Polícia brasileira lança ação contra maior grupo criminoso do país

"Africano", considerado o líder do Primeiro Comando da Capital fora da prisão, é o principal alvo da Operação Sharks contra uma organização que movimenta 100 milhões de reais por ano e vigiava até os agentes encarregados de a espiar

No início de maio, membros do Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do Brasil e da América do Sul, alugaram um carro no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Colaram o logótipo de uma emissora de TV a cabo e partiram para um condomínio onde vivem três capitães da polícia militar que investigam o PCC para "avaliar a qualidade do sinal de internet" no local. Ainda disfarçados de operadores da emissora, seguiram para a residência de um promotor de justiça, com o mesmo objetivo. A intenção dos criminosos, no entanto, era entrar em casa dos capitães e do promotor e colocar microfones para vigiar quem vigia a organização. E depois matá-los.

Esse plano foi delineado por Marcos Roberto de Almeida, mais conhecido no mundo do crime por "Tuta" ou "Africano", e líder do PCC fora da prisão, a pedido do chefe máximo da organização, Marcos Camacho, cujo nome de guerra é "Marcola" e está preso - cumpre pena de 330 anos, seis meses e 24 dias por centenas de crimes numa prisão de Brasília. O "Africano" foi o principal alvo da Operação Sharks, deflagrada nesta segunda-feira pelo ministério público de São Paulo, sede do PCC, com o apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO).

A operação previu 12 mandados de prisão e cerca de 40 de busca e apreensão contra 21 acusados de pertencerem ao comando da organização criminosa fora da prisão. Ao longo da manhã foram detidos cinco desses membros e morto outro em tiroteio na Praia Grande, no litoral do estado de São Paulo. Há elementos do PCC na mira da Sharks, entretanto, espalhados por Bolívia, Paraguai e por países africanos. É a maior operação do GAECO desde fevereiro do ano passado, quando líderes do PCC foram transferidos de prisões, e vem na sequência de outra, em agosto, que cumpriu 422 mandados de prisão preventiva e mobilizou 1100 agentes.

Uma das moradas alvo de buscas nesta segunda-feira foi uma mansão do "Africano" na Avenida Giovanni Gronchi, no Morumbi, bairro nobre de São Paulo, onde foi encontrado um carro de marca Porsche, cor branca, de acordo com reportagem do portal UOL. Noutro local, no bairro de Campo Grande, também uma área abastada da cidade, foram apreendidos telemóveis, computadores portáteis e 182.620 reais, além de um cartão de um consulado africano. Não havia ninguém nos imóveis, pelo que o líder do PCC fora da prisão segue foragido.

Segundo o ministério público, os integrantes do PCC movimentam mais de 100 milhões de reais por ano no tráfico de drogas e em quantias arrecadadas de membros do grupo criminoso. As transações são todas organizadas rigorosamente, em tabelas.

O esquema, não sendo igual, tem seis pontos de contato com o das máfias italianas, apuraram os investigadores: a existência de um "código", de um "manual" e de um "estatuto", o controlo remoto das atividades criminosas, com ordens provenientes de muitos pontos, incluindo de dentro do sistema carcerário; a hegemonia pelo território brasileiro, disputada sobretudo com o Comando Vermelho, originário do Rio de Janeiro; a expansão para países vizinhos com disputas sangrentas pelo monopólio da produção e distribuição da droga; a sofisticada engenharia financeira de lavagem de capitais; e o assistencialismo aos membros e familiares com o pagamento de mesadas, área conhecida como "setor da ajuda".

Ao contrário do que sucede com essas mafias, no entanto, os investigadores ainda não têm provas de infiltração generalizada do PCC nas instituições estatais.

O PCC, presente em 22 dos 27 estados do Brasil e em países vizinhos e até outros continentes, comanda rebeliões em prisões, assaltos a bancos e cargas, sequestros, assassinatos e narcotráfico. Atua principalmente em São Paulo mas também está presente em 22 dos 27 estados brasileiros e países vizinhos, além de manter braços em outros continentes.

Surgiu em 1993 numa prisão de Taubaté, estado de São Paulo, como retaliação contra o chamado Massacre de Carandiru, no ano anterior, uma ação policial que causou a morte de 111 detidos.

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