"Problema do euro não é técnico, nem económico, é político"

Em Lisboa para o seminário Lições americanas sobre o euro, na FLAD, o professor de Harvard explica que pôr a responsabilidade da crise toda nos devedores foi um erro. Jeffry Frieden garante que o Reino Unido ficar de fora do euro foi "indicativo" do brexit.

Quando foi criado, o euro era visto como uma moeda que podia desafiar o domínio do dólar. Aparentemente, não aconteceu...
Ainda não.

A crise financeira mostrou que o euro ainda tem um longo caminho a fazer?
Sim. É difícil para qualquer moeda ganhar reconhecimento internacional se o país ou a união de origem estiver com tantas dificuldades como a zona euro está agora. A zona euro enfrenta muitos conflitos. Há muita incerteza sobre o que pode acontecer com o euro. Penso que o risco de o euro e a zona euro se desmoronarem é baixo, mas as pessoas continuam preocupadas. E qualquer receio em relação a futuras crises do euro mina a confiança na moeda.

São os problemas políticos que enfraquecem a moeda e não o contrário, portanto?

Sem dúvida. Os problemas do euro não são técnicos. E de certa forma nem sequer são económicos. São políticos. Tanto os EUA como a Europa enfrentaram a crise económica que começou no final de 2007. Mas se a recuperação americana não foi brilhante, recuperámos e a economia tem crescido. A recuperação europeia, ou o pós-crise, foi um desastre. Foi mal gerida, do início ao fim, pelos governos nacionais e pelas instituições da União Europeia. Eu poria a maior parte da culpa nos governos nacionais porque não há tantas instituições da UE que pudessem fazer algo em relação à crise. Há o Banco Central Europeu e este agiu de forma eficaz - após um certo tempo de espera - para tentar travar a crise. Mas a política económica não pode resolver tudo. E a verdadeira ameaça à estabilidade do euro veio da incapacidade ou falta de vontade dos governos nacionais para fazer o que era necessário para lidar com a crise da dívida. Isso é um problema totalmente político.

Temos um caso de sucesso - a Irlanda - e os países que ainda estão a lutar para sair da crise - como Portugal e sobretudo a Grécia. Para um país como Portugal, desistir da sua moeda foi uma força ou uma fraqueza?

Tudo na economia tem custos e benefícios. Por um lado, Portugal claramente beneficiou de estar no euro. E de estar na UE. Portugal foi um dos países que mais beneficiou tanto em termos dos fundos que recebe da União como em termos de acesso aos mercados europeus. Portugal é um país com salários relativamente baixos, que pode produzir produtos de alta qualidade. Também beneficiou de estar na zona euro. Primeiro porque facilita o investimento em Portugal. Tornou mais fácil para os cidadãos e para os bancos portugueses pedir empréstimos. E pedir empréstimos não é necessariamente uma coisa má. Pedir demasiado dinheiro é que é mau. Tornou-se claro com o tempo que fazer parte da zona euro é fazer parte do núcleo duro da UE. Por isso tem sido positivo para Portugal. No entanto, há uma desvantagem maior, que é quando a crise chega, Portugal não pôde fazer o que todos os manuais dizem para fazer: desvalorizar a moeda. A realidade confirmou nos últimos dez anos a importância de uma taxa de câmbio como ferramenta de política económica.

Estar na zona euro dá uma "cidadania de primeira classe", como diz. O facto de o Reino Unido sempre ter ficado fora do euro foi o primeiro sinal de que o brexit um dia ia acontecer?

Estaria a mentir se dissesse que muita gente antecipou o brexit. Porque poucos o fizeram. Mas o facto de o Reino Unido desde o início ter ficado de fora da zona euro era indicativo de que não estava tão empenhado na integração europeia quanto outros países. Há três países que, de uma forma ou de outra, ficaram de fora do euro, mas acho que ninguém duvida do empenho dos suecos ou dos dinamarqueses na UE. Mas o Reino Unido foi a única grande economia a não estar na fundação da UE (com exceção de Espanha que era uma ditadura na altura). Mesmo quando aderiu foi sempre relutante em relação às políticas de integração. Por isso não foi uma surpresa que os britânicos fossem menos entusiastas da UE do que outros. O brexit foi uma surpresa. E ainda é. Mas o facto de os britânicos serem menos entusiastas, manifesto no facto de não estarem no euro, era indicativo.

Escreveu no New York Times que a crise era "previsível e evitável". Aprendemos a lição?

Há um ditado segundo o qual os generais aprenderam sempre a lição da última batalha. Aprendemos algumas lições. Primeiro, aprendemos como os mercados financeiros podem ser frágeis. Quando escrevia que a crise era previsível queria dizer que cinco anos antes da crise muitos economistas em todo o mundo alertaram para os desequilíbrios macroeconómicos, os padrões de procura e oferta de empréstimos instáveis e não sustentáveis. E quando uma coisa não é sustentável, mais cedo ou mais tarde vai acabar. O que eles diziam, em 2004, 2005, 2006, era que o aumento extraordinário do endividamento não podia continuar e trazia a possibilidade de uma crise. Na altura, Alan Greenspan, o governador da Reserva Federal americana, estava convencido que era mais fácil limpar os estragos depois de uma crise do que tentar evitá-la. Hoje sabemos que não é assim. Até Greenspan mudou de ideias. Uma coisa que aprendemos foi a potencial fragilidade dos mercados financeiros e a necessidade de ficar atento aos padrões de empréstimos, para evitar um boom do endividamento. A segunda coisa que aprendemos foi a importância crucial da cooperação entre os principais poderes. Porque quando a crise chegou, no pior momento, após o colapso do Lehman Brother, em setembro, outubro de 2008, os sectores financeiro e comercial uniram-se e cooperaram durante um longo período, coordenando as políticas monetária e fiscal. E isso reduziu o impacto da crise. Sem essa cooperação, a crise teria sido muito mais grave. O que não aprendemos... ou melhor, ainda não descobrimos o que fazer com as bolhas imobiliárias. Neste momento há países da zona euro e regiões dos Estados Unidos que estão a viver um aumento exponencial no preço das casas. Espanha é um exemplo. Em Portugal também há um aumento dos preços em Lisboa. Começa a viver-se um boom nos preços semelhante ao que antecedeu a última crise. E ninguém sabe o que fazer quanto a isso.

Não estamos livres de nova crise?

As economias de mercado vão sempre enfrentar crises cíclicas. Tem sido verdade nos últimos 200 anos e não vai deixar de ser. O que podemos fazer - tendo em conta as lições desses dois séculos, nos anos 30 e nos anos 70 - é aprender a lidar com as crises de forma mais eficaz. Mas mais uma vez não é uma questão técnica. Em termos técnicos conhecemos muitas formas que podiam reduzir o impacto da crise que começou em 2007. Mas passados dez anos, a Europa e a zona euro estão apenas a começar a voltar onde estavam antes da crise. É uma recuperação ridiculamente longa.

A insistência na austeridade, que foi a aposta na Europa, não foi a melhor solução?

Claramente as políticas adotadas por credores e devedores não foram eficazes. O principal problema foi que desde o princípio se achou que todo o peso para resolver a crise teria de ser carregado pelos países devedores. Isso nunca acontece numa crise da dívida. O que acontece tradicionalmente é que os devedores impõem alguma austeridade e têm de reformar a sua economia porque estão em dívida. E os credores pagam um preço, restruturam a dívida, perdoam uma parte e assumem as perdas. Neste caso, com exceção da Grécia e de Chipre, não houve uma verdadeira restruturação da dívida. E todo o sacrifício foi feito pelos países devedores, o que do meu ponto de vista é injusto e pouco apropriado. E por outro lado significou que a recuperação não foi tão rápida como podia ter sido. Porque países como Portugal, Espanha, a Irlanda tiveram de adotar estas medidas de austeridade drásticas que foram política e economicamente muito difíceis. O crescimento continua lento porque o peso da dívida continua a pesar sobre países como Espanha e Portugal, desacelerando o crescimento. E também está a atrasar o crescimento na Alemanha. A ironia disto tudo é que se tivessem perguntado aos alemães há dez anos o que preferiam: a restruturação das dívidas e o resgate dos bancos com alguma austeridade nos países devedores mas que garantisse o crescimento em dois anos ou dez anos de estagnação? Eles teriam escolhido a primeira. Foi uma estratégia que não ajudou ninguém Havia a hipótese de uma solução melhor mas seria politicamente difícil de aplicar, por isso não foi seguida.

Os Estados Unidos recuperaram melhor do que a Europa...

Melhor, mas não bem.

Qual foi a maior diferença, qual o segredo do seu sucesso?

Qualquer sucesso é relativo. Os EUA recuperaram melhor do que a UE por .duas razões. Primeiro, o governo americano reagiu muito rápida e agressivamente para injetar dinheiro no sistema financeiro, resgatar os bancos e estimular a economia através de uma política fiscal. Isso ajudou. Segundo, o governo forçou os bancos a restruturar muitas das dívidas. A maior parte das nossas dívidas eram hipotecas. Os próprios bancos foram recetivos. Nenhum banco quer ficar com uma casa. Por isso pegaram neste biliões de dólares das hipotecas e, ou as rasgaram e as consideraram como perdas, lidando depois com elas nas suas contas, ou restruturaram as hipotecas de forma a que os donos conseguissem fazer os pagamentos. Podíamos ter sido feito de forma melhor, mais rápida? Sim e estaríamos melhor. Mas foi feito. E foram políticas a que os europeus acabaram por recorrer. Mas demoraram cinco, seis, sete, nove anos.

Se a UE não é um desafio à economia americana, a China é?

(Ri-se). Os EUA enfrentam muitos desafios. Um é a nível económico: a ascensão não só da China mas de toda a Ásia. A sua entrada nos mercados mudou a estrutura da economia mundial. Os efeito sentem-se muito mais nos EUA do que na Europa, uma vez que esta tem na própria Europa central e de Leste e em África os seus principais mercados. Mas os EUA têm enormes trocas comerciais com a Ásia. E agora temos uma economia que depende das exportações baratas da Ásia. Por um lado isso é bom para os consumidores, por outro não é bom para os trabalhadores e as indústrias competir com os chineses, vietnamitas, coreanos. Como vimos nas últimas eleições, há muita preocupação quanto à ascensão económica da Ásia e o que isso significa para os EUA. É a maior ameaça. É o que acontece em qualquer país quando a sua indústria perde competitividade e começa a perder empregos. A segunda ameaça é mais geopolítica. A China hoje, ao contrário do que acontecia há 40 anos, está muito envolvida na política internacional. Tanto a nível político, como económico e militar. Sente que é uma grande potência, é a segunda economia mundial.

A primeira, se medirmos em paridade de poder de compra...

A primeira em PPP, sim. Depende como se mede. Ainda é uma economia pobre, mas é muito grande. É o país mais populoso do mundo. E os chineses sentem que merecem um maior papel na arena política mundial. E isso cria fricções. Os EUA são os líderes incontestados do mundo desde a II Guerra Mundial. Agora enfrentamos o desafio de tentar integrar a China no grupo dos líderes mundiais em termos políticos e económicos. Apesar de os seus valores e os seus objetivos serem muito diferentes dos nossos. Não é um país democrático, é uma ditadura. É um sistema com um só partido. E os seus objetivos em termos diplomáticos são diferentes dos da Europa e dos EUA. Há fricção na frente económica. E há fricção na frente política, diplomática e militar. Nenhuma dessas fricções é necessariamente desastrosa. Podem ser resolvidas. Já houve um momento que o líder mundial foi desafiado. Foi quando os EUA desafiaram o Reino Unido. E na altura tratou-se de uma transição pacífica. É possível, portanto, haver uma relação de cooperação entre EUA e China. Depende dos líderes e das condições políticas em cada país.

Por falar em líderes...

Oh não

Tem de ser. Como é que a economia americana vai reagir a Donald Trump. Ou não depende de quem está na Casa Branca?

Importa quem está na Casa Branca, mas a economia americana depende de muitas outras coisas. O nosso sistema de governo é muito diferente do sistema parlamentar e o que percebemos é que temos um presidente poderosos, mas também temos uma Câmara dos Representantes, um Senado e tribunais poderosos. E temos estados poderosos. O que o presidente quer fazer é diferente do que ele consegue fazer. Isso está a ser testado agora, numa série de políticas. Há as coisas que Trump disse que queria fazer e há o que ele vai conseguir fazer. Neste momento não sabemos o que vai conseguir fazer. Para já, não teve grande impacto na despesa, nem na saúde, teve pouco impacto na política comercial ou nas relação externas. Não é claro até que ponto, mas Donald Trump vai influenciar a política económica. Com Trump na presidência, os EUA e o mundo vão ser lugares diferentes do que seriam com Hillary Clinton na Casa Branca. Trump está constrangido pela realidade da política americana e mundial, está constrangido pelas estruturas da democracia americana. Mas vai fazer diferença. Depois da sua eleição, houve um sentimento de que ia ser bom em termos macroeconómicos, porque ia cortar nos impostos, ia aumentar o investimento nas infraestruturas. E todos, até os democratas, defendem o investimento em infraestruturas. Mas nada aconteceu. O mercado reagiu na expectativa de cortes nos impostos às empresas, de mais desregulação e de mais investimento público. Mas nada aconteceu e agora todos esperam pelos próximos seis meses ou um ano.

Os mercados já começaram a reagir a essa falta de ação?

Os mercados já arrefeceram. Inicialmente acharam que ia haver grandes défices como com Reagan ou Bush pai. A teoria era: cortes nos impostos e investimento público significam aumento da dívida. Os juros sobem e o dinheiro começa a entrar no país. Mas não aconteceu. É claro que vai haver mudanças nos impostos e esse ciclo vai acontecer. Mas não vai ser tão claro quanto as pessoas estavam à espera.

O presidente dos EUA não costuma interferir na política europeia. Mas Trump apoia o brexit, apoia Marine Le Pen em França, há uma mudança de política americana?

Trump como presidente tem agido de uma forma diferente de todos os outros presidentes. A vários níveis. Não acho que antes tivéssemos um presidente que tweeta. Mas esqueçamos o homem e olhemos para as políticas americanas. A maior diferença com Trump é que a maioria do partido republicano deixou de ser o que era. Desde os anos 50 que era o partido do internacionalismo económico, do comércio livre, dos grandes empresários e do conservadorismo social. Donald Trump fez campanha contra o grande capital apesar de depois o ter contratado para a sua Administração, contra a globalização, contra o comércio livre e a finança internacional. Desde que tomou posse a sua retórica moderou-se. Já não acusa a China de manipular a moeda. Mas a sua plataforma parece ter dominado o Partido Republicano que hoje se parece cada vez mais com o partido dos anos 20: protecionista, isolacionista, não se queria envolver nas políticas europeias. Quando se evolvia era contra a cooperação com a Europa. Isso é uma grande mudança. O facto de essa mensagem, que é semelhante à do brexit, ou à do Movimento 5 Estrelas em Itália, ser tão popular na campanha e ainda o ser é uma grande mudança na política americana. Há 20 anos a América era entusiasta da globalização, do comércio. Hoje muitos americanos estão contra tudo isso e isso reflete-se nos partidos. Trump nos republicanos e Bernie Sanders do lado dos democratas candidataram-se às presidenciais como antiglobalização. Nos EUA este movimento é antiglobalização, na Europa é anti-UE. É a mesma ideia com um twist diferente.

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