Pollard: o Snowden dos anos 80 foi libertado após três décadas

Primeiro-ministro israelita congratulou-se com libertação do ex-espião que é considerado um traidor pelos norte-americanos

Antigo analista dos serviços secretos da Marinha norte-americana, Jonathan Pollard foi preso faz hoje 30 anos por passar informações classificadas dos EUA para Israel. Condenado inicialmente à pena de prisão perpétua, saiu ontem em liberdade de uma cadeira federal da Carolina do Norte.

"Peço desculpa mas não posso fazer comentários hoje", declarou ontem aos jornalistas que o esperaram em Nova Iorque, o homem que atualmente tem 61 anos. Pollard usará agora pulseira eletrónica e terá de esperar pelo menos cinco anos antes de poder ir a Israel, país onde é considerado um herói e que lhe deu nacionalidade. Os seus advogados, porém, pediram ao presidente norte-americano que o deixe partir de imediato para Israel.

Barack Obama, segundo uma fonte oficial citada pela Reuters, não tem, contudo, intenção de alterar os termos da liberdade condicional. No passado, as sucessivas Administrações norte-americanas resistiram aos pedidos israelitas de clemência para o ex-espião. O assunto sempre foi um espinho nas relações EUA-Israel. A decisão sobre a libertação chega num momento em que os dois países estão de novo de costas voltadas por causa do acordo sobre o nuclear iraniano.

"O povo de Israel aplaude a libertação de Jonathan Pollard. Após três longas e difíceis décadas, Jonathan pode reunir-se com a sua família", declarou ontem o primeiro-ministro israelita. Benjamin Netanyahu, que esteve recentemente nos EUA e se reuniu com Obama, chegou a visitar o ex-espião em 2002. O líder israelita pediu contenção em relação aos festejos pela libertação, uma vez que todos os anos, no aniversário da prisão de Pollard, 21 de novembro, são organizadas manifestações a seu favor em Jerusalém.

O terceiro filho de um casal judeu, Pollard nasceu no Texas e apaixonou-se por Israel quando participou num programa sobre ciência organizado pelo Instituto Weizmann, em 1970. Em 1984, então analista de risco terrorista dos serviços secretos da Marinha (não conseguira entrar para a CIA), conheceu um oficial israelita a quem começou a passar informações secretas. Apesar de dizer que começou a espiar porque queria ajudar o Estado judaico e não concordava que os EUA escondessem informações valiosas de um aliado, Pollard recebeu entre 1500 e 2500 dólares por mês de Israel para o fazer.

Em 1985, a tecnologia era diferente e, ao contrário de Bradley (agora Chelsea) Manning - que copiou milhares de documentos classificados e os entregou à WikiLeaks num único CD - ou de Edward Snowden - que roubou segredos à NSA graças a simples downloads -, Pollard tinha de requisitar o material, transferi-lo da sua pasta para uma mala - por vezes dentro do carro em lavagens automáticas - e entregar tudo às sextas-feiras na casa de um funcionário israelita, que as fotocopiava. Ao longo de 18 meses, o espião norte-americano terá retirado páginas suficientes para fazer uma pilha de 1,8 metros de largura por 1,8 de comprimento e três de altura.

"Estou aliviada e contente por o nosso calvário estar finalmente a acabar. Mal posso esperar, estou a contar os dias, as horas, os minutos, os segundos até o ter nos meus braços e podermos fechar a porta do passado e reconstruir as nossas vidas", disse a mulher de Pollard, Esther. A professora canadiana, que se correspondia com Pollard na prisão, liderou a campanha no Canadá para a sua libertação, casando-se com ele em 1995. A primeira mulher do espião, Anne, que o ajudara, foi condenada a cinco anos de prisão. Quando foi libertada, ao fim de três anos, Pollard pediu o divórcio, alegando que não queria que ela ficasse presa a ele para o resto da vida.

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