Putin garante Kremlin até 2024 com vitória total nas legislativas

Partido do presidente teve melhor resultado de sempre: 76,2%. Restantes formações recuaram em número de eleitos. Reeleição de dirigente russo surge como adquirida em 2018.

O eleitorado russo evidencia uma "cada vez maior maturidade política". Foi nestes termos que o presidente Vladimir Putin comentou os resultados conhecidos ontem das eleições legislativas realizadas no dia anterior, em que o partido Rússia Unida, a que pertence, obteve 343 dos 450 lugares na Duma, a câmara baixa do Parlamento.

O resultado alcançado pelo Rússia Unida corresponde a 76,2% dos votos expressos - a mais significativa maioria até hoje obtida pelo partido, que tem ganho todas as eleições desde 2003, quando pela primeira vez se apresentou ao eleitorado. Foi nas eleições deste ano que um partido teve, também pela primeira vez desde 1993, uma clara maioria. O partido de Putin chegou então aos 37,57% dos votos.

O melhor resultado de sempre do Rússia Unida foi conseguido no quadro de uma conjuntura económica negativa e com recuo da afluência às urnas. Domingo, apenas 47,7% dos russos se deslocaram às assembleias de voto quando em 2011 a participação foi de 60%.

A dimensão da apatia política revela-se pelo facto de, apesar da esmagadora percentagem do partido que apoia Putin, o Rússia Unida perdeu quatro milhões de votos face aos resultados de 2011. Então chegou aos 32,3 milhões; domingo ficou-se pelos 28,2 milhões de votos.

Segundo observadores independentes, as eleições não terão sido marcadas por irregularidades relevantes. Já a oposição extraparlamentar fala na manipulação dos resultados e em casos de fraude.

Os resultados do Rússia Unida naquelas que foram as primeiras eleições desde a anexação da Crimeia, em 2014, e nas quais a guerra civil na Síria acabou por ser tema, devido ao bombardeamento americano de forças do regime de Bashar al-Assad, antecipam a inevitável vitória de Putin nas presidenciais marcadas para março de 2018.

Ainda que estejam previstas duas voltas no caso de nenhum candidato ultrapassar os 50% dos votos, perante o atual quadro político na Rússia, é impensável admitir uma derrota de Putin naquela que será a sua quarta candidatura ao Kremlin para um mandato de seis anos, até 2024. Putin terá então 72 anos e terá dirigido a Rússia praticamente durante um quarto de século. O atual líder do Kremlin foi também primeiro-ministro de 2008 a 2012, por lhe estar vedado um terceiro mandato consecutivo. A presidência foi então assumida pelo seu número dois de longa data e atual primeiro-ministro Dmitri Medvedev.

A amplitude da vitória do partido de Putin e Medvedev veio reacender o debate sobre uma possível revisão da Constituição. A finalidade seria, principalmente, a de eliminar a impossibilidade de um presidente em exercício cumprir mais de dois mandatos seguidos ou, em alternativa, aumentar a duração de cada mandato. Sendo as presidenciais daqui a mais de um ano, qualquer destes cenários não é de afastar e permitiria a Putin perpetuar-se no Kremlin pelo espaço de tempo que entenda conveniente.

"Voto de confiança"

Com reduzida taxa de participação eleitoral nas duas principais cidades da Rússia, Moscovo e Sampetersburgo (sendo que na capital apenas compareceram nas assembleias 28% dos inscritos), as eleições de domingo confirmaram os restantes partidos presentes na Duma. Mas todos em queda acentuada. Assim, os comunistas, liderados por Guennadi Ziuganov, caíram de 92 para 42 eleitos, os populistas de extrema-direita de Vladimir Jirinovsky, o Partido Liberal Democrático da Rússia, passaram de 56 para 39 deputados, e Rússia Justa, considerado social-democrata, recuou de 64 para 23 representantes. Dois outros partidos elegeram um deputado cada, além de um independente.

Para o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, o resultado representa "um impressionante voto de confiança" no presidente e na sua governação numa conjuntura complexa. Peskov recordou que se a situação económica interna resulta da queda do preço do petróleo, é igualmente reflexo das sanções ocidentais impostas a Moscovo pela anexação da Crimeia e envolvimento russo no Leste da Ucrânia. Por outro lado, a intervenção no conflito ucraniano e o apoio declarado ao regime de Assad na Síria, em choque aberto com os Estados Unidos e outras potência ocidentais, permite a utilização de argumento nacionalista que encontra amplo eco no eleitorado russo.

Ao longo da campanha, os media - na generalidade sob controlo do poder político - martelaram a ideia de que os poderes ocidentais, quer com as sanções quer com o antagonismo para com o regime de Assad, na realidade querem impedir que a Rússia seja uma grande potência.

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