"Pior ministro de Bolsonaro" pode estar a caminho de cargo em Portugal

Na corda bamba, o titular da educação Abraham Weintraub, conhecido pelas trapalhadas na condução da pasta, pelos constantes erros ortográficos, por chamar os juízes do supremo de "vagabundos" e por protagonizar figuras constrangedoras nas redes sociais, é equacionado para posto diplomático em Lisboa

Jair Bolsonaro estuda a possibilidade de enviar o seu ministro da educação, cuja saída do cargo é reclamada até por colegas no governo, para um posto diplomático em Portugal.

Abraham Weintraub, 48 anos, que acumula gafes em um ano e dois meses na função, foi alvo de uma hashtag na rede social Twitter, que se tornou a mais partilhada e comentada do país, a chama-lo de "pior ministro da história", opinião partilhada por boa parte dos colunistas da imprensa e pela generalidade do meio académico brasileiro.

"Jagunço do bolsonarismo que envergonha a pasta", resumiu o jornal Folha de S. Paulo em editorial de terça-feira, dia 16.

Em fevereiro, até estudantes do departamento da Universidade de São Paulo em que Weintraub se formou exigiam a sua renúncia.

Segundo a CNN Brasil, Bolsonaro passou toda a manhã desta quarta-feira, dia 17, a trabalhar com os seus núcleos político e jurídico no sentido de encontrar uma solução honrosa para um dos ministros, que embora impopular, é dos mais fiéis ao presidente da República. Uma posição em Lisboa é vista como ideal.

Rui Tavares, fundador do Livre, reagiu afirmando que "Portugal não é caixote de lixo do bolsonarismo", opinião partilhada pela ex-eurodeputada Ana Gomes, do PS.

O ministro ficou conhecido pelo acúmulo de erros de português utilizados nos seus Tweets e até documentos oficiais. Num ofício enviado ao colega da economia reclamou da "paralização" das pesquisas e da "suspenção" de verbas em vez de se referir a "paralisação" e "suspensão".

Em resposta ao deputado Eduardo Bolsonaro, agradeu o apoio dele e notou uma questão ainda mais "imprecionante" no lugar de "impressionante".

Reclamou de notícias dizendo que ele "insitaria" à violência, quando o correto é usar "incitaria".

Confundiu o escritor checo Kafka com kafta, um petisco de origem árabe muito apreciado no Brasil e chamou os apoiantes de Lula da Silva de "acepipes" [aperitivos], presumindo-se que queria usar asseclas [aliados, admiradores]".

Erros de concordância e de acentuação também são comuns na comunicação do ministro da educação.

Além dos erros, outro momento considerado embaraçoso foi quando citou um personagem da banda desenhada brasileira Turma da Mônica, o Cebolinha, para se referir aos chineses. Cebolinha troca os "r" por "l", um estereótipo utilizado em relação aos orientais.

"Geopolíticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?", escreveu, a propósito da pandemia do coronavírus. A diplomacia da China, maior cliente do Brasil, reagiu energicamente.

Noutra ocasião publicou vídeo, com um guarda-chuva, a cantar, ao som de "Singin' in The Rain" que havia chuva de fake news.

Mas além da forma, o conteúdo da sua política foi o que mais provocou a revolta de educadores e estudantes em geral. Acusado de promoção do obscurantismo, sob sua gestão o exame nacional do ensino médio decorreu repleto de erros que afetaram milhares de estudantes.

A situação de Weintraub no governo tornou-se quase insustentável depois da sua participação, no fim-de-semana passado, numa manifestação da milícia armada pró-bolsonarista "300 do Brasil" na qual, a propósito dos juízes do Supremo Tribunal Federal (STF), reforçou que os considerava "vagabundos",

Reforçou porque na reunião ministerial de 22 de abril que se tornou pública por estar incluída nas investigações sobre a suposta interferência de Bolsonaro na polícia federal, o ministro da educação já havia dito que, por ele, mandava "todos os vagabundos de Brasília para a prisão, a começar pelos juízes do STF".

Ao reafirmar essa posição numa manifestação pública com um grupo de extrema-direita, foi repreendido pelo próprio Bolsonaro, que o considerou "um problema" e classificou a situação de "imprudente".

A ala dos ministros que quer apaziguar as tensas relações do governo com o Congresso, o STF e outras instituições passou a reclamar a cabeça de Weintraub. No entanto, com forte relação com a chamada ala ideológica do bolsonarismo, representada pelos filhos do presidente e por Olavo de Carvalho, o guru da extrema-direita à brasileira, o ministro vem sendo poupado da demissão.

Weintraub assumiu em abril de 2019, após consulado de dois meses no ministério de Ricardo Vélez, que caiu depois de pretender que todas as escolas do Brasil filmassem os estudantes a cantar o hino e a repetir o slogan bolsonarista "o Brasil acima de tudo, Deus acima de todos". Vélez disse ainda que os brasileiros deviam deixar de se comportar como "canibais" sempre que viajavam ao estrangeiro.

Segundo a imprensa brasileira, Bolsonaro já está a entrevistar candidatos ao cargo de seu terceiro ministro da educação.

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