Populismo no feminino agita política francesa e alemã na corrida para 2017

Marine Le Pen promete que se ganhar as presidenciais fará referendo para a França sair da UE. Frauke Petry ataca política para os refugiados para fazer o seu partido, AfD, entrar pela primeira vez no Parlamento da Alemanha

Marine Le Pen e Frauke Petry lideram os dois partidos que mais têm dado que falar nos últimos tempos: a Frente Nacional (FN) e a Alternativa para a Alemanha (AfD). A primeira é candidata às presidenciais francesas de abril de 2017 e, segundo as últimas sondagens, tem fortes hipóteses de disputar a segunda volta dessas eleições. A segunda está apostada em fazer o partido entrar no Bundestag pela primeira vez nas legislativas alemãs do outono do próximo ano. Para atingirem tais objetivos, tanto uma como a outra têm radicalizado o seu discurso contra a livre circulação na União Europeia e a política dos seus respetivos países para lidar com imigrantes e refugiados, numa altura em que a ameaça do terrorismo islâmico regressou em força a solo europeu.

"Estamos apenas no início de uma catástrofe. Estes imigrantes viram um sinal de abertura da UE. É preciso dar um sinal de que não acolheremos refugiados. É preciso cortar as rotas de imigração, caso contrário seremos submergidos", disse Le Pen à BFMTV e à RMC, quando a crise dos refugiados estava no seu auge há um ano. Depois da vitória do brexit no referendo de 23 de junho no Reino Unido, a líder da Frente Nacional decidiu concentrar as suas intenções na promessa de um referendo para que também os franceses possam decidir se saem ou ficam na UE. "Farei este referendo sobre a permanência da França na União Europeia. Sim, é possível mudar as coisas. Olhem para os britânicos, eles escolheram o seu destino, escolheram a sua independência. Nós também podemos voltar a ser um povo livre, orgulhoso, independente", disse Le Pen no dia 3, no primeiro comício pós-verão.

Segundo uma sondagem do Le Figaro e da televisão LCI, que foi divulgada na quarta-feira, o atual presidente François Hollande não passaria à segunda volta das presidenciais do próximo ano, recolhendo apenas entre 11% e 15% das intenções de voto. A sondagem, realizada no início deste mês junto de 1006 pessoas, revelou que o Eliseu seria disputado na segunda volta entre os candidatos d"Os Republicanos e da Frente Nacional. Num cenário em que o candidato da direita fosse Alain Juppé, este teria 33% dos votos e Le Pen 29%. Num cenário em que o candidato fosse Nicolas Sarkozy, este teria 27% e a líder da FN 29%. Emmanuel Macron, ex-ministro da Economia de François Hollande, poderia ter entre 15% e 20%. Le Pen ameaça, assim, repetir a proeza do pai, Jean-Marie Le Pen, que disputou a segunda volta em 2002 com Jacques Chirac.

Na Alemanha, por outro lado, a questão é saber se a AfD consegue ultrapassar a barreira dos 5% para eleger deputados para o Parlamento federal (em 2013 não conseguiu e ficou-se pelos 4,7%). A nível nacional as sondagens dão 14% das intenções de voto à formação liderada por Frauke Petry. Nas eleições regionais de domingo no estado federado do Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental a AfD conseguiu 21% dos votos, à frente da CDU da chanceler Angela Merkel. Com este resultado, a AfD consegue estar representada já em nove parlamentos regionais alemães.

"Isto é uma bofetada na cara de Angela Merkel. Os eleitores deixaram claro que estão contra a sua desastrosa política de imigração. Isto põe-na no seu devido lugar", declarou Fraude Petry no domingo, reagindo ao bom resultado do seu partido nas eleições. Criado em 2013 como partido antieuro por um grupo de académicos, a AfD deslocou-se agora mais para a direita e adotou um discurso ainda mais populista. Petry chegou mesmo a sugerir numa entrevista que os polícias alemães tivessem o poder de atirar contra os refugiados logo na fronteira, por forma a salvaguardar a segurança do país.

Com sete anos de diferença (uma tem 48 e a outra 41), Marine Le Pen e Frauke Petry são os rostos femininos da vaga populista que está a abalar a UE. Enfurecido, nesta semana o alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Zeid Ra"ad al-Hussein, comparou a retórica dos populistas às táticas do Estado Islâmico. Formada em Direito, Le Pen é divorciada e tem três filhos. Expulsou o pai do próprio partido por este insistir em negar o Holocausto. Formada em Química, como Merkel, Petry usa, também como ela, o apelido do ex-marido, cresceu na ex-RDA e tem na família um pastor (Sven Petry é pastor protestante). É separada e tem quatro filhos. Confiantes, esperam que os eleitores lhes confiem o seu voto em 2017.

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