"Bolsonaro é corresponsável por estas mortes"

Arthur Virgílio Neto, que gere um dos epicentros mundiais da pandemia, fala do número de enterros seis vezes superior ao normal na cidade amazonense, e acusa o presidente de boicotar o combate à doença. "Ele é inconveniente, despreparado, vingativo..."

Com seis vezes mais enterros do que de costume, parte deles feitos sem coveiro e nalguns casos pelas mãos dos próprios familiares das vítimas, o sistema funerário de Manaus, cidade no norte do Brasil, colapsou durante a pandemia do novo coronavírus. A capital do estado do Amazonas, chamada de "nova Lombardia", por ser o novo epicentro da doença, atingiu, por sua vez, o estado de sobrelotação hospitalar.

Razões para falar com o político que enfrentou aquilo a que chegou a chamar de "barbárie", o prefeito de Manaus Arthur Virgílio Neto. Segundo relatou ao DN, a situação dos sistemas hospital e funerário parece, aos poucos, estar ficar "sob controlo" na cidade mas agora está em vias de "explodir" no interior do Amazonas.

Virgílio, que é do PSDB, o partido de Fernando Henrique Cardoso (FHC), presidente de 1995 a 2002, e dos candidatos presidenciais derrotados apenas à segunda volta José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves, não hesita em acusar Bolsonaro de "corresponsável por essas mortes".

Ao longo da conversa, o diplomata de 74 anos que desempenhou funções na embaixada brasileira em Lisboa, foi deputado federal, senador e ministro da Casa Civil de FHC, chama o presidente da República do Brasil de "populista barato de extrema-direita", de "fã de torturador", de "inconveniente", de "despreparado", de "vingativo", de "ardiloso", de "desleal".

O ex-ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta [demitido por Bolsonaro em meados de abril] disse há cerca de uma semana que Manaus estava em colapso sanitário e hospitalar completo. A situação melhorou?

Os nossos hospitais aqui, tanto aqueles que são administrados pelo governo do estado como aqueles sob gestão da prefeitura, ainda não rejeitaram ninguém mas estão próximos dos 100% de atendimento. Os cemitérios a mesma situação: os sepultamentos e cremações aqui chegaram a 167 pessoas, o número vem caindo mas a média da cidade em circunstâncias normais é de 28. Acredito que possamos aos poucos chegar a uma situação de controlo. O problema agora está sobretudo no interior do estado, completamente carente de hospitais, os que existem são desaparelhados, as emergências são poucas e nem sempre funcionais, e esse problema pode recair em cima de Manaus. A preocupação que tenho agora é mais com essas pessoas do interior e com as populações indígenas, a situação lá pode explodir.

Como está a situação dos indígenas?

As populações indígenas de Manaus, de 27 etnias e 27 línguas diferentes e uma língua geral, estão morrendo. Há muita subnotificação e muitas mortes de gente muito humilde de que nós não teremos conhecimento jamais. E cada índio que morre leva com ele uma história de 10 mil anos de tradição oral que os avós lhe contaram - repare, eu tenho 361 anos de sangue português, de que me orgulho muito, mas tenho 10 mil de civilização indígena. Um genocídio contra os índios significaria perdermos a história do Amazonas.

É o pior momento desde que está no cargo?

Sem dúvidas a pior situação da minha gestão.

Se o governo do Brasil, liderado por um adversário do confinamento, Bolsonaro, tivesse remado na mesma direção que o senhor e que a maioria dos outros prefeitos e governadores, a situação seria menos grave?

O presidente Bolsonaro porta-se com pouca responsabilidade. Sim, nós não teríamos tantas mortes se ele tivesse remado a nosso favor. Mas eu conheço o estilo dele: ele vai colocar a culpa da brutal recessão que a pandemia vai gerar nos prefeitos e governadores, dizendo que não abriram a economia, como ele pediu, enfim, vai fazer aquele populismo barato de extrema-direita, de quem acredita em tortura. Ele boicotou-nos o tempo inteiro e é corresponsável por muitas mortes. Vejo-o com responsabilidade pelo sofrimento que vimos passando, um sofrimento maior do que aqueles países dirigidos por políticos competentes, como Portugal.

Como avalia a sua gestão na pandemia e não só?

Nunca o vi trabalhar, nunca o vi na escrivaninha a assinar um papel, a ouvir e aprender com um ministro, só o vejo todos os dias a fazer aquelas cenas dele com um povo que ele deve mandar chamar, todos sem máscara, e ele com uma máscara que nem sabe usar direito, a boicotar o isolamento social, a andar pelas ruas. Fora o que ele diz todos os dias pelas rádios e pela TV, fora o clima de instabilidade política que ele cria todos os dias no país, fora os escândalos que o governo dele protagoniza diariamente. Na economia, que não é uma ciência exata, cada tolice que ele dizia, cada bobagem que ele falava, cada vez que ele se intrometia, ele deteriorava as expectativas já antes da pandemia. Agora ele quer dar a entender que a economia não estava se agravando, estava sim, já antes da pandemia. Ele é uma pessoa inconveniente para governar o Brasil.

Já disse publicamente que não acredita no exame dele, negativo, ao Covid-19.

Sim, dizem que ele teve Covid-19, não sei se ele apresentou o teste verdadeiro. E se ele está imune, quem sabe se ele já passou a doença para muita gente? Se me pedem os exames, eu entrego. Eu fiz os meus exames, rápidos e menos rápidos, e entreguei. Ele mostrou depois, muito tempo depois, há quem diga que aqueles exames não são dele, não sei. Eu, quando tive cancro da próstata, chamei toda a gente da imprensa e informei e salvei a vida de pessoas - os médicos disseram que nunca viram tanta gente fazendo exame na sequência de eu ter falado e prevenido. Ele poderia ter feito o mesmo e dito "aqui está, tive Covid, se previnam" ou então "não tive" mas eu não sei, eu não me sinto obrigado a confiar o que diz e o que mostra o presidente. Desconfio dele.

Tenho má impressão dele como pessoa - ele defende tortura, o seu ídolo é Brilhante Ustra, um torturador asqueroso - e muito má como presidente - ele prejudica o Brasil em investimentos, ele dá má imagem, ele nos envergonha. Ele é despreparado, ele é vingativo, ele divide o Brasil, ele gosta da ditadura, ele é uma figura ardilosa, ele é desleal com os seus ministros, ele tem dificuldades de relação, ele agora está a entregar cargos de milhares de milhões de reais de orçamento para o "centrão" [grupo de partidos que, por tradição, troca o seu apoio parlamentar por cargos na máquina pública] para ter uma base no parlamento depois de ter rompido com o próprio partido. A diplomacia dele é uma vergonha, com bases ideológicas e religiosas antiquadas, o ministro dele, um diplomata júnior, faz alinhamento automático aos EUA, o que ninguém fez antes dele, mas só recebe patadas do Trump.

É favorável ao impeachment nesta fase de pandemia?

Apesar de tudo, sou contra o impeachment nesta fase. Se tivermos o impeachment dele, somado ao da Dilma [Rousseff] em 2016 e ao do Collor [de Mello], em 1990, teremos uma média de um impeachment a cada nove anos, o que demonstraria um desequilíbrio e uma imaturidade democrática, por isso, sou sempre conservador em relação a impeachments. Por outro lado, não sei até quando poderemos aturar tanto desmando, tanto escândalo, tanta loucura, tanta falta de juízo.

Como foi a sua passagem pela embaixada brasileira em Lisboa?

Eu estive em Portugal durante o governo Passos Coelho, considero Portugal a minha segunda casa, é como a casa da minha avó. Era leitor diário do DN, obrigatório para mim, na qualidade de conselheiro da embaixada. Tenho saudades de Évora, do Norte e adoro Lisboa. Eu cito Portugal diariamente nesta pandemia pela competência dos seus governantes, só a Nova Zelândia se equivale neste combate.

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