"Políticas de Merkel em relação aos refugiados são difíceis de criticar pelo SPD"

Especialista em política alemã, política económica e monetária da União Europeia, Christian Odendahl, do Centre for European Reform em Berlim, diz que Angela Merkel conseguiu ocupar todo o centro político e travou o avanço do SPD.

As sondagens dizem que o SPD não se conseguiu afirmar nesta campanha. Porque acha que isso aconteceu?
É difícil para o SPD encontrar formas de criticar um governo do qual faz parte [Grande Coligação com a CDUCSU]. Depois é preciso ver que Angela Merkel é muito boa a ocupar o centro político, sendo muito difícil para os sociais-democratas diferenciarem-se das políticas dela. O SPD falhou em conseguir convencer as pessoas de que se votassem nele as coisas seriam diferentes. Muitos alemães estão satisfeitos com a forma como as coisas estão, com a situação económica, por exemplo, por isso é tão difícil para o SPD. Trouxe Martin Schulz, que é visto como outsider, alguém que talvez não tenha os conhecimentos necessários sobre política alemã.


Ser visto como um outsider pelos alemães, neste caso, não é uma coisa boa...
Como candidato alemão, ele, ex-presidente do Parlamento Europeu, teve que mostrar que a sua prioridade é o interesse nacional alemão. Se fizesse campanha centrado nas questões europeias o perigo era o de ser visto mais como ainda presidente do Parlamento Europeu do que como chanceler da Alemanha. Isso limitou-o em relação à campanha que podia fazer. A maior parte dos assuntos que têm sido discutidos na campanha têm que ver com imigração e refugiados. São assuntos em que o SPD também não se consegue distinguir, de forma positiva, da CDU. A abordagem e as políticas de Merkel em relação aos refugiados são difíceis de criticar pelo SPD.


Quem será o terceiro partido?
Penso que, provavelmente, será a AfD. O partido radicalizou-se ainda mais do que nos últimos meses, ainda que pensássemos que não era possível, com o seu líder, Alexander Gauland, a dizer que os alemães deviam orgulhar-se do que os seus soldados fizeram na II Guerra Mundial. É pena, mas a AfD tem potencial de ser o terceiro partido.


Isso não quer dizer que entrem num governo...
Não.


E o FDP? Eles estão a recuperar e fala-se da possibilidade de voltarem a governar com a CDU. Qual seria o impacto de uma coligação amarela-preta em termos de política económica e financeira?
O FDP defende a ortodoxia económica alemã e apresenta-se como a alternativa mais respeitável para a Alemanha. São a voz do ceticismo em termos de política económica europeia em relação ao que Merkel e a Grande Coligação fizeram. Não gostam das ideias de reforma de Emmanuel Macron [presidente de França]. Esse é um ponto que os distingue da CDU, que apoiou os resgates financeiros da zona euro. Não os vejo a concordar com nada do que propõe Macron. Mas também a diferença não será grande, pois Wolfgang Schäuble [ministro das Finanças alemão] também não concordará. Seria a pior coligação para a Zona Euro, mas no curto prazo não fará diferença. O teste seria uma nova crise. No passado, no segundo resgate grego, o FDP governava coligado com a CDU e votou contra. O resgate foi aprovado graças ao apoio do SPD. Por isso acho que, no final, antes de tudo colapsar, o SPD ajudará.

Em Berlim

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