Polícia divulga vídeos das buscas na casa da cientista que recusou manipular dados da pandemia

A câmara instalada na farda de um agente mostra as imagens da busca realizada na casa de Rebekah Jones, a cientista de dados que diz ter sido despedida por recusar encobrir a extensão da pandemia na Florida.

O departamento de polícia da Florida divulgou esta quinta-feira dois vídeos das buscas à casa da cientista que recusou manipular os dados da pandemia de covid-19 na Florida, EUA. As imagens mostram os agentes à espera, durante mais de 20 minutos, que Rebekah Jones abra a porta para que seja cumprido um mandado de busca. Vê-se, depois, o confronto entre a cientista e a polícia.

"Polícia. Mandado de busca. Abra a porta", ouve-se, repetidamente, os agentes a gritar enquanto esperam pela cientista de dados, que alega ter sido despedida do Departamento de Saúde do estado por recusar censurar os números da covid-19. Jones continua a publicar a sua própria contagem dos casos na Florida, acusando o governador republicano Ron DeSantis de ser o responsável por esta situação.

"Este vídeo demonstra que os agentes exerceram extrema paciência", afirmou, em comunicado, Rick Swearingen, comissário do departamento de polícia da Florida.

A polícia disse estar a responder, na segunda-feira, a um mandado de busca relacionado com um ataque informático contra os computadores do Departamento de Saúde, durante o qual os coordenadores da resposta de emergência receberam uma mensagem não autorizada.

Na sequência deste episódio, o departamento de polícia da Florida fez saber que está a investigar se a cientista acedeu de forma ilegal a um sistema de mensagens do estado para enviar aos seus antigos colegas uma mensagem pedindo-lhes que revelassem o número real de mortes por covid-19.

Segundo o jornal Tampa Bay, a mensagem enviada a 10 de novembro apelava aos coordenadores para "falarem antes que mais 17 mil pessoas morram". "Sabem que isto é errado. Não precisam de fazer parte disto. Sejam heróis. Falem antes que seja tarde demais".

Jones nega ter enviado a mensagem. Disse à CNN que não era "pirata informática".

"Os agentes deram à senhora Jones tempo suficiente para vir até a porta e resolver este assunto de maneira civil e profissional", disse o comissário do departamento da polícia da Florida, justificando a ação das autoridades durante as buscas. "Como este vídeo irá demonstrar, qualquer risco ou perigo para a senhora Jones ou a sua família foi o resultado de suas ações."

Quando abre a porta e sai da sua casa, em Tallahassee, Rebekah Jones é agarrada pelos agentes pelas costas, enquanto grita para que não apontem as armas aos seus dois filhos (de 2 e 11 anos). Anteriormente, disse que a polícia apontou armas não só a ela mas também ao marido e aos filhos. A polícia nega ter apontado armas.

Nas imagens, no momento em que a cientista abre a porta, vê-se um agente de arma em punho que parece estar a apontar na sua direção. No vídeo, também é possível ver um dos agentes com uma marreta, dando a ideia que poderia ser usada para arrombar a porta da casa da cientista.

Ouve-se os agentes a condenar o comportamento de Jones, que limpa as lágrimas durante a ação policial. "Precisa de se acalmar. Está a tomar as decisões erradas", diz um polícia. "Tudo o que precisava de fazer era abrir a porta. Não havia dúvidas de quem éramos".

Angariou mais de 200 mil dólares para financiar a sua defesa

A cientista de dados justificou a demora em abrir a porta ao dizer que se estava a vestir e reforçou que os vídeos que publicou no Twitter mostram que ela colaborou com as autoridades.

Jones foi uma das responsáveis pela construção da base de dados online da covid-19 na Florida, mas foi despedida em maio, no que disse ser retaliação pela sua recusa em censurar os números e minimizar a escala da pandemia. Alega que um dos chefes do departamento lhe pediu para manipular os dados de forma a que parecesse que a Florida estava próximo das metas que permitiam uma reabertura, após o confinamento inicial.

Rebekah Jones foi despedida no mesmo dia em que o governador ordenou a reabertura do estado, sendo que a decisão de reabrir praias, restaurantes, cinemas e outros espaços públicos levou a um novo aumento de casos.

Desde que foi despedida, continua a compilar os próprios dados sobre a covid-19 na Florida, mais detalhada do que os dados oficiais.

Entretanto, a cientista já conseguiu arrecadar mais de 200 mil dólares (cerca de 164 mil euros), através de uma página de angariação de fundos, para financiar a sua defesa.

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