Presidente do México admite que deu ordem para libertar filho de El Chapo

Ovídio Guzman foi capturado pelo exército em outubro mas foi logo libertado. López Obrador admite agora que deu a ordem e justifica a decisão. "Se não fosse suspensa a operação, mais de 200 pessoas inocentes perderiam as suas vidas."

O presidente do México Andrés Manuel López Obrador reconheceu que foi sua a ordem de libertação de Ovidio Guzmán, filho do famoso traficante El Chapo, após o suspeito de narcotráfico ter sido detido em outubro numa operação do exército em Culiacán, capital do estado de Sinaloa, no oeste do México. "Iam morrer muitos inocentes em retaliação e por isso ordenei a libertação", justificou o governante que tem mantido uma relação polémica com a família Guzman.

"Dei a ordem para que essa operação fosse interrompida e que esse suposto criminoso fosse libertado", admitiu o presidente mexicano nesta sexta-feira. "Foi assim decidido não colocar a população em risco. Se não fosse suspensa a operação, mais de 200 pessoas inocentes perderiam as suas vidas em Culiacán", acrescentou.

Foi numa conferência de imprensa nesta sexta-feira em que falou sobre a colaboração com os Estados Unidos na luta contra os cartéis de drogas, que López Obrador se referiu à operação de outubro de 2019 que terminou com 14 mortes. Reconheceu que foi sua a ordem de libertar o filho do mais famoso traficante mexicano que cumpre uma pena de prisão perpétua nos Estados Unidos, condenado por tráfico de droga.

A operação falhada em Sinaloa, segundo Obrador, foi um exemplo da relação de "respeito" que mantém com Donald Trump, a quem se referiu como "exemplo", segundo conta o jornal El Pais. "Trump falou no dia seguinte para oferecer apoio e, de uma maneira muito respeitosa, agradecemos a sua oferta mas ele entendeu que cabia a nós resolver estes casos, como sempre. Não permitiremos que nenhum governo estrangeiro interfira em assuntos que correspondem apenas às autoridades mexicanas", insistiu.

As palavras do presidente são uma confissão importante sobre o resultado de um dos capítulos mais frustrantes na luta do México contra o crime organizado. O país regista um número recorde de homicídios, com mais de 90 mortes violentas todos os dias.

Na tarde de 17 de outubro de 2019, o Exército mexicano enviou mais de 200 soldados na cidade de Culiacán e tentou capturar os filhos de El Chapo nas suas casas e entre o seu povo. Contudo, a resposta foi brutal e os soldados tiveram que retirar para evitar mortes entre os militares e a população civil, apesar de Ovidio Guzmán já estar capturado. Os homens do cartel cercaram várias instalações militares e ameaçaram explodi-las se não libertassem o chefe.

Dessa forma, López Obrador admitiu a sua responsabilidade numa decisão que gerou polémica tanto pela ordem de liberação - Ovídio é procurado pelo Estados Unidos por tráfico de drogas na chefia do cartel de Sinaloa -, como pela maneira como foram revelados no dia seguinte os nomes dos oficiais que estavam no comando da operação fracassada, ficando assim sob mira do cartel.

Até agora, López Obrador tinha dito que a decisão de liberar Ovidio Guzmán foi tomada pelo seu Gabinete de Segurança. "A captura de um criminoso não pode valer mais que a vida das pessoas. Tomaram essa decisão e eu apoiei", disse no dia seguinte.

O relacionamento de Obrador com a família Guzmán tem estado rodeado de controvérsias. Além desta libertação, existe a polémica fotografia do presidente com a mãe de Joaquín 'El Chapo' Guzmán. Há três meses, durante uma visita a Sinaloa, López Obrador cumprimentou Consuelo Loera e o aperto de mão transformou-se numa tempestade viral que monopolizou as redes sociais.

O próprio governo revelou que a mãe de El Chapo enviou uma carta ao presidente pedindo a sua mediação. "Pediu ajuda nos esforços para que o governo dos Estados Unidos permita que viaje para ver o seu filho, e vou mediar o processo. Acho que por razões humanitárias deveria ter permissão. Faria isso por qualquer ser humano", reagiu o presidente mexicano.

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