Putin isolado, ministros infetados e maior número de casos novos

Mais de dez mil novas pessoas contaminadas com o coronavírus num país com uma baixíssima taxa de mortalidade e onde há médicos a cair de janelas de hospitais.

"A situação está sob controlo total", garantiu o presidente russo há menos de duas semanas, numa mensagem de Páscoa endereçada aos russos. Estará? Nos últimos dias o número de novos casos de covid-19 tem subido a ponto de a Rússia ser neste momento o país com mais novos contaminados: 10 634, elevando o total para 134 687.

As esferas do poder estão também ameaçadas pelo novo coronavírus. Vladimir Putin isolou-se na residência de verão em Novo-Ogaryovo, nos subúrbios de Moscovo desde que, na última semana de março, foi visitar um hospital e apertou a mão a um médico que, soube-se mais tarde, acusou covid-19.

É um presidente à distância, via videoconferência, o que se mostra aos russos. Putin viu-se na contingência de adiar o simbólico desfile militar do 75.º aniversário da vitória soviética na Segunda Guerra Mundial, que iria decorrer no dia 9. E já adiara
um referendo sobre as reformas constitucionais que podem permitir que permaneça no Kremlin até 2036.

"Dá a impressão de estar cansado, até aborrecido", disse Yekaterina Schulmann, ex-consultora do Kremlin para os direitos humanos ao New York Times.

Aborrecido ou não, está a liderar um país com parte do seu executivo está doente. O primeiro-ministro Mikhail Mishustin, o ministro das Obras Públicas, Vladimir Yakushev, e o seu vice Dmitry Volkov acusaram positivo no teste do coronavírus e foram hospitalizados.

O adjunto de Mishustin, Andrei Belousov, está agora a exercer as funções de primeiro-ministro interino. O porta-voz de Mishustin, Boris Belyakov, disse aos jornalistas que o primeiro-ministro se estava a sentir bem e que estava em contacto com os seus colegas.

Em contraciclo, o país prepara-se para iniciar, no dia 12, o levantamento gradual das medidas de confinamento, tal como anunciado esta semana pelo presidente. Como Putin resistiu a declarar o estado de emergência as empresas e os cidadãos não foram beneficiários de medidas de apoio.

Atenções centradas em Moscovo

Moscovo, o principal foco da epidemia, registou 5 948 novos casos nas últimas 24 horas, elevando o total da capital para 68 606. A cidade tem hospitais de campanha em instalação e poderá não estar contemplada com a medida de desconfinamento.

Os residentes da capital russa só estão autorizados a abandonar as suas casas para passear cães, levar o lixo e visitar a loja mais próxima, e viajar de automóvel.

As autoridades locais advertiram que as restrições podem vir a ser ainda mais rigorosas.

O presidente da Câmara, Sergei Sobyanin, exortou os residentes a continuarem a respeitar as regras de permanência em casa, o que se torna mais difícil com o bom tempo atual. "A ameaça está aparentemente a aumentar", escreveu Sobyanin no seu blogue.

Para o autarca, Moscovo pode ter até quatro vezes mais infectados do que os números oficiais, ou seja, mais de 250 mil pessoas, o que equivale a 2% da população da capital.

O Ministério da Saúde disse na sexta-feira que o número de crianças infectadas estava a aumentar. Duas crianças tinham morrido devido ao coronavírus e outras 11 estavam em estado grave.

Baixíssima taxa de mortalidade

Desde ontem, foram registadas 58 mortes, o que eleva o total a 1 280. Os números oficiais apontam, porém, para uma baixa taxa de mortalidade, 1%. Em termos comparativos, em Portugal é de 4,1%, nos EUA de 5,9%, na Suécia de 12,1% e em Itália de 13,7%, como se pode consultar nesta tabela da Universidade Johns Hopkins.

Há quem desconfie da informação oficial e sofra na pele por isso. É o caso de Anastasia Vasilyeva, líder sindical da Aliança dos Médicos. Há mais de um mês acusava o governo de "mentir abertamente" e acabou por ser detida, o que levou a Amnistia Internacional a afirmar que é "espantoso que as autoridades russas pareçam temer mais as críticas do que a mortífera pandemia de covid-19".

Mais interrogações são levantadas quando o ministro da Saúde, Mikhail Murashko, anunciou no dia 22 de abril que a taxa de mortalidade global do país, em 2020, diminuiu 4,5% em relação ao ano anterior.

Mas na Rússia não se fala a uma voz. A vice-presidente da Câmara de Moscovo, Anastasia Rakova, anunciou no fim de abril que o número de doentes hospitalizados com pneumonia tinha aumentado 70% no espaço de uma semana. "Isto não pode deixar de suscitar preocupação", alertou.

Para quem critica os números oficiais sobre o covid-19 os casos de pneumonia, frequentemente associada ao coronavírus, é a prova de que o número de mortos não reflete a realidade. Segundo a Radio Free Europe, Moscovo registou 7.312 casos de pneumonia em fevereiro, mais 53% do que no mês homólogo de 2019; e em janeiro o aumento era de 37%.

Médicos a cair das janelas

Por fim, há médicos a cair de janelas: Yelena Nepomnyashchaya, 47 anos, caiu de uma janela do quinto andar do Hospital para Veteranos de Guerra de Krasnoyarsk, na Sibéria. Segundo o Moscow Times, a médica tinha criticado a falta de equipamento hospitalar numa discussão com funcionários da saúde da região. Está em estado grave.

Dias depois, conta o mesmo jornal, Natalia Lebedeva morreu na sequência da queda de uma janela de uma clínica da Cidade das Estrelas, em Moscovo, centro de formação de cosmonautas. Lebedeva foi acusada de espalhar um surto de covid-19, que atingiu mais de cem pessoas da indústria espacial.

Um terceiro caso foi reportado pelo Daily Mail, no qual o médico Alexander Shulepov caiu de um segundo andar após ter feito um vídeo no qual se queixou de ser obrigado a trabalhar apesar de ele e do seu colega paramédico estarem infetado. Já no hospital, apesar da gravidade dos ferimentos, fez um novo vídeo a desmentir que tenha continuado a trabalhar enquanto estava doente.

Mais Notícias