Pôr no grande ecrã os imigrantes que levaram Portugal ao Soho

Ana Ventura Miranda diz que Portuguese from Soho é o trabalho de que tem "mais orgulho"

Ana Ventura Miranda nunca tinha chorado num evento público como no dia em que Portuguese from Soho se estreou no MoMA, em Nova Iorque. "Estava num estado de nervos com medo que eles não gostassem de se ver no filme. Mas eles adoraram", relembra, sentada num dos inúmeros cafés daquela zona da baixa de Manhattan.

A ideia de fazer um documentário sobre a comunidade portuguesa que ali chegou depois da II Guerra Mundial há muito que andava na cabeça de Ana. Mas ganhou forma no dia em que teve um problema de eletricidade em casa e foi à cave à procura de uma ferramenta. Com ela ia Maria, a dona do prédio onde a fundadora do Arte Institute vive e que aos 90 e tal anos lhe explicou que as pipas de vinho que ali tinha eram dos tempos em que o marido fazia vinho na cave. "A casa dela era igual como se estivesse em Viseu. O papel de parede... entras ali e é Portugal. Eles cozinhavam de porta aberta, o prédio cheirava a peixe frito", conta Ana.

Por isso decidiu aproveitar uma ida aos EUA do primo Rui Ventura para filmar a comunidade portuguesa do Soho. "Íamos ali para os delis às 7 da manhã. Eles falavam português, iam comprar o 24 Horas, que cá ainda existe. E o papo-secos. Eu só ouvia tugas na rua a falar", lembra. Foi assim que surgiram os protagonistas do documentário. "O filme são as pessoas. Nós não fizemos um mau trabalho, mas até podíamos ter filmado tudo ao contrário. São as histórias deles, a entrega, a confiança que tiveram em mim. Não me conheciam de lado nenhum!", admite Ana, com a cadência do discurso a aumentar à medida que se entusiasma.

Durante uma hora o documentário conta as histórias destes homens e mulheres chegados a Nova Iorque no pós-guerra numa altura em que ali era uma zona de fábricas. Quando estas saíram vieram os artistas e as galerias, tornando o Soho a zona da moda e os preços das casas incomportáveis. Mas não para estas pessoas cujas rendas controladas lhe permitem continuar onde se instalaram há meio século. O objetivo de Ana é simples mas ambicioso: conseguir que a Câmara de Nova Iorque dê o nome de Portuguese a uma rua "enquanto eles ainda estiverem vivos". Até porque muitos portugueses, em Portugal como na América, nem sabem da existência desta comunidade. "Há uma igreja aqui no fundo da rua que tem os três pastorinhos. As pessoas passavam por ali e achavam que pareciam mesmo os três pastorinhos. E são! Eles tinham missa em português, tinham escola em português, tinham rancho folclórico, tinham três clubes de futebol. Quando fazemos o Portugal do Soho recriamos um deles, que é o Piolho", explica.

Com a emigração a voltar ao centro do debate com a crise financeira, Ana Ventura Miranda espera que o documentário leve Portugal a "refletir sobre o fenómeno. Muitos dos que saíram por causa da crise tinham cursos superiores, falavam línguas e hoje muitos têm grandes carreiras. Esta gente veio para cá sem nada, alguns nem sabiam ler. E nunca dizem mal de Portugal".

Confessando que este é o trabalho de que tem "mais orgulho", Ana lembra sobretudo o momento em que os portugueses do Soho chegaram ao MoMA para a estreia e viram o cartaz . "Isto são eles na rua. Quando perceberam que eram eles, com as roupas deles, choraram. Apontavam, a dizer: "isto sou eu!" Foi o reconhecimento de uma vida". Desde então "é como se fosse filha deles. Convidam-me para jantar, ligam-me a perguntar se estou a trabalhar, se comi. Até me levam arroz doce aos eventos!"

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