movimento da era Trump.

Dias depois, a 28 de outubro, surgia no Reddit a primeira mensagem assinada Q. No Departamento de Energia, o Q é equivalente ao mais alto nível de acesso - o Top Secret. Não tardou até que Q enviasse nova mensagem, desta vez afirmando que Hillary Clinton, a rival democrata de Trump nas presidenciais de 2016, fora "detida". Não se confirmou. Como não se confirmou que a investigação à ingerência russa nas presidenciais é apenas um embuste ou várias outras mensagens de Q.

Quem é Q é uma das grandes questões, com alguns a acreditarem que é o próprio Trump. E não falta quem - como bons seguidores das teorias da conspiração e mesmo se ideologicamente não faz qualquer sentido - esteja mais inclinado para achar que é John John Kennedy, o filho do presidente democrata John F. Kennedy (cujo assassínio em 1963 é ele próprio fonte de inesgotáveis teorias da conspiração), que morreu em 1999 aos comandos do seu avião. Uma morte que acreditam ter forjado.

"São todas as teorias da conspiração reunidas numa só, uma sinfonia de teorias da conspiração", resumiu Andy Campbell no The Huffington Post, referindo-se a Q.

Rosto da teoria

Dona de uma empresa de construção, Marjorie Taylor Greene está a tornar-se um dos rostos mais conhecidos da QAnon. Depois de ter derrotado o neurocirurgião John Cowan na corrida à nomeação republicana, em novembro a empresária terá de enfrentar o democrata Kevin Van Ausdal numa eleição que não deverá ser difícil de ganhar.

Num vídeo divulgado no YouTube, é possível ver a candidata a congressista defender "Q", a figura que terá dado início à teoria da conspiração, chamando-lhe "patriota".Noutro, a candidata surge a ameaçar os membros do grupo de extrema-esquerda Antifa, de espingarda na mão.

Nas últimas semanas, várias redes sociais tomaram medidas contra a QAnon, com o Twitter, por exemplo, a banir milhares de contas ligadas à teoria da conspiração e o TikTok a proibir hashtags ligadas a ela.

Além de defensora da QAnon, Greene é apoiante incondicional de Trump, sendo pró-lóbi das armas, a favor da construção do muro na fronteira com o México e antiaborto.

A campanha da empresária tem sido criticada inclusive por alguns republicanos, que criticaram o seu discurso contra os negros, muçulmanos e judeus.

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