Pobreza e desespero: a luta das mães dos bebés afetados pelo Zika

Gabriela, Gleyse, Jackeline e Rosana mostram ao fotógrafo da Reuters como é a sua vida desde que Ana Sophia, 'Gigi', Daniel e Luana nasceram com microcefalia

Quase três anos depois de um surto de Zika no Brasil ter causado milhares de casos de microcefalia e outros problemas devastadores nos recém-nascidos, a Reuters regressou para ver como estão as mães e os seus filhos.

Zika, o primeiro vírus transmitido pelos mosquitos que afeta os fetos em desenvolvimento, já desapareceu das manchetes, mas os responsáveis de saúde temem que possa expandir-se para atingir outras populações. Em Angola, dúzias de bebés que nasceram com microcefalia desde 2017 parecem estar ligados à mesma estirpe do Zika que atingiu a América Latina.

No Nordeste do Brasil, falámos com quase 30 mães que contraíram o vírus do Zika durante a gravidez. A maioria foi abandonada pelos maridos e tem que cuidar sozinha dos filhos.

Muitas mulheres adaptaram-se ao choque inicial de ver a deficiência dos seus filhos, trocando sonhos sobre as próprias carreiras pela realidade de cuidar 24 horas por dia de uma criança que pode nunca andar ou falar.

Muitas têm dificuldades em sobreviver com um cheque mensal por incapacidade de 954 reais (cerca de 225 euros), que tem que pagar casa, alimentação, medicamentos e transporte para as frequentes visitas ao médico.

Algumas procuram o conforto entre outras mães cujos filhos partilham o mesmo problema. Outras expressão gratidão por membros de família ou amigos que lhes permitem uma pausa da rotina diária. Muitas confessam o seu desespero e depressão, e algumas pensam no suicídio. Mas partilham um amor feroz pelos seus filhos e uma esperança numa vida melhor.

Quatro delas ofereceram-nos um vislumbre da sua vida diária em casas simples nos arredores de Recife e Olinda, duas cidades no estado de Pernambuco.

Gabriela e Ana Sophia

Gabriela Alves de Azevedo, de 22 anos, vive nos arredores de Olinda com a filha, Ana Sophia, que tem quase três anos.

Ana Sophia tem microcefalia, uma rara deficiência de nascimento marcado por uma cabeça pequena, que assinala o fim do desenvolvimento cerebral durante a gestação. Antes do Zika, estas deficiências nunca tinham sido relacionadas com doenças transmitidas por mosquitos. Além de problemas de desenvolvimento, Ana Sophia tem problemas de visão e de audição e dificuldades em engolir.

Gabriela tinha planeado acabar o secundário e estudar terapia física. Agora, passa os dias a cuidar da filha. O marido foi-se embora pouco tempo depois do nascimento de Ana Sophia. Não conseguia aceitar a condição da filha, diz Gabriela, e não paga pensão de alimentos.

"Entrei em depressão e a minha família ajudou-me", disse. "Se não fosse por eles, teria ficado maluca."

Hoje, alguns familiares dão apoio moral e a avó paterna de Ana Sophia ajuda com o seu cuidado do dia-a-dia.

Gabriela faz exercícios de terapia física em casa com a filha e acredita que a sua saúde melhorou.

"Hoje, trato a minha filha como uma criança normal. Sei que ela tem uma deficiência, mas faço de conta que não tem."

Gleyse e 'Gigi'

Gleyse Kelly da Silva, de 28 anos, tem a ajuda do marido e da mãe a cuidar de Maria Giovanna 'Gigi' da Silva, de três anos. Mas o fardo ainda é grande, e foi obrigada a deixar o seu trabalho como assistente numa portagem.

Depois de a Gigi nascer, houve muitas consultas com equipas médicas para tentar perceber o impacto real do Zika. Essas visitas são menos frequentes, mas os desafios médicos de 'Gigi' são significativos.

"As pessoas não respeitam os direitos da minha filha", disse. Outras mães contaram histórias semelhantes, incluindo de um passageiro de autocarro que recusou andar no mesmo transporte que "esse demónio", referindo-se a um bebé com microcefalia.

Essas dificuldades levaram Gleyse a ajudar a criar a União das Mães dos Anjos, que providencia conselhos e apoio logístico a mães com crianças com microcefalia. O grupo serve agora mais de 250 famílias em Pernambuco.

Gleyse diz que algumas mães abandonaram os filhos devido às muitas dificuldades, enviando-os para viver com avós ou outros parentes. Ela está determinada a encontrar um lugar no mundo para as crianças como 'Gigi'. O conselho dela a outras mães: "Nunca desistam."

Jackeline e Daniel

Há alguns anos, Jackeline Vieira de Souza, de 28 anos, de Olinda, lutou para ultrapassar uma complicação muito rara numa outra gravidez, e depois sobreviveu a um cancro.

"O meu sonho era ser novamente mãe", diz.

Em 2015, cumpriu o sonho. Mas, durante a gravidez, descobriu que o filho, Daniel Vieira de Oliveira, tinha microcefalia.

"Quando ele nasceu, apaixonei-me por ele porque sabia que seria uma coisa boa na minha vida, mesmo com as dificuldades que teria que enfrentar."

O pai de Daniel separou-se da Jackeline pouco depois de saber que o filho tinha microcefalia. Envia um pequeno montante à família todos os meses, além do cheque adicional que Jackeline recebe do governo.

São precisas várias horas para viajar de autocarro entre a sua casa em Olinda e Recife, onde Daniel recebe tratamento. Ultimamente, essas viagens são menos frequentes, e Jackeline acredita que a saúde de Daniel está mais estável.

Ela não tem ilusões de que o filho alguma vez vai andar, comer sozinho ou viver uma vida normal. Contudo, em muitas formas, está grata pelo seu bebé "milagroso", que diz que a torna "feliz e mais realizada".

Rosana e Luana

Rosana Vieira Alvez, de 28 anos, tem três filhas, mas quase toda a sua atenção vai para a mais nova, Luana Vieira da Silva, de três anos.

"É difícil gerir as meninas. Algumas delas são invejosas, mas a Luana precisa de mais cuidados. Com o tempo, elas vão entender."

Rosana não tem apoio da família e está assoberbada com os custos da habitação e dos medicamentos de Luana. Considera uma vitória ter sido capaz de encontrar uma cadeira de rodas para a Luana, e preocupa-se com as quatro cirurgias que a filha precisa para corrigir problemas com os olhos, com o intestino, com a posição das suas ancas e pés.

As exigências levaram Rosana a alguns lugares complicados e confessa que já pensou no suicídio. Mas ainda sonha com um futuro melhor, e espera conseguir um diploma em contabilidade ou engenharia civil.

"Tenho a certeza que um dia vou lá chegar", afirmou.

Jornalista da Reuters

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