Poucos portugueses votam, mas muitos temem a AfD

Comunidade portuguesa está atenta à possível entrada da extrema-direita no Parlamento federal.

"Sou estrangeiro e não posso votar", a frase aparece em alemão no fundo da fotografia de perfil do Facebook de Daniel de Oliveira Soares. São vários os elementos da comunidade portuguesa que adotaram mensagem semelhante. O motivo? "Eleger não posso, nem eu nem 13% das pessoas que vivem neste país e não têm nacionalidade alemã." O vice-presidente da Comissão Nacional para a Migração e Integração de Bremerhaven, no estado federal de Bremen, lamenta que seja necessário pedir dupla nacionalidade para poder votar. "Uma pessoa que fez aqui a escola, a universidade, há dezenas de anos que paga impostos, é afetado pela política", desabafa Jorge da Silva, "sou português, os meus pais são portugueses, os meus filhos são portugueses, porque é que tenho de negar a minha nacionalidade para votar num país onde vivo há 45 anos?" Para o informático, a viver em Münster, não faz sentido a regra, "é um pensamento atrasado numa Europa que se diz unida, sem fronteiras, global". Desde 2014 é permitido aos cidadãos da UE votar nas eleições para o Bundestag, desde que peçam dupla nacionalidade (e para isso é necessário residir há mais de oito anos no país). Arménio Fortunato chegou há 34, altura em que se mudou para a RDA (República Democrática Alemã) e sente-se mais um no país: "Todos nos aceitam, somos um elemento normal na sociedade e, apesar de tudo, ninguém nos ouve. Devia haver uma possibilidade de votar." Dono de uma agência de publicidade, afasta a hipótese de requerer outra nacionalidade: "Nunca me passou pela cabeça porque nunca me fez falta para nada, não tem sentido."

Apesar de a maioria não votar, Daniel de Oliveira Soares confessa que "os portugueses estão nervosos e fazem perguntas" em relação à Alternativa para a Alemanha (AfD). O presidente da Comissão de Estrangeiros de Bremerhaven, cidade com 1600 portugueses, sente preocupação: "As pessoas estão com medo, perguntam-me o que vai acontecer se os fascistas chegarem ao poder." Sublinha que "apesar de a comunidade ser bem aceite, não deixamos de ser estrangeiros". Mas para Tiago Pinto Pais "não há um risco iminente". Acredita que "se a linha política se consolidar, pode ser um pouco mais preocupante". Para já "a nossa cultura não é a que a AfD questiona". O empresário, presidente da Berlinda (associação cultural de Berlim), tem muitas dúvidas sobre o futuro do partido: "Vamos ver se com a entrada no Parlamento, se consolidam ou continuam a destruir-se." Jorge da Silva acredita que estão para durar, "a intenção deles é em 2021 chegar no poder", mas está descansado: "Penso que a comunidade não vai sofrer com a chegada do AfD ao Parlamento."

Em Berlim

Mais Notícias

Outras Notícias GMG